quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Não, Cristo não é o sobrenome de Jesus: descubra o que esse título significa



Por R. C. Sproul
Por todo o Novo Testamento, nós encontramos muitos títulos para Jesus de Nazaré—"Filho de Deus", "Filho do Homem", "Senhor", entre outros. No entanto, o título que é mais frequentemente dado a Jesus no Novo Testamento é aquele que nos é familiar, mas que nós não entendemos bem. É o título de "Cristo".

Por que eu digo que nós não entendemos bem esse título? Eu digo isso porque "Cristo" é utilizado tantas vezes em conjunto com o nome "Jesus", que temos a tendência de pensar que esse é o seu sobrenome. No entanto, "Cristo" não é um sobrenome para Jesus. Ele teria sido conhecido como "Jesus Bar-José", que significa "Jesus, filho de José". Ao invés disso, "Cristo" é o título supremo de Jesus. Mas o que isso significa?

O significado de Cristo é tirado do Antigo Testamento. Deus prometeu aos antigos israelitas que o Messias viria para libertá-los do pecado. A ideia do Messias é transportada para o Novo Testamento com o título de Cristo. A palavra grega Christos, de onde nós obtemos a palavra Cristo, em português, é a tradução do termo hebraico Mashiach, que é a fonte para a palavra Messias, em português. Mashiach, por sua vez, está relacionada com o verbo hebraico masach, que significa "ungir". Portanto, quando o Novo Testamento fala de Jesus Cristo, ele está dizendo "Jesus, o Messias", que significa literalmente "Jesus, o Ungido".

Nos tempos do Antigo Testamento, as pessoas eram ungidas quando chamadas para servirem como profeta, sacerdote ou rei. Por exemplo, quando Saul foi o primeiro rei de Israel, o profeta Samuel ungiu sua cabeça com óleo, de forma cerimonial (1 Samuel 10:1). Este rito religioso foi realizado para mostrar que o rei de Israel tinha sido escolhido e capacitado por Deus para o reinado. Da mesma forma, os sacerdotes (Êxodo 28:41) e profetas (1 Reis 19:16) foram ungidos segundo o mandamento de Deus. Em certo sentido, qualquer um no Antigo Testamento que tenha sido separado e consagrado para servir era um messias, por ter recebido uma unção.

Mas o povo de Israel ansiava por aquele indivíduo prometido que era para ser, não apenas um messias, mas o Messias, Aquele que seria separado e consagrado por Deus de forma suprema para ser o Profeta, Sacerdote e Rei do povo. Assim sendo, no momento em que Jesus nasceu, existia uma grande expectativa entre os judeus que haviam esperado pelo Messias durante séculos.

Surpreendentemente, quando Jesus começou o seu ministério público, poucos o reconheceram por quem ele era, apesar das muitas evidências de que ele possuía uma unção de Deus que ultrapassou em muito aquela que repousara sobre qualquer outro homem. Sabemos que houve uma grande confusão a seu respeito, mesmo depois dele haver ministrado por algum tempo. Em um ponto, Jesus perguntou aos seus discípulos: "Quem diz o povo ser o Filho do Homem?" (Mateus 16:13 b). Ele estava analisando a sua cultura, verificando os rumores sobre si mesmo. Em resposta à pergunta de Jesus, os discípulos enumeraram vários pontos de vista que estavam sendo apresentados: "Uns dizem: João Batista; outros: Elias; e outros: Jeremias ou algum dos profetas" (versículo 14). Jesus estava sendo identificado com todos os tipos de pessoas, mas nenhuma dessas especulações estava correta.

Em seguida, Jesus perguntou aos discípulos: "Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou?" (versículo 15b). Pedro respondeu com o que é conhecido como a grande confissão, uma declaração de sua crença sobre a identidade de Jesus: "Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo" (versículo 16). Com essas palavras, Pedro declarou que Jesus era o Christos, o Mashiach, o Ungido.

Então Jesus disse algo interessante. Ele disse a Pedro que este era abençoado por ter aquela compreensão da identidade de Jesus. Por que ele disse isso? Jesus explicou: "porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus" (versículo 17). Pedro havia recebido uma revelação divina de que Jesus era o Messias, não era algo que ele havia discernido pela sua própria capacidade. Novamente, isso me deixa maravilhado, porque alguém poderia pensar que quase todo mundo que encontrou Jesus o tenha reconhecido imediatamente como o Messias. Afinal, não há falta de informação no Antigo Testamento sobre a vinda do Messias—onde ele nasceria, como ele se comportaria e que poder ele manifestaria— e todos podiam ver o que Jesus estava fazendo—ressuscitando pessoas dentre os mortos, curando todos os tipos de doenças e ensinando com grande autoridade. Mas, é claro, eles não o reconheceram. A unção de Jesus não era imediatamente aparente.

Muitas pessoas hoje em dia têm coisas positivas a dizer sobre Jesus como um modelo de virtude, um grande mestre e assim por diante, mas eles não chegam a dizer que ele é o Messias. Esta é a grande diferença entre cristãos e não cristãos. Só quem nasceu de novo pode confessar que Jesus é o Cristo. Você pode?

A mulher santifica o marido descrente – O que isso significa?


Por Josemar Bessa

Este é um problema que surgiu na igreja em Corinto, e certamente surgiu em toda a igreja primitiva. Algumas pessoas tentam usar esse texto com o propósito de validar um servo de Deus escolher alguém ímpio para se casar. Esse é o problema de ir a Bíblia tentando achar justificativas para escolhas que Deus deixou claro que não devem ser feitas, e não ir a Bíblia para buscar a verdade de Deus sobre todas as coisas, inclusive relacionamentos, casamentos...

Paulo está falando sobre a conversão de um homem ou mulher casados, quando o outro cônjuge permanece ímpio, e não sobre o servo de Deus deliberadamente escolhendo esta situação. Essa era uma situação comum na igreja primitiva e hoje também: “Se algum irmão tem mulher descrente, e ela consente em habitar com ele, não a deixe. E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe.” - 1 Coríntios 7:12-13

Imagine, por exemplo, uma mulher que pela pregação da Palavra foi regenerada e creu no Evangelho. Ela se tornou viva, se arrependeu, exerceu fé. Ela é uma nova criatura em Cristo mas está casada com um marido não-cristão (ou  um marido com uma esposa não-cristã).

A questão que surgiu naqueles dias, e que é pertinente hoje é: e agora, devo me divorciar? A luz está ligada as trevas...? Serei corrompido por este relacionamento? A pureza de Cristo vai ser corrompida por isso? Paulo está falando de alguém que sendo regenerado tem agora uma vida para o Senhor... e não de um cristão nominal, mundano... em que o estilo de vida nada mais é do que o do mundo, escolhendo deliberadamente estar em jugo desigual... Mas de alguém que se converte já estando casado ou casada. Então ele diz: “E se alguma mulher tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe.” – Ou seja, se por causa do sua vida em Cristo o cônjuge descrente quiser deixá-lo, a relação com Cristo tem toda a prioridade, mas se o descrente consente em viver junto, essa não é uma razão para deixar o relacionamento (casamento). Paulo não está falando de alguém que é cristão escolhendo deliberadamente um cônjuge não cristão.

A questão em Corinto (e ainda hoje ) era – Estou sendo corrompido, minha pureza em Cristo está sendo corrompida? Devo deixar meu casamento? E outro pensamento que surgiu junto com esse era: E meus filhos? Se eu sou cristã e meu marido não é cristão, os meus filhos vão ser poluídos, impuros pela presença de um não cristão (ímpio) na família? Preciso sair dessa situação para proteger meus filhos das más influências do cônjuge não regenerado? Todas essas questões eram comuns quando alguém em um mundo pagão era regenerado e o cônjuge não. Muitas vezes, o marido não convertido abandonava a esposa – mas a questão era se isso podia partir do convertido. A resposta como vimos era: “E se alguma mulher (ou marido) tem marido descrente, e ele consente em habitar com ela, não o deixe.”(v.13) – O verso 15 diz que se o cônjuge incrédulo desejar se divorciar por causa de Cristo, da conversão do outro cônjuge, este que foi abandonado não está mais preso aquela pessoa: “Mas, se o descrente se apartar, aparte-se; porque neste caso o irmão, ou irmã, não esta sujeito à servidão; mas Deus chamou-nos para a paz. Porque, de onde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? ou, de onde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?” 1 Coríntios 7:15-16 – Se ele quer ir, deixai-o ir. Ou seja, se for a escolha do cônjuge não regenerado, por causa do evangelho, se divorciar, deixe-o ir. Mas você ( que foi regenerado ) não faça isso. Por quê. O verso 14 diz: “Porque o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido; de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.” - 1 Coríntios 7:14
 
Paulo não está falando de salvação. Nem todos os cônjuges incrédulos se converterão, isso não é algo que se possa contar como certo. Ele diz: “Porque, de onde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? ou, de onde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?” – Ao falar então que “o marido descrente é santificado pela mulher; e a mulher descrente é santificada pelo marido” – o que Paulo está ensinando?



Paulo está simplesmente dizendo que é o inverso que acontece – se de fato o cônjuge convertido foi de fato regenerado e vive uma nova vida – deve entender que maior é aquele que agora habita, dirige e santifica ele do que aquele que está no mundo. O poder e a graça de Deus manifesta na vida do cônjuge convertido é tão grande, que ao invés de dele ser influenciado pelo mal na vida do não regenerado, o não regenerado será influenciado pela graça, que opera os frutos do Espírito, e o poder de Deus na vida do convertido. Esse é o ponto de Paulo, ao invés do marido descrente ter uma influência mundana ou não santificadora sobre a esposa, o oposto é verdadeiro, a luz resplandecerá sobre as trevas, e o outro sofrerá a influência da vida transformada do que foi regenerado e é uma nova criatura.

Agora, de que tipo de santificação estamos falando? A palavra está falando simplesmente que há um certo grau de pureza, um certo grau de separação do mal... Ou seja, o cônjuge cristão em um casamento, reduz a força total da impureza e do mal na vida do lar. Num casamento entre dois incrédulos, você tem um mal absoluto operando. Você tem o mundo, a carne, o diabo... e você não tem nada para mitigar este mal. Este mal não tem nada para diluí-lo, enfraquecê-lo. Mas quando um desses cônjuges de fato se converte, de fato é regenerado, esse mal que era absoluto é atenuado.

Então estamos falando aqui de “santificação conjugal”, santificação familiar e não de santificação espiritual produzida pela salvação de um homem. O ponto aqui é que você, que foi regenerado, vai exercer um efeito positivo na medida em que sua presença naquele ambiente íntimo, na casa, no casamento... é sustentado pela graça e o poder de Deus para uma nova vida, e a benção de Deus que flui através dessa nova vida, irá atenuar o mal, que num casamento entre incrédulos seria pleno. Ou seja, haverá um efeito santificante num sentido temporal, num sentido terreno sobre o seu cônjuge descrente. E esse efeito atingirá os filhos: “...de outra sorte os vossos filhos seriam imundos; mas agora são santos.” - 1 Coríntios 7:14



A palavra é usada aqui nestes mesmos termos. O que significa? Se o convertido está preocupado com seus filhos, seriam “imundos” crescendo num lar assim... O que Paulo está ensinando é – Se ambos os pais são não-cristãos, há um nível de mal absoluto que domina o lar, porque Deus não está lá em seu poder e graça. Mas sendo um dos cônjuges é de fato regenerado, os filhos  já não estão sob o impacto total da impureza de uma vida não regenerada, mas em certo grau, este mal é mitigado, restringido, há um certo grau de separação do mal pela presença de uma mãe ( ou pai ) cristão (Regenerado).

Ou seja, sua relação com Deus e a benção que flui de sua vida separada para Deus, terá um efeito positivo sobre o marido e os filhos, um efeito de restrição, em parte, do mal de uma vida não regenerada.  Então Paulo diz, não se separe por causa disso. Se isso partir do cônjuge não cristão por causa de Cristo, você não estará mais em servidão, mas não parta de você por esses motivos alegados. Fique lá, e a obra de Deus através da sua vida terá um impacto atenuante sobre o mal em seus filhos e seu lar. Mitigando o mal que seria pleno pela influência de sua vida limpa e santa que flui da regeneração e santificação de sua vida.

Não há garantias de salvação - “Porque, de onde sabes, ó mulher, se salvarás teu marido? ou, de onde sabes, ó marido, se salvarás tua mulher?” – Mas a presença de uma pessoa regenerada e vivendo para Deus, mitigará o mal, influenciando e não sendo influenciada.

Fonte: Josemar Bessa

A Mulher Siro-Fenícia – existe lugar para cachorro?

 
Por Emilio Garofalo Neto
O encontro de Jesus com a mulher Siro-Fenícia é um dos pontos mais complicados e intrigantes dentre todos os encontros registrados de Jesus. Leia o texto, Mateus 15.21-28 (Marcos 7.24-30).

O que está acontecendo aqui? Por que Jesus está interagindo com essa estrangeira? Ele não veio para os da casa de Israel? Por que ele a chama de cadela? E por que ela nem se ofende?

É preciso entender algumas coisas sobre o contexto do que vem se passando nesse ponto do evangelho e também algumas considerações sobre etnia para vermos bem o que esse texto ensina.  Após andar por toda a Galileia  Jesus estava para começar um período mais intenso de instrução aos Doze; isso envolveu ele se dirigir mais frequentemente a regiões gentílicas. Nesse evento Jesus vai para noroeste da Galileia  para a região de Tiro, onde fica hoje o Líbano. Note que este era terreno gentio: território de antigos inimigos e (às vezes) aliados de Israel; foram os de Tiro que introduziram a adoração a Baal para Israel. Foram eles que se aliaram a Davi e Salomão em certas ocasiões.  Isso é importante em nossa história, não é que uma mulher gentia aparece em território judeu – Jesus e seus discípulos é que estão indo, intencionalmente ao território dela.

Precisamos entender um pouco melhor biblicamente essa questão da diferença étnica, da identidade cultural.  O ideal de pureza racial é uma tolice, mas todos nós entramos um pouco nele. Todos temos uma origem comum em Adão e Eva, e depois, em  Noé,  a partir de três grandes ramos (Sem, Cam e Jafé). Deles vem toda a diversidade do mundo. Não percebemos, mas instintivamente achamos que na história bíblica os personagens ou são brancos caucasianos ou o que chamaríamos de árabes hoje em dia; Livros de histórias bíblicas infantis perpetuam estas ideias errôneas. Mas a realidade é muito mais complexa. Os Hebreus são apenas um de diversos grupos semitas;  e mesmo dentro desse grupo não há uma linhagem de pureza étnica. Vamos lembrar a origem destes: Abraão vem da Terra de Ur. Isaque voltou para conseguir uma esposa dentro os Arameus, assim o fez também Jacó (Israel). Mas os filhos de Jacó se casam com mulheres Cananeias e José se casa com uma Egípcia. Desta mistura vêm as tribos de Israel! Hoje talvez pensemos em judeus como um povo bem branquelo ( fãs de Big Bang Theory sabem disso…), porque mais tarde houve bastante mistura como povos europeus. Mas Jesus e seus discípulos não eram assim. No AT, temos exemplos de povos diversos como os oriundos da África negra, Egípcios, Fenícios, Assírios… Sabe quem eram os mais parecidos fisicamente com os caucasianos de hoje? Os Filisteus e os Hititas.

Com isso tudo em mente voltemos ao encontro de Jesus com essa gentia. Vale lembrar que você, distinto leitor(a), provavelmente tem mais  em comum com ela do que com Jesus e os discípulos – nós somos gentios.  Nascida gentia, com background pagão. Não uma filha de Abraão geneticamente… Ela sabe que não poderia vir até Jesus, mas ela foi assim mesmo; Tim Keller diz “Existem covardes, existem pessoas normais, existem corajosos e existem pais” – ela vai encarar o que for necessário pelo bem estar de sua filhinha.

Algo estranho se passa então, como é que aqueles que deveriam estar aprendendo de Jesus se ressentem da presença dessa gentia? Por quê? Por que é que eles não abraçam essa mulher e a acolhem ao pacto? Ela está voluntariamente vindo até Cristo e eles querem rejeitá-la. Se a diversidade étnico-cultural é algo criado por Deus, porque ressentimos tanto? Em nossa pecaminosidade nós não gostamos da diversidade criacional, preferimos a unidade e a segurança dos semelhantes.

Mas e Jesus? Ele a trata melhor que os fariseus ou os discípulos fariam. Como assim trata bem? Ele a chama de cadela! Vamos olhar com mais cuidado para estas palavras duras. Não é surpresa pra ninguém que há varias sugestões de interpretação dessa passagem. Creio que o que está acontecendo aqui é um teste elaborado por Jesus para examinar o coração dela e o coração dos discípulos.
Vejamos:

 

1 – O teste para a mulher


Havia desde o início uma prioridade pactual a Israel; mas o pacto com Abraão já deixava claro que a salvação estaria disponível a todas as nações da terra – prioridade nunca foi exclusividade. Tivemos exemplos como Rute e Raabe – que foram parar na genealogia do Senhor Jesus. A ideia era que primeiro se alimentam as crianças da casa e não os cães – os judeus sendo primeiro e depois os gentios. Mas lembre-se da historia do próprio Senhor Jesus e seu acolhimento frequente entre gentios quando mesmo os judeus não queriam nada com ele. Herodes tentou matá-lo quando ainda neném, ele foi se refugiar em terreno gentio com seus pais. Os fariseus e escribas queriam acabar com ele. As cidades o rejeitavam; mas os magos gentios do oriente vêm e o adoram. Israel era lugar perigoso; terrenos gentios eram seguros.  

Curiosamente gentios em muitos casos eram mais abertos que os judeus. Ele elogia a fé de gentios como o centurião enquanto critica a falta de fé dos judeus. Parece que as crianças estão recusando a comida… devem achar que não precisam mais de pão. Jesus usa a percepção das separações étnicas para avaliar sua fé; talvez ele estivesse querendo ver se ela não estava no fundo apenas buscando um operador de milagres, ou se entendia que ele era algo mais.

A mulher não se ofende com as duras palavras de Cristo; ela sabe que não tem direitos diante de Deus. Se o que Deus tem pra ela são migalhas, ela as aceitará de bom grado. Quão diferente da atitude arrogante de tantos que se julgam merecedores! Ela demonstra uma medida de fé: note que ela chega ajoelhando, ela o chama de Senhor, ela sabe acerca de seu poder. Com o pouco de conhecimento acerca de Cristo que tem ela já é movida a ação. Note ainda que ela pega muito mais rápido a linguagem figurada do que os discípulos! Jesus não precisa ficar explicando as metáforas como tinha que fazer com os doze… Ele no fundo diz: você não é digna de se sentar à mesa. Mas ele deixa a porta aberta ao dizer primeiro se alimentam as crianças… quem sabe não sobra algo para você. É vital notarmos que ela aceita sua condição – ela reconhece que não é digna de ser ajudada por Cristo. Ela com fé diz: eu não mereço pão, não sou parte do povo escolhido, se pela tua bondade o que tem para mim são migalhas, quero as migalhas com alegria! Ela não declara ou exige pão, como se merecesse. Ela não é orgulhosa a ponto de não aceitar o que Cristo diz acerca dela! Mas nós somos muitas vezes. Nós odiamos a ideia de que somos depravados e impuros; afinal passamos a vida ouvindo comerciais de TV dizendo que merecemos tanto… aceitar o que a Bíblia fala a nosso respeito é difícil! À luz disso tudo, Jesus elogia sua fé; coisa que não vemos ele fazendo acerca dos discípulos! Logo antes tinham sido  repreendidos pela sua falta de entendimento. Ela passa no teste com louvor. E ela recebe mais que migalhas, não é verdade?

 

2 – Teste para os discípulos


Lembre-se que por vezes Jesus, o grande professor; lançava perguntas complicadas ou dizia coisas estranhas para fazer o povo pensar e agir. Lembre-se que às vezes ele falava um provérbio comum de sua época e logo virava ele de cabeça para baixo, mostrando que a sabedoria popular era muitas vezes tolice popular. Creio que isso está acontecendo aqui também.

Em Mateus fica registrado que os discípulos pediram que Cristo se livrasse dela; eles não eram tão diferente dos fariseus em sua falta de compaixão. Mas o que eles tinham de ter feito era ter pedido a Cristo por ela! Talvez ao Jesus falar aquilo ele estivesse esperando pela ação dos discípulos. A essa altura, eles já deveriam ter aprendido misericórdia com Cristo – Pedro mesmo já clamara ao Senhor por ajuda como ela estava fazendo ali. Essa é a primeira falha.

Mas a outra falha dos discípulos é mais interessante. Note bem. Eles ouviram Jesus dizer algo como “não há pão suficiente…os cães só comem se sobrar… é um mundo de recursos limitados…não há pão para todos…alguém tem de ficar sem pão.” Agora, note na sua Bíblia o que acontece no capítulo anterior e o que acontece no capitulo seguinte. Percebeu? Essa história esta entre as duas ocasiões da multiplicação do pão!! Na economia do reino a surpreendente mensagem é que há pão para todos! Os discípulos ainda estão operando numa visão humana mui limitada do alcance da graça e do poder de Cristo. Eles deveriam ter tido:  “mas Senhor, tu és capaz de fazer pão se multiplicar – não há limites! Não é necessário que apenas as crianças comam!” Israel era culpado de usar a verdade de sua prioridade como desculpa para não ir aos gentios, para não fazer o que Cristo estava fazendo! Indo na terra de gentios e trazendo boas novas a estes!

O evangelho do reino é para todas as nações; as boas novas envolvem o fato de que Cristo morreu numa cruz para que cães de toda raça, língua e nação pudessem ser adotados na família e se sentarem à mesa, tornando-se criacinhas. Dá pra ver porque é que chamam de boas novas?

A TEOLOGIA DO CACHORRO E DO GATO

Por Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

Ganhei um bom livro: A teologia do cachorro e do gato. O título é estranho? Mas seu conteúdo é sério. Os autores, Sjogren e Robinson, começam com uma anedota sobre cachorros e gatos. O cachorro diz: “Você me acaricia, me alimenta, me abriga, me ama. Você deve ser Deus”. O gato diz: “Você me acaricia, você me alimenta, me abriga, me ama, eu devo ser deus”. A seguir, os dois mostram as diferenças entre cristãos tipo cachorro e tipo gato.


O cachorro segue por amor, é dedicado, põe a vida no reino. O gato quer coisas boas, mas sem compromisso. Quer promessas, o cuidado de Deus, da igreja, do pastor. Não se preocupa em ser útil, instrumento nas mãos de Deus. Ele é seu mundo.

Os autores ainda dizem que “Os cães têm donos, os gatos têm funcionários”. Sei disso. Tive vários gatos: Jairzinho, Schleiemacher, Kierkegaard, Platão, Sócrates, Mahavira. Éramos seus servidores.

O livro focaliza os dois tipos se portam no tocante ao senhorio de Deus. O cachorro tem Deus como Senhor em qualquer circunstância. O gato tem Deus como Senhor enquanto receber bênçãos. Quando as coisas apertam, os crentes gatos somem da igreja! E, havendo mais vantagem do outro lado, o crente gato vai para lá. Se o mundo apresentar uma proposta de mais felicidade (os gatos só buscam bênçãos e felicidade) o evangelho será deixado e a igreja abandonada. O crente gato se rege pela lei de Gérson: levar vantagem.

Jesus falou a ouvintes tipo gatos: “A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos” (Jo 6.26). A multidão não ligava para ele. Queria barriga cheia. Há gente assim, que não ama a Jesus. Só quer coisas boas.

Platão disse que “Odiamos a injustiça não por amor à justiça, mas com medo de que a injustiça caia sobre nós”. Ou seja: muitos dos nossos sentimentos e ações não são motivados por amor à verdade, mas por interesse. Uma vida cristã sadia não se pauta por interesse. O fundamento é o amor. Deus não deve ser buscado pelo que nos pode dar (ele já nos deu, e muito!), mas por aquilo que ele é. Jesus deve ser seguido não como se fosse a fada madrinha, com uma varinha mágica para resolver nossos problemas. Mas porque é Jesus Cristo, o incomparável, com uma proposta de vida que ninguém iguala, e na qual nos realizamos por ser a vontade de Deus para nós.

Gato é charmoso. Chamar alguém de “gato” é um elogio. E de cachorro, uma ofensa. Mas em matéria de teologia, como dizem Sjogren e Robinson, a melhor é a do cachorro. É sadia. A do gato é desfocada e mesquinha. Neste sentido, seja um cachorro. Crentes gatos são infantis.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

A supremacia das Escrituras e a primazia da pregação

Por Rev. Hernandes Dias Lopes
O apóstolo Paulo, o maior bandeirante do Cristianismo, fechando as cortinas da vida, na antessala de seu martírio, ordenou a Timóteo: “Prega a palavra…” (2Tm 4.2). Uma coisa é pregar a palavra, outra coisa é pregar sobre a palavra. A palavra é o conteúdo da pregação e a autoridade do pregador. O pregador não é a fonte da mensagem, mas seu instrumento. O pregador não produz a mensagem, transmite-a. O pregador é um arauto; a mensagem não é sua, mas daquele que o enviou. Seu papel não é tornar a mensagem mais palatável aos ouvidos das pessoas, mas transmiti-la com fidelidade. Duas verdades devem ser destacadas no texto de 2Timóteo 4.2.

Em primeiro lugar, a supremacia das Escrituras. Paulo escreve: “Prega a palavra”. Paulo não ordena a Timóteo a pregar suas próprias ideias nem o autoriza a pregar a mensagem mais popular da época. Timóteo deveria pregar a palavra. Não temos outra mensagem a transmitir a não ser a palavra de Deus. O pregador não pode criar a mensagem; é sua incumbência transmiti-la. Não tem o direito de sonegar parte da mensagem que recebe; deve comunicá-la com inteireza. Hoje, muitos pregadores pregam outro evangelho. Um evangelho que não tem boas novas de salvação. Um evangelho fabricado no laboratório do enganoso coração humano. Um evangelho que atrai multidões, mas não tem poder para transformá-las. Um evangelho humanista, centrado no homem, e não o evangelho da graça, centrado em Cristo e na sua obra redentora. Floresce hoje o espúrio evangelho da prosperidade, prometendo aos homens as riquezas e glórias deste mundo, mas sonegando a eles a palavra da salvação eterna. Recrudesce um evangelho místico, sincrético, com fortes laivos de paganismo, desviando os incautos da cruz de Cristo, para sua própria ruína e destruição. Ah, é tempo da igreja voltar-se para o lema da Reforma: “Sola Scriptura”! É preciso interromper essa marcha inglória de uma pregação cheia do homem e vazia de Deus; uma pregação que promete curas, milagres e prosperidade, mas não oferece aos perdidos a vida eterna em Cristo Jesus. É preciso colocar em relevo a mensagem da graça e erguer o estandarte da cruz onde os pregadores infiéis drapejam a bandeira de perigosas heresias. Precisamos de uma volta ao Cristianismo apostólico, onde a igreja reconheça a supremacia das Escrituras e coloque a palavra de Deus no centro do culto, da pregação e da vida.

Em segundo lugar, a primazia da pregação. Paulo escreve: “Prega a palavra”. Uma vez que temos a palavra de Deus, inspirada pelo Espírito de Deus, inerrante, infalível e suficiente não podemos guardá-la apenas para nós. A palavra que nos foi confiada precisa ser transmitida. A mensagem que recebemos deve ser proclamada com fidelidade, entusiasmo e urgência. Não basta reconhecer a supremacia das Escrituras; é preciso estar comprometido com a primazia da pregação. Sonegar a palavra é privar as pessoas de conhecer a graça de Deus. Reter a mensagem da salvação é uma atitude cruel com os perdidos, uma vez que a fé vem pelo ouvir a palavra. Deus chama os seus escolhidos por meio da palavra. A palavra de Deus é poderosa. Tem vida em si mesma. É a divina semente, que semeada em boa terra produz a trinta, a sessenta e a cento por um. Nunca volta para Deus vazia. Sempre cumpre o propósito para o qual foi designada. Cabe à igreja levantar-se, no poder do Espírito Santo, e pregar a tempo e a fora de tempo essa palavra da vida. Cabe à igreja instar com os pecadores para que se voltem para Deus em arrependimento e fé. É responsabilidade da igreja corrigir, repreender e exortar a todos, com toda a longanimidade e doutrina, pois multiplicam-se os falsos mestres, movidos por sórdida ganância, atraindo para si aqueles que sentem coceira nos ouvidos, entregando-se a fábulas, em vez de ouvir a mensagem da graça. Que Deus traga sobre nós um poderoso reavivamento espiritual, colocando a igreja de volta nos trilhos da verdade, a fim de que ela entenda a supremacia das Escrituras e se comprometa com a primazia da pregação.

E quando Deus não atende nossa oração?

Ora1

Por Maurício Zágari

O que devemos fazer quando estamos enfrentando um problema; oramos, oramos e oramos a Deus… mas não recebemos o que pedimos? Isso ocorre muitas vezes em nossa vida: simplesmente nossa oração não é atendida. A sensação que temos, nesses casos, é que Deus ou não nos ouviu ou nos virou as costas. Bem, na verdade não é isso o que ocorre. Há um acontecimento na vida de Paulo que pode nos conduzir a uma reflexão bem interessante sobre orações não atendidas.

Para pensarmos sobre essa questão, precisamos ler a famosa passagem do espinho na carne. “Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos [...] foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir. [...] E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.2-9).

Pense bem: o que diferencia essa experiência de Paulo da sua experiência pessoal? Vejamos: Paulo tem um problema. Você tem um problema. Paulo ora a Deus pedindo uma solução. Você ora a Deus pedindo uma solução. Paulo não vê sua oração ser respondida da primeira vez. Você não vê sua oração ser respondida da primeira vez. Paulo persiste na oração, orando uma segunda vez. Você persiste na oração, orando uma segunda vez. Paulo não é atendido. Você não é atendido. Paulo ora sem cessar, clamando uma terceira vez. Você ora sem cessar, clamando uma terceira vez. Paulo não é atendido. Você não é atendido. Tudo igualzinho, reparou? A experiência do apóstolo em nada difere da sua. Só que, no caso dele, aconteceu um fenômeno que com você não acontece. É um detalhe nessa passagem que, a meu ver, é de suma importância.

Deus explicou.

Estas palavras de Paulo fazem toda a diferença: “Então, ele me disse…”. Sim, o Senhor verbalizou ao apóstolo, deu a ele uma explicação audível para o fato de não ter atendido seu clamor. E isso tirou do coração de Paulo toda a angústia que sente a pessoa que ora mas não é atendida. Havia uma explicação. Havia uma motivo cognoscível para aquilo. Mesmo que seu desejo não tivesse sido satisfeito, Paulo agora sabia a razão. E podia seguir em paz, pois tomou conhecimento do que levou Deus a não lhe conceder o que queria. E essa é a grande diferença da experiência de Paulo para a sua: ele recebeu uma justificativa. Com você e comigo isso não acontece. Ninguém nos diz por que nosso pedido ao Todo-poderoso foi negado.

Faça um exercício de imaginação. Suponha que Deus tivesse ficado quieto e simplesmente não explicasse a Paulo o porquê de não ter atendido aos seus pedidos. O apóstolo permaneceria ali, clamando, em angústia de alma, cheio de perguntas na cabeça. “Será que Deus não me ouviu?”. “Será que Deus só me atenderá daqui a muitos anos?”. “Será ao menos que Deus atenderá ao meu clamor algum dia, mesmo que demore?”. “Será que os céus se fecharam a mim?”. “Será que os meus pecados impedem Deus de atender minha oração?”. Será que o Diabo está impedindo Deus de atender meu clamor?”. Será, será, será, será, será…?

Paulo poderia ter feito isso, e não seria nenhuma novidade. Afinal… não é exatamente o que nós fazemos?

Deus decidiu em sua soberania que simplesmente não iria atender a oração de Paulo. Não teve nada a ver com falta de fé, ação do Diabo, pecado não confessado, nada disso. Simplesmente o Senhor disse “não” à oração do apóstolo porque queria proteger seu filho amado de pecar pela soberba. E é precisamente o que ele faz conosco em muitas e muitas situações semelhantes. Nós oramos, clamamos, nos esgoelamos, mas não somos atendidos. E aí os “será” invadem nossa mente e ficamos angustiados, cheios de conjecturas, sofrendo, questionando até mesmo a onisciência de Deus: “Será que ele não ouviu minha oração?”.

Claro que ouviu. Deus ouve todas as orações. E antes mesmo de orarmos ele já sabe o que vamos falar: “Ainda a palavra me não chegou à língua, e tu, SENHOR, já a conheces toda” (Sl 139.4)“. Essa ideia de que “Deus não ouve a oração” não é bíblica. O que acontece é que ele decide não nos dar o que pedimos. Ouve, pondera e responde com um grande “não”. Ponto. Não há fé no mundo que altere a vontade soberana do Criador do universo. Paulo não tinha fé? Possivelmente a maior do mundo. Mas Deus quis não atender seus pedidos, porque, por saber tudo, entendia que, no grande plano de causas e consequências do universo e da eternidade… não atendê-los era o melhor. Inclusive, era o melhor para o próprio apóstolo, embora ele não soubesse, visto que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). A grande vantagem de Paulo é que o Senhor disse de forma inequívoca que tinha escutado a oração mas não a atenderia. Conosco ele não faz isso. Temos de nos contentar com o silêncio. Não vem resposta. O que pedimos não acontece. Ficamos impacientes, como se o Pai tivesse a obrigação de nos atender só porque oramos com fé. E não entendemos nada.

Em vez de ficar imerso em “será”, talvez Paulo partisse para a ação se Deus não tivesse afirmado explicitamente a ele que sua oração não seria atendida. É possível que orasse uma quarta vez, uma quinta, uma sexta, uma sétima. Talvez ficasse anos orando. E ficaria a ver navios, porque, apesar de sua inequívoca grande fé, Paulo estava debaixo da soberana vontade de Deus – e, para aquela oração, a resposta da soberania divina era “não”. Se Paulo fosse um crente temperamental ou imaturo, ele poderia “ficar de mal” com o Senhor ou até mesmo se desviar da fé. Não é o que muitos de nós fazemos? Como não recebemos de Deus o que pedimos o largamos para lá? Ou então tomamos as rédeas da situação e agimos pela força da nossa mão? Quero a cura, mas, como não fui curado, vou procurar um pai de santo. Quero prosperidade, mas, como não tive um aumento de salário, vou atrás de facilidades. Quero que liberem o meu processo na Prefeitura, mas, como não liberaram, vou dar propina. Quero me casar, mas, como não encontrei ainda a pessoa ideal, vou buscar no mundo. E coisas do gênero.

Deus é muito sábio. O silêncio dele é uma maravilhosa maneira de ver que tipo de crentes somos nós. Se o Senhor explicasse suas decisões e seus “não” a cada um de nós… aí seria fácil. Mas o fato de ele decidir não atender e – também – não responder nossa oração mostra o alcance de nossa fé, estimula nossa perseverança e nos testa, para ver até onde estamos dispostos a segui-lo e servi-lo tendo somente a graça divina em nossa vida. A graça dele nos basta. Ele sabe disso; nós é que não nós contentamos com ela, queremos porque queremos também as bênçãos. O silêncio de Deus ante uma oração não atendida é a maneira de o Senhor nos mostrar quem nós somos: se perseverantes, servis, fiéis, homens e mulheres de fé, murmuradores, interesseiros, compromissados… ou não.

Tenho visto que o problema maior entre nós, cristãos, não é Deus não atender nossas orações, mas ele não respondê-las. Como o silêncio divino é a regra (o que ele fez com Paulo é a exceção), isso nos tira do sério. O caminho para permanecermos inabaláveis na nossa fé e no relacionamento com o Senhor é sabermos que ele está agindo por trás do véu do silêncio. E, se não temos uma resposta, isso absolutamente não significa que ele não nos ouviu. Devemos abandonar essa ideia infantil. Deus é onisciente, ele ouve tudo, ele sabe tudo. Mas muitas vezes decide que atender nossos pedidos não é o melhor. Se confiarmos nele, isso nos conformará e confortará.“Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia nele, e o mais ele fará” (Sl 37.5). Se não confiarmos… é hora de repensarmos todo o nosso relacionamento com o Senhor, porque estamos muito longe de entendê-lo.

Deus vai negar muitos dos teus pedidos. Mas tenha esta certeza: isso não significa que ele não ouviu tua oração. Foi exatamente o que aconteceu com Paulo. É o que acontece conosco. Num caso raro, o apóstolo foi presenteado com uma explicação da boca de Deus. Nós não somos. Diante disso, nosso papel é orar, perseverar em oração e esperar com paciência. E se, depois de tudo isso, não formos atendidos, que tenhamos sempre em nossos lábios as palavras de Jó: “O SENHOR o deu, o SENHOR o levou; louvado seja o nome do SENHOR ” (Jó 1.21). Como escreveu o mesmo Paulo: “Orem continuamente. Deem graças em todas as circunstâncias, pois esta é a vontade de Deus para vocês em Cristo Jesus” (1Ts 5.17-18). Orou mas não recebeu o que pediu? Dê graças. Em todas as circunstâncias dê graças. Ou seja: agradeça. Pois, se não recebeu, é porque não receber é o melhor. Não receber é pão e peixe. “Qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir peixe, lhe dará uma cobra? Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Mt 7.9-11).

Obrigado, Pai, porque minha oração não foi atendida. Agradeço por isso, pois sei que, se o Senhor decidiu não atendê-la… o teu “não” é o melhor para mim.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

Justificados, pois, pela fé


Por Thomas Watson

a. O que quer dizer justificação?

É uma palavra forense. Refere-se a uma pessoa acusada que é declarada justa e publicamente absolvida. Quando Deus justifica uma pessoa, declara a pessoa justa e olha para ela como se não tivesse pecado.

b. Qual a fonte da justificação?

A causa, ou o motivo interior que a estimula ou a base da justificação é a livre graça de Deus: “Sendo justificados livremente por sua graça”. Ambrósio, expondo sobre a justificação, diz que ela não é “da graça produzida internamente por nós, mas da livre graça de Deus”. A primeira engrenagem que põe todo o restante em funcionamento é o amor e o favor de Deus, assim como um rei livremente perdoa um delinquente. A justificação é uma misericórdia provinda das entranhas da livre graça. Deus não nos justifica porque temos valor, mas ao nos justificar nos faz de grande valor.

c. Qual é o fundamento pelo qual o pecador é justificado?

O fundamento de nossa justificação é a satisfação que Cristo proporciona às exigências de Deus Pai. Pode-se perguntar: “Como se relacionam a justiça e a santidade de Deus quando ele nos declara inocentes visto que somos culpados?” A resposta é: “Quando Cristo satisfez nossas faltas, Deus pôde, em equidade e em justiça, declarar-nos justos”. É uma coisa justa um credor perdoar alguém que deve uma grande quantia quando ela é paga por um fiador.

d. A satisfação obtida por Cristo tem mérito suficiente para justificar?

Sim, plenamente na natureza divina de Cristo. Como homem, Cristo sofreu, como Deus, satisfez. Pela morte e pelos méritos de Cristo, a justiça de Deus foi mais abundantemente satisfeita do que se tivéssemos sofrido as dores do inferno para sempre.

e. Qual é o método de nossa justificação?

Pela imputação da justiça de Cristo em nós: “Será este o seu nome, com que será chamado: SENHOR, Justiça Nossa” (Jr 23.6). “Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça” (1 Co 1.30). Essa justiça de Cristo, que nos justifica, é melhor que a dos anjos, pois a justiça deles é das criaturas e essa é de Deus.

f. Qual é o meio ou instrumento de nossa justificação?

O instrumento é a fé. “Justificados… mediante a fé” (Rm 5.1). A dignidade não está na fé como uma graça, mas de modo relativo, na medida em que se apega aos méritos de Cristo.

g. Qual é a causa eficiente de nossa justificação?

Toda a Trindade, visto que todas as pessoas da bendita Trindade participam da justificação de um pecador: Deus, o Pai, justifica: “É Deus quem os justifica” (Rm 8.33). Deus, o Filho, justifica: “E, por meio dele, todo o que crê é justificado” (At 13.39). Deus, o Santo Espírito, justifica: “Mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus” (1 Co 6.11). Deus, o Pai, justifica ao nos declarar retos; Deus, o Filho, justifica ao impor sobre nós sua justiça; e Deus, o Espírito Santo, justifica ao esclarecer nossa justificação e nos selar até o dia da redenção.

h. Qual é o propósito de nossa justificação?

i. A glorificação eterna de Deus

A finalidade é que Deus receba louvores: “Para louvor da glória de sua graça” (Ef 1.6). Pela justificação, Deus levanta os eternos troféus de sua própria honra. Como o pecador justificado proclamará o amor de Deus e fará os céus a ressoarem com os louvores ao nome do Senhor!

ii. A glorificação eterna do justificado.

O fim de nossa justificação é que a pessoa justificada receba a glória. “Aos que chamou, a esses também justificou” (Rm 8.30). Deus, quando justifica, não somente absolve a alma culpada, mas dignifica. Como José, que não foi somente solto da prisão, mas feito senhor do reino, a justificação é coroada com a glorificação.

sábado, 23 de novembro de 2013

O FRUTO DO COMPROMETIMENTO


Por Pr. Silas Figueira

“Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, já não sou em quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim”. (Gl 2.19,20) 

PAULO UM EXEMPLO DE COMPROMETIMENTO   

“Ele era um homem de pequena estatura”, afirmam os Atos de Paulo, escrito apócrifo do segundo século, “parcialmente calvo, pernas arqueadas, de compleição robusta, olhos próximos um do outro, e nariz um tanto curvo.”

O nome judaico de Paulo é Shaul (Saul ou Saulo). O apóstolo fora assim chamado provavelmente por pertencer à tribo de Benjamim, a qual historicamente teve o rei Saul como seu integrante mais famoso. O cidadão romano Paulo (seu nome latino) nascera em Tarso, antiga capital da Cilícia, situada junto ao rio Cidno. A cidade fora helenizada e se tornara um centro de cultura grega, chegando a contar com cerca de quinhentos mil habitantes.

Paulo cresceu em meio à tradição judaica religiosa, muito bem instruído na Torá hebraica (At 26.4-8), e aprendeu o grego, o hebraico e aramaico (língua comum entre os judeus na época). Adquiriu o ofício de fazedor de tendas (At 18.3). Ainda muito jovem, Paulo foi estudar com o famoso rabino Gamaliel, neto de Hilel (At 22.3). Como fariseu, Paulo tornou-se um estrito seguidor da lei e da tradição judaicas (Fl 3.5).

Depois de tornar-se um dos principais perseguidores da igreja cristã primitiva como diz Atos 8.3:“Saulo, porém, assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere” , Paulo converteu-se a Cristo, de forma extraordinária, na famosa estrada de Damasco (At 9.1-19). Junto com a conversão, Paulo recebeu o chamado apostólico para pregar o evangelho de Cristo ao mundo gentílico (At 9.15).

A conversão de Paulo ocorreu provavelmente entre os anos 32-35, sendo seguida por uma viagem à Arábia e depois foi para Damasco. Durante três anos Paulo esteve recebendo do Senhor as revelações a respeito do Evangelho:

“Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim, para que eu o pregasse entre os gentios, sem detença, não consultei carne e sangue, nem subi a Jerusalém para os que já eram apóstolos antes de mim, mas parti para as regiões da Arábia e voltei, outra vez, para Damasco”.

Assim como o profeta Jeremias, o apostolo Paulo também foi separado para uma grande obra antes do seu nascimento. Nós encontramos aqui a soberania de Deus em relação às pessoas que Ele chama e para qual propósito Ele chama. Temos na Bíblia outros exemplos claros de que é o Senhor que nos escolhe, e alguns com um propósito específico; por exemplo: Sansão, chamado para ser juiz (Jz 16.17), Jeremias, chamado para ser profeta (Jr 1.5), João Batista, chamado para ser o último profeta e anunciar a vinda do Messias Jesus  (Lc 1.13-17) e todos os salvos (Ef 1.3-7).

PAULO UMA VIDA DEDICADA A DEUS

Quando o apóstolo Paulo disse que estava crucificado com Cristo, ele estava dizendo do seu comprometimento que ele tinha com Deus, da sua vida entregue para um único propósito que era a glória de Deus. Comprometimento é diferente de envolvimento. Observe o exemplo abaixo:

Todos já ouvimos falar da ilustração do “X BACON”, que relaciona muito bem o envolvimento e o comprometimento. Para que o “X Bacon” seja realidade, dois produtores precisam agir: a galinha e o porco. A galinha entrega o seu serviço em dia (o ovo) e se despede; o porco entrega a vida para que haja o bacon e só assim é possível ter um produto completo (o X Bacon). Esta história ilustra os colaboradores envolvidos no processo e os comprometidos com o processo.

O apóstolo Paulo foi um homem comprometido e não somente envolvido na causa do evangelho, notamos isso através do seu trabalho em prol do Evangelho. O volume de produção de epístolas é tremenda, só ele escreveu 13 epístolas ao todo, e sua abrangência vai do campo teológico, ético, social, político até o econômico. A sua biografia revela o quanto ele se envolvia intensamente no que fazia. Sua conversão e os momentos que a ela se seguem comprovam tal afirmativa. Depois dos acontecimentos na estrada de Damasco (At 9.1-30), Paulo alterou radicalmente e surpreendentemente seu rumo de vida. A experiência foi tão profunda que o levou a isolar-se no deserto por algum tempo, a fim de ajustar seus ideais e princípios ao projeto de vida que esse no rumo exigia (Gl 1. 17,18).

Em Paulo, o chamado de Cristo reflete-se tanto no ato de entregar a vida no altar (Rm 12.1) como na autonegação descrita em Gálatas 2.20: “Estou crucificado com cristo”. Em suma, a salvação de acordo com Paulo não está apenas em conquistar a isenção das penas do inferno, mas, antes disso, em recolocar-se no estado de total dependência incondicional e total de Deus:

“E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas”. (2Cr 5.17).

Em outras palavras, o cerne do evangelho não é meramente a salvação da alma do indivíduo, nem a concessão de uma apólice de seguro contra o fogo do inferno e dos efeitos escatológicos. Esse conceito de salvação, que se baseia mais na cruz que na ressurreição de Jesus Cristo, está fundamentada numa cosmovisão antropocêntrica, já que busca apenas os interesses humanos.

Considerando, portanto, que a queda do homem teve fortes traços éticos e não apenas teológicos, a essência do evangelho consiste em colocar aquele que está em Cristo na posição originalmente perdida na queda, ou seja, de dependência de Deus. Por isso a ressurreição de Cristo é o tema prioritário da agenda de Paulo (1Co 15.2-58). Para Paulo o viver é Cristo e Cristo foi um exemplo de entrega e de total dependência do Pai.

RENOVAÇÃO DA MENTE PARA VIVER NA DEPENDÊNCIA DE DEUS

“E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus”. (Rm 12.2).

A palavra “transformar” no grego é “metamorfose”, o processo da lagarta para a borboleta. Mas aqui o texto vai muito mais além. A palavra traduzida por “transformai-vos”, é a mesma empregada em Mt 17.2, onde a cena da transfiguração do Senhor Jesus é descrita. A passagem de 2Co 3.18 também contém esse vocábulo, onde lemos que “... com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória, na sua imagem, como pelo Senhor, o Espírito”. Essa transformação, pois, visa a natureza espiritual e não a aparência externa. Essa transformação é segundo os moldes da imagem de Cristo, o que se processa de glória em glória, ou seja, de um estado glorioso para outro.

Essa metamorfose que Paulo se refere em Romanos 12.2 só é obtida pela renovação da mente, daí a incapacidade humana de chegar a ela por si mesmo. No entanto, Paulo mostra que o homem espiritual tem a mente de Cristo, por isso é capazes de compreender as coisas do Evangelho (1Co 2.15,16) e uma vez compreendidas, a ação do evangelho na vida da pessoa permite que os olhos do coração se iluminem. Renovar a mente requer alteração dos padrões de conduta e opções de escolhas já presentes na estrutura mental e emocional da pessoa. Como isso é possível? O próprio apóstolo explica ao jovem Timóteo o papel das escrituras na renovação da mente:

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.16,17).
    
A renovação da mente vem pelo meditar nas Escrituras. Meditação, e não apenas leitura, para que a pessoa esteja preparada para conhecer “a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2b). Com a mente de Cristo, as coisas espirituais não lhe parecerão loucura.

COMPROMETIMENTO NÃO NOS ISENTA DAS PERSEGUIÇÕES

Paulo começou, na sinagoga de Damasco, a dar testemunho de sua fé recém-encontrada. O tema de sua mensagem concernente a Jesus era: “Este é o Filho de Deus” (At 9:20). Mas Paulo tinha de aprender amargas lições antes que pudesse apresentar-se como líder cristão confiável e eficiente. Descobriu que as pessoas não se esquecem com facilidade; os erros do homem podem persegui-lo por um longo tempo, mesmo depois que ele os tenha abandonado. Muitos dos discípulos suspeitavam de Paulo, e seus ex-companheiros de perseguições o odiavam. Ele pregou por breve tempo em Damasco, foi-se para a Arábia e depois voltou para Damasco.

A segunda tentativa de Paulo de pregar em Damasco igualmente não teve bom resultado. Um ano ou dois haviam decorrido desde a sua conversão, mas os judeus se lembravam de como ele havia desertado de sua primeira missão em Damasco. O ódio contra ele inflamou-se de novo e “deliberaram entre si tirar-lhe a vida” (At 9:23). A dramática história da fuga de Paulo por sobre a muralha, num cesto, tem prendido a imaginação de muitos.

Os dias de preparação de Paulo não estavam terminados. O relato que ele faz aos gálatas continua, dizendo: “Decorridos três anos, então subi a Jerusalém. . .“ (Gl 1:18). Ali ele encontrou a mesma hostil recepção que teve em Damasco. Uma vez mais foi obrigado a fugir.

Paulo desapareceu por alguns anos. Esses anos que ele passou escondido deram-lhe convicções amadurecidas e estatura espiritual de que ele necessitaria em seu ministério.

Estava se cumprindo na vida de Paulo aquilo que o senhor havia falado para Ananias quando este foi orar pelo apostolo: “pois eu lhe mostrarei quanto lhe importa sofrer pelo meu nome”. (At 9.16).

Através do ministério de Paulo nós aprendemos que a nossa alegria não está baseada nas coisas ao nosso redor, mas no Deus maravilhoso que servimos e que está dentro de nós na pessoa do Espirito Santo. Por isso que o apóstolo nos ensina está verdade dizendo: “porque aprendi a viver contente em toda e qualquer situação” (Fl 4.11).