quarta-feira, 7 de agosto de 2013

O QUE É SER PASTOR?

Por Pr. Silas Figueira
Ser pastor em primeiro lugar é ser humano. Alguém que vive os mesmos dilemas que qualquer membro da comunidade cristã vivencia. É viver a vida com graça, e manifesta a graça do Senhor, mesmo quando as circunstâncias são adversas.
Ser pastor é ter a consciência de que foi escolhido por Deus, para fazer parte do grupo que exerce o mais excelente ministério (1Tm 3.1). É fazer parte do grupo que desiste dos seus sonhos profissionais e de sua carreira para sonhar os sonhos que o Senhor tem traçado para sua própria vida.
Ser pastor é doar-se aos demais. É ser uma pessoa aberta e sempre acessível aos seus irmãos e também ao seu próximo. Isto implica muitas vezes ter que abdicar de horas de sono. É necessário em muitos casos, vencer o seu cansaço para poder ajudar alguém ou até mesmo ter uma palavra amiga para uma pessoa aflita ou alguém que está em sofrimento.

Ser pastor é ser mensageiro de Deus. Anunciador das boas novas. É ser uma voz que clama com ousadia. Muitas vezes, a mensagem será dura, outras promoverá conforto e consolo. Muitos compreenderão os seus pecados e render-se-ão aos pés do Salvador. Ser pastor é ser voz e nada, além disto.
Ser pastor é ser guia. O pastor segue o caminho antes dos demais. Orienta os seus irmãos e mostra-lhes qual o caminho que deve ser seguido. Isto significa que, enquanto todos estão em segurança, muitas vezes o pastor está a percorrer o pântano tenebroso para poder conduzir o rebanho ao qual serve em segurança (Sl 23.4). Ele não abandona os seus, está presente na hora da angústia a guiá-los em segurança.
Ser pastor é chorar em silêncio. É sofrer sozinho. É ser alguém que tira forças de onde muitas vezes parece que já não existe nenhuma para poder fortalecer os que em sofrimento lhe procuram. É ser consolado pelo consolo e conforto que vê que promoveu na vida dos seus irmãos. É alegrar-se na vitória daqueles que ele tanto ama.
Ser pastor é fundamental e acima de tudo, é ser um cristão salvo pela graça do Senhor Jesus. É alguém que compreendeu que sua vida não faz sentido sem a comunhão e intimidade com o Senhor e o seu povo.1
Podemos dizer com isso que o pastor não é um voluntário, mas uma pessoa chamada por Deus. Sua motivação não está em vantagens humanas, mas em cumprir o propósito divino. O ministério não é um palco de sucesso, mas uma arena da morte. O ministério não é um camarim onde colocamos máscaras e assumimos um papel diferente daquele que, na realidade, somos, mas é um campo de trabalho cuja essência é a integridade. Abraçar o ideal do ministério é abrir mão de outros ideais.2 O ministério é árduo, espinhoso, difícil. Só mesmo os chamados resistem. Dois vocábulos são usados por Paulo em 1 Coríntios 4.1, Uperetes (ministro) e oikonomos (despenseiro, mordomo) significando remador e administrador respectivamente. Todos os dois no sentido de serviço laborioso, organizado e sistemático.
“Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (1Co 4.1).

A palavra “ministro” na língua portuguesa representa o primeiro escalão do governo. No entanto, se olharmos a palavra “ministro” no campo religioso, estaremos falando de alguém que exerce a função de líder religioso na igreja local. Todavia, a palavra usada pelo apóstolo Paulo para definir o ministro nos dá uma ideia totalmente contrária. A palavra grega usada é Uperetes, que significa um remador de galés. Essa palavra era utilizada para a classe mais simples de escravos. A palavra Uperetes só aparece aqui em todo o Novo Testamento. Nos grandes navios romanos existiam as galés, que eram porões onde trabalhavam os escravos sentenciados à morte e eles prestavam um último serviço antes de morrer. Eles tinham seus pés amarrados com grassas correntes e trabalhavam à exaustão sob o flagelo dos chicotes até à morte. Paulo está dizendo para não colocarmos os holofotes sobre um homem, porque importa que os homens nos considerem uperete e não como capitães do navio. O ministro da igreja é um escravo já sentenciado à morte, que deve obedecer as ordens do Capitão do navio, o Senhor Jesus.3
Paulo utiliza agora uma nova figura. Ele diz que o pastor é um despenseiro ou mordomo. A palavra grega utilizada por Paulo é oikonomos, de onde vem a palavra mordomo. O ministro é um despenseiro, aquele que toma conta da casa do seu senhor. Em relação ao dono da casa, o mordomo era um escravo, mas em relação aos outros serviçais, ele era o superintendente. O mordomo era a pessoa que cuidava da despensa, da dieta, da alimentação de toda a família. Ele era um escravo de confiança da casa. O que isso nos sugere?
a) Não é competência do mordomo prover o alimento para a família; essa era uma responsabilidade do dono da casa. O ministro do evangelho não tem de prover o alimento, porque esse já foi provido. Esse alimento é a Palavra de Deus. Reter a Palavra ao povo é um pecado.
b) Não era função do mordomo buscar outra provisão ou qualquer alimento que não fosse pelo senhor. A Palavra de Deus deve ser ensinada de formas variadas. Paulo diz para ensinarmos todo conselho de Deus (At 20.27). Nos dias atuais nenhum homem ou mulher recebe mensagens novas de Deus. Tudo o que Deus tem para nós já está nas Escrituras. A pregação de hoje não é revelável, mas expositiva.
c) A função do mordomo era servir as mesas com integridade. O ministro não é um filósofo que cria a sua própria filosofia. Não é assim o despenseiro. Ele não cria uma doutrina, uma teologia ou uma ideia a fim de aplicá-la e ensiná-la. Cabe a ele transmitir o que recebeu. E Paulo sempre usa essa expressão: “[Eu] vos entreguei o que também recebi” (1Co 11.23; 15.3).4
Os ministros deverão ter chamada específica e caracterizar-se por fidelidade, piedade, responsabilidade, integridade e ter familiaridade com a palavra de Deus. Hoje em dia, é muito fácil encontrarmos obreiros administradores, construtores e sistemáticos dentro de padrões humanos. Porém a obra carece de obreiros que distribuam o alimento, que é a Palavra, diretamente de Deus aos corações, e isto será feito a partir da utilização de dons que destacam o lado espiritual da obra de Deus, em contraste com as obras meramente humanas como construções, aquisições e conceitos baseados na lógica e ciência puramente humana.
O verdadeiro obreiro também será aquele que sabe conviver com responsabilidade de seu chamado e as críticas que advirão desta chamada. Somos vitrine, expostos a juízos: de Deus, da Igreja, de nós mesmos e da sociedade como um todo.

Façamos das palavras de Paulo a Timóteo nosso lema: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15).

O obreiro como ministro de Cristo, deverá acima de tudo ter a habilidade de abrir portas, caminhos (construir pontes), unir distâncias, pessoas e vidas. Em suma, não haverão portas fechadas aos servos de Deus, no que depender do seu testemunho.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O homem natural odeia a Graça


Por C. H. Spurgeon
 
O teor do evangelho gira em torno do fato de que o homem está morto em seus pecados, e que a vida eterna é um dom de Deus, e se colocaria contra a totalidade deste teor básico do evangelho quem defendesse que o homem pode conhecer e amar a Cristo sem a atuação do Espírito Santo. O Espírito Santo encontra os homens tão desprovidos de vida espiritual, como aqueles ossos secos na visão de Ezequiel; o Espírito tem de juntar cada osso com seu osso, até reconstituir o esqueleto, e depois, vindo dos quatro cantos, precisa soprar sobre esses ossos mortos a fim de que recebam vida. A não ser pelo Espírito de Deus, as almas dos homens teriam de permanecer no vale de ossos secos, mortas, e mortas para sempre.

Mas as Escrituras não dizem apenas que o homem está morto em pecado; afirmam algo pior que isso: que ele, por natureza, é absoluta e totalmente contrário a tudo que seja bom e reto. "Portanto a intenção da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser" Rom. 8:7. Folheemos as páginas da Bíblia e continuamente é repetido que a vontade do homem é contrária às coisas de Deus. Que disse Cristo naquele texto tão freqüentemente citado pelos arminianos para negar a doutrina que tão claramente afirma? Que disse Ele aos que imaginavam ser possível ao homem vir a Ele sem a influência divina? Primeiramente afirmou: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer". Entretanto, disse algo ainda mais enfático: "E não quereis vir a mim para terdes vida".

O homem não quer vir. Aqui se encontra a coisa fatal; não é apenas que o homem se encontra sem forças para fazer o bem, e sim que é suficientemente poderoso para fazer o mal, de modo que a sua vontade está perversamente disposta a ir contra tudo que é reto. Vá, arminiano, e diga a seus ouvintes que eles podem vir a Cristo, se assim o desejam, mas saiba que o seu Redentor o observa face a face e lhe diz que você está proferindo uma mentira! Os homens não querem vir. Nunca virão por si mesmos. Ninguém pode induzi-los a vir, nem mesmo forçá-los a vir com todas as suas ameaças, nem seduzi-los com todos os seus convites. Eles não querem vir a Cristo para terem vida. Até que o Espírito os traga, não quererão vir, nem poderão vir.

E é pelo fato de que a natureza humana é hostil ao Espírito de Deus, que o homem odeia a graça, despreza a maneira pela qual se oferece esta graça, e é contrário à sua natureza orgulhosa o humilhar-se para receber a salvação pelos méritos de outro. Daí, pois, surge a necessidade de que o Espírito opere diretamente no homem para mudar a sua vontade, corrigir as inclinações do seu coração, e depois de colocá-lo no caminho certo, dar-lhe forças para andar nele. Oh, se todos estudassem o homem e chegassem a compreendê-lo, não poderiam deixar de ser zelosos nesta doutrina da necessidade da obra do Espírito Santo! Com razão um grande escritor observou que jamais conheceu um homem que sustentasse algum erro teológico, que ao mesmo tempo não mantivesse alguma doutrina que atenuasse a depravação humana.

O arminiano diz que é verdade que o ser humano está espiritualmente caído, todavia acrescenta que ele ainda possui o poder da vontade e essa vontade é livre; ele pode levantar-se. Atenua-se dessa forma o caráter desesperador da queda do homem. Por outro lado, o antinomiano afirma que o homem não é responsável, pois nada pode fazer; por conseguinte não está obrigado a fazer nada. Não é sua obrigação crer, nem é sua obrigação arrepender-se. Vemos aqui que ele também atenua a condição pecaminosa do homem e lhe faltam idéias corretas a respeito da Queda. Entretanto, uma vez mantida a posição verdadeira, ou seja, a de que o ser humano não só está completamente caído, perdido e condenado, e sim também de que é culpado e por si mesmo impotente, então necessariamente você adotará a posição doutrinária correta em todos os demais pontos do grande evangelho do Senhor Jesus. Desde que se creia o que as Escrituras ensinam sobre o homem -posto que se aceite que o seu coração é depravado, seus afetos corrompidos, seu entendimento obscurecido e sua vontade pervertida, então você terá de sustentar que, se uma pessoa assim tão miserável há de ser salva, essa salvação deverá ser efetuada pelo Espírito de Deus, e por Ele somente.

A IGREJA LOCAL


Por Pr. Silas Figueira
Comentando sobre este assunto, R.C. Sprou editor geral da Bíblia de Genebra diz que “cada igreja local é uma manifestação da única Igreja Universal e deverá incorporar a natureza dessa Igreja, como a família regenerada do Pai, o corpo ministerial de Cristo e a comunhão pelo Espírito Santo. No processo de separar-se da Igreja Católica Romana, os reformadores precisavam estar certos a respeito de quais seriam as marcas da Igreja verdadeira. Nas Escrituras, eles acharam a resposta em termos de dois critérios.

  1. A fiel pregação da Palavra de Deus. Isso significa que a Igreja ensina o evangelho cristão de acordo com as Escrituras. Qualquer grupo que nega a Trindade, a divindade de Cristo, a expiação pelos pecados ou a justificação pela fé somente se comporta como os separatistas dos tempos primitivos da Igreja, cuja negação da Encarnação (1Jo 4.1-3) levou João a dizer: “não eram dos nossos” (1Jo 2.19).
  2. O correto uso dos sacramentos. Esse critério significa que o Batismo e a Ceia do Senhor são usados e explicados como exposições do evangelho da fé em Cristo. Transformar esses Sacramentos em superstições que anulam a suficiência da fé em Cristo é solapar a identidade da Igreja, como qualquer outra coisa que obstrua a fé em Cristo. Um propósito do Batismo é identificar aqueles que são recebidos na Igreja visível. A Ceia do Senhor confirma, para os fiéis, sua condição de membros da Igreja e sua comunhão uns com os outros e com Cristo.1  

A Igreja, “Corpo de Cristo”, é perfeita e sem mácula, mas a igreja local ainda é formada por pessoas imperfeitas e que ainda não alcançaram a perfeição, pois ainda estão vivendo em um corpo que é carne; embora, em Cristo Jesus já tenham alcançado a salvação. Por isso que a igreja local ainda é um lugar lastimável. Pois nela, contudo, há sempre alguns (e frequentemente muitos) que vivem como parasitas. Os de fora veem apenas os parasitas e pensam que eles são a igreja. Isso não é verdade, assim como os pregos não são o casco do navio. Como disse Eugene Perteson: “Nenhuma igreja jamais existiu em estado puro. É composta de pecadores. As pulgas acompanham o cachorro”.2

A igreja é o lugar aonde vamos para descobrir o que estamos fazendo certo – lugar de afirmação. Mas a igreja é também o lugar onde buscamos saber em que estamos errando – lugar de correção. Na igreja, ansiamos ouvir as promessas – lugar de motivação. Nenhuma comunidade sobrevive sem qualquer das partes. Precisamos de afirmação, correção e motivação. 3 Essa tríplice orientação espiritual capacita o povo de Deus para viver em fé, confiante nEle, em ambiente hostil. O processo de afirmação, correção e promessa ou motivação é o que os gregos chamavam de paidea, processo complexo pelo qual a comunidade passa adiante sua paixão e sua experiência.4

As igrejas são o meio que Deus utiliza para unir as pessoas, para que entendam quem é o seu Senhor, quem elas mesmas são e, assim, desenvolvem relacionamentos coerentes com essas identidades. 

Cada mensagem começa com o Senhor dizendo: “Conheço...”, no grego oida. Cada mensagem demonstra conhecimento exato de tudo que acontece na congregação. A mensagem se desenvolve de acordo com os fatos econômicos, culturais e políticos da cidade e da igreja. A situação social externa e a situação religiosa interna se unem na mensagem formulada. O conhecimento dEle não é exterior, como seria o de um jornalista dedicado; é um conhecimento preciso do que significa viver como povo de Deus naquele lugar – conhecimento compreensivo do que implica, para eles, viver no nome de Jesus.5

COMO ASSIM [OUTRAS] COISAS?


Por Marcelo Berti
Será que Colossenses 1:16, 17 (ALA) exclui Jesus de ter sido criado, ao dizer “nele foram criadas todas as cousas . . . tudo foi criado por meio dele e para ele”? A palavra grega traduzida aqui por “todas” é pán‧ta, forma flexionada de pas. Em Lucas 13:2, ALA traduz isso por “todos os outros”; BV “os demais”; HR diz “todos os mais”. (Veja também Lucas 21:29 na BLH e Filipenses 2:21 na PIB.) Em harmonia com todas as outras coisas que a Bíblia diz a respeito do Filho, a NM atribui o mesmo sentido a pán‧ta em Colossenses 1:16, 17, de modo que reza, em parte, “mediante ele foram criadas todas as outras coisas . . . Todas as outras coisas foram criadas por intermédio dele e para ele”. Assim, indica-se que ele é um ser criado, faz parte da criação produzida por Deus.[1]
Muitas pessoas querem saber a verdade sobre quem Jesus é, e a frase acima demonstra exatamente isso. Algumas pessoas acham que Ele é o Criador de todas as [outras] coisas encontradas no universo. Ou seja, embora seja Ele um ser criado por Jeová, ele é criador com Ele de todas as [outras] coisas. Isso é exatamente o que lemos na citação acima, retirada do livro Raciocínios. Mas, será isso mesmo verdade?
Nossa primeira observação a esse argumento é que o adjetivo grego “pas” é usado 1243x em todo o Novo Testamento, e o autor está fundamentando sua tradução em três ocorrências. Em outras palavras, 1240 ocasiões são menos importantes que essas três. Ou seja, a tradução proposta pela TNM, seguindo o argumento desse autor, é fundamentada na exceção do uso do adjetivo “pas”. Nossa pergunta nesse ponto é: Isso é válido?
Para responder a essa pergunta, vamos analisar os exemplos que o autor oferece. Em Lc.13.2 lemos na TNM: “Ele lhes disse, assim, em resposta: “Imaginais que esses galileus se mostraram piores pecadores do que todos os outros galileus, porque sofreram tais coisas?”. Note que o termo galileus é usado duas vezes e que o texto faz clara distinção entre dois grupos distintos de galileus. Ou seja, o próprio texto estabelece um contexto em que o adjetivo “pas” não possa significar todos em absoluto, mas todos em distinção do grupo previamente identificado. Portanto, parece óbvio que o segundo grupo de galileus não é o mesmo do anterior, tendo a inclusão do termo “outros” ou não. Segue-se que, nesse caso o contexto exige tal inserção. Mas que dizer de Cl.1.16: nesse texto vemos esse indicativo?
Em Lucas 21.29 lemos na TNM: “Com isso contou-lhes uma ilustração: “Reparai na figueira e em todas as outras árvores”. Note que o caso é similar: Dois grupos distintos de árvores são contrastadas, as figueiras e as demais. Nesse caso, como no anterior, o contexto exige tal distinção. Será que tal exigência é vista em Cl.1.16?
Em Filepenses.2.21 lemos na TNM: “Pois todos os outros estão buscando os seus próprios interesses, não os de Cristo Jesus”. Novamente dois grupos contrastados: os cristãos e os demais. Novamente vemos que quando o contexto exige a distinção, o uso do termo “outros” na tradução não é um equívoco, mas uma necessidade. Mas, em Cl.1.16 vemos essa exigência e necessidade? Com que criação as “outras” coisas foram contrastadas?
Note que o autor responde a essa pergunta: “Em harmonia com todas as outras coisas que a Bíblia diz a respeito do Filho, a NM atribui o mesmo sentido a pán‧ta em Colossenses 1:16, 17, (…) Assim, indica-se que ele é um ser criado, faz parte da criação produzida por Deus”. Ou seja, o autor não encontrou no contexto do texto qualquer indicação de contraste sendo realizada, e de pronto, julgou necessário recorrer à sua teologia para justificar a versão da TNM. Note que tal autor nada apresenta sobre “todas as outras coisas que a Bíblia ensina”, apenas diz que o todo das escrituras afirmam que Jesus é Criado.
Vamos considerar, portanto, que tal autor entende o termo “primogênito” como um indicativo de sua criação. Aliás, pouco antes no mesmo texto ele atesta: “a Bíblia aplica esta expressão unicamente ao Filho. Segundo o significado costumeiro de “primogênito”, indica que Jesus é o mais velho da família dos filhos de Jeová[2]”. Segundo esse autor, o texto de Paulo utiliza o sentido costumeiro de “primogênito” e conclui que Jesus é a primeira criação de Deus. Entretanto, esse não é o único argumento em defesa da TNM, pois o autor completa:
“Antes de Colossenses 1:15, a expressão “primogênito” ocorre mais de 30 vezes na Bíblia, e em todos os casos em que é aplicado a criaturas viventes, tem o mesmo significado — o primogênito faz parte do grupo. “O primogênito de Israel” é um dos filhos de Israel; “o primogênito de Faraó” é um da família de Faraó; “os primogênitos dos animais” são eles próprios animais. O que faz com que alguns atribuam, então, um significado diferente a “primogênito” em Colossenses 1:15? O emprego bíblico, ou a crença à qual já se apegaram e para a qual procuram prova?”
Note que o autor descarta a possibilidade de outro sentido para o termo primogênito afirmando que os que o fazem prestigiam sua teologia e não as escrituras, pois, segundo ele, o termo primogênito nunca é usado nas escrituras nesse sentido. Todavia, essa afirmação não é verdadeira. Devemos ainda lembrar o leitor que o termo grego para primogênito é usado diversas vezes na Septuaginta e nem sempre é usada no sentido usual que o autor propõe. Por exemplo, em Gn.4.4 o termo é usado descrever a parte mais importante de um rebanho. Em Ex.4.22 o mesmo termo grego é usado, muito embora o sentido auferido descreva o relacionamento de Israel para com Deus. Em Ez.44.30 vemos a mesma idéia de Gn.4.4, que trata da parte mais importante de uma plantação que deveria ser ofertada aos sacerdotes. Mesmo no Novo Testamento vemos o texto de Hb.12.23 cujo o uso do mesmo termo é feito com diferente do proposto pelo autor da STV. Mas, devemos lembrar que, realizar essa análise e ignorar o modo como Paulo usa esse termo, de nada adianta, afinal, não procurarmos saber a definição de “primogênito”, mas o modo como Paulo usa o termo.
Por isso, observe que Paulo além de chamar a Cristo de “primogênito de toda criação” (v.15), também o chama de ”primogênito dentre os mortos” (v.18). Nesse momento percebemos que Paulo não está fazendo uso do termo do modo costumeiro, visto que ninguém poderia ser o primeiro nascido dentre os que morreram. Isso não faz qualquer sentido. Ao que o contexto (textual) de Cl.1.16 indica, o termo primogênito não está sendo utilizado no sentido q de filho que tem a primazia sobre a herança do Pai, conceito recorrente na teologia de Paulo (Rm.8.17; Gl.3.29; 4.7; cf. Hb.1.2).
Além disso, devemos lembrar que não encontramos no texto de Cl.1.16 nada que demonstre que o termo “toda criação” esteja em contraste com o termo primogênito. Ou seja, ainda que o significado do termo seguisse o modo usual defendido pela STV, não encontramos a mesma necessidade da inserção do termo “outras” como vemos nos textos usados como exemplo pelo autor. Portanto, concluímos que tal inserção é desnecessária e motivada por teologia.
O problema da interpretação proposta nesse parágrafo é sua contradição explícita com outro verso das escrituras, que na TNM é lido assim: “Todas as coisas vieram à existência por intermédio dele, e à parte dele nem mesmo uma só coisa veio à existência” (Jo.1.3). Observe que no desejo de defender Jesus como criatura, o autor acabou entrando em franca contradição com Jo.1.3 que diz que Jesus é o responsável pela existência de todas as coisas, e que SEM ELE nada do que existe veio à existência. Ou seja, se Jesus foi criado, segundo Jo.1.3, isso significa que Ele se criou, o que é impossível.
O grande mal de assumir que as inserções são de fato texto inspirados é construir teologia e ensinar baseado nessa inserção. Observe o que lemos na obra Estudo Perspicaz:
Jeová também mostrou amor ao conceder ao seu primeiro criado Filho espiritual o privilégio de participar com Ele em todas as demais obras criativas, tanto espirituais como materiais, fazendo generosamente com que este fato se tornasse conhecido, com a honra resultante para seu Filho. (Gên 1:26; Col 1:15-17) Assim, não receou tibiamente a possibilidade duma competição, mas, antes, demonstrou inteira confiança em sua própria Soberania legítima[3]
Observe que o texto já inicia com a declaração de que Cristo é criado e que foi convidado a criar as outras coisas, debaixo da autorização do Pai. Contudo, o fundamento para essa afirmação teológica, segundo esse autor, é o próprio texto de Cl.1.16. Ou seja, Jesus é criado e co-criador por que Cl.1.16 diz. Note que a distorção já não precisa ser analisada, apenas apresentada. Porém, vemos nessa afirmação a teológica ser construída sobre um termo que não faz parte do texto do apóstolo Paulo, mas trata-se de uma inserção da STV. Ou seja, mais uma vez o texto do apóstolo Paulo tem pouco valor, o que importa é a inserção e a promoção da teologia da STV. Os Testemunhas de Jeová que leram essa citação e abriram suas TNM para verificar as citações, entenderam que tal afirmação era verdadeira pois estava nas escrituras. Mal sabem eles que foi tal teologia que colocou tal idéia na TNM.
Portanto, devemos admitir que colocar o termo [outras] no texto de Cl.1.16 não é justificado pela gramática do texto, pela semântica do termo grego “pâs” no uso que é feito nesse texto, e que tal inclusão faz com que o significado do texto entre em conflito com outras passagens da escritura (Jo.1.3). Segue-se que não parece justificada a tentativa de chamar Jesus Cristo de um ser criado, por que a Bíblia ensina que Ele é Criador.

O Deus que Se recusa entrar na caixa



Existe uma expressão muito conhecida, especialmente entre os teólogos, que diz: “É impossível colocar Deus numa caixinha”. Com essa expressão, queremos dizer que Deus está tão além da compreensão humana, que é impossível propor uma definição que consiga exaurir todo o ser divino.
O problema é que na prática as coisas não funcionam de forma tão simples assim. Depois de passar anos debruçado sobre livros, respirando todos os ácaros das bibliotecas, dissecando as Escrituras nas línguas originais, e aprendendo todos os tipos de categorias teológicas, o teólogo começa achar que Deus é como aquela namorada que conhecemos muito bem. E por isso, ele conclui que pode definir com toda segurança a essência divina. Ele passa a crer que é um especialista em Deus, e que é capaz de explorar e definir a pessoa e o modus operandi divino. Entretanto, este indivíduo “cai do cavalo” quando Deus aparentemente contradiz o seu bairrismo teológico. Ele fica sem respostas quando seus credos não mais explicam, suas categorias não mais comportam e suas definições não mais resumem.
Jó, o personagem bíblico, e seus amigos teólogos sofrem desse mal. São indivíduos que diante de uma aparente incoerência divina, debatem, replicam, treplicam, mas o fato é que suas categorias teológicas não conseguem explicar o que está acontecendo na prática. Observemos com mais cuidado.
O livro de Jó nos apresenta um cenário em que tudo faz sentido, onde todas as categorias teológicas funcionam bem direitinho. Jó, um homem piedoso, justo e temente a Deus, goza abundância, prosperidade e felicidade. Do ponto de vista teológico, tudo bem! Afinal de contas, nada mais normal do que ver Deus abençoando um homem justo e piedoso.
Agora, o castelinho de cartas das categorias teológicas simplesmente desmorona, quando Deus decide sair da caixinha e permitir que as maiores atrocidades aconteçam na vida de um homem justo e piedoso. De repente, Jó perde a fortuna, filhos e a saúde. E agora, José? Como explicar um quadro como esse? Se Deus é bom, soberano e justo, por que ele permite tamanho mal? Por que existem crianças morrendo de fome na África? Por que pessoas piedosas morrem nas filas dos hospitais do SUS? Por que tsunamis e terremotos varrem países matando milhares de pessoas? E pior, por que Deus permite que o traficante, o político corrupto, o mafioso viva uma vida regalada, feliz e próspera? Por que o mundo é caótico e tudo parece fora dos eixos?
Diante deste quadro, todos os personagens do livro de Jó vestem a toga teológica e começam um debate, numa tentativa de colocar Deus de volta na caixinha. A mulher de Jó é uma teóloga epistemologicamente empiricista e conclui: “Deus é injusto”; Os três amigos de Jó são teólogos racionalistas e concluem: “Jó, você está sendo punido por Deus!”; Eliú, o amigo mais novo e aparentemente o mais centrado, baseado numa epistemologia um tanto existencialista, conclui: “Ei, velharada, vocês estão errados. Jó sofre porque Deus quer ensinar algo a ele”.
Depois que todos os teólogos debateram, que o dispensacionalista brigou com o aliancista, que o calvinista “quebrou o pau” com o arminiano, que o reformado cutucou o evangélico, e todos os tipos de categorias foram expostas e defendidas, Deus decide entrar na parada. E a resposta da parte de Deus pode ser resumida com a seguinte frase: “Estou pouco me lixando para suas categorias teológicas”.
Sim! O discurso divino não chega nem perto de ser considerado uma resposta aos questionamentos e categorizações do teólogo Jó. Deus não se preocupa em prestar contas e dar satisfações de todos os pormenores de seu governo. A “não-reposta” de Deus às interrogações da mente de Jó deve ser lida assim: “Amigo, a maneira como me conduzo e governo o universo não é da sua conta”. Robert Alter emThe Art of Biblical Poetry (Basic Books) sugere de forma brilhante que ao invés de responder os questionamentos de Jó, Deus sarcasticamente o questiona acerca da sua habilidade em produzir relâmpagos, fazer o sol nascer, derramar a chuva, estabelecer os limites dos oceanos, etc.
Além disso, Deus não somente se revela soberano sobre a criação, mas também sobre o caos (uma clara figura teológica para a ausência do bem). O “Beemote” (Jó 40.15 בהמות) e o “Leviatã” (Jó 41.1 לויתן) são símbolos do caos na literatura bíblica e cananita (ver John Day, God’s conflict with the Dragon and the Sea). Assim, Deus revela seu governo sobre o mundo e sobre todas as forças que são contrárias a ordem criada e estabelecida.
Embora não seja da alçada de Jó compreender todas as operações da justiça divina, ele é convidado a confiar no Criador da ordem, no Senhor das forças cósmicas, naquele que tem poder para suprimir o caos que invadiu sua vida e restaurar a ordem natural dos eventos de sua experiência.
Portanto, não é papel do teólogo tentar categorizar o ser divino ao tentar forçá-lo dentro de uma caixinha teológica. Simplesmente, porque Deus se recusa entrar na caixa. Sua tarefa é nada mais do que o privilégio de vislumbrar a majestade do Criador e deixar ser vencido por seu poder e soberania.

As duas religiões cristãs


Por Maurício Zágari

Tempos atrás eu ficava muito chateado quando alguém criticava o termo “religião”. Pois eu sempre entendi “religião” como algo bom, uma comunicação com Deus, um relacionamento pessoal com o Senhor – a partir da raiz latina “religare”. Por isso eu lia ou ouvia pessoas amaldiçoando a “religião” e aquilo me incomodava profundamente. Tenho lido alguns bons livros. Tenho tido algumas experiências. E hoje posso dizer que entendo os que criticam a “religião” e não me chateio mais. Na verdade, até concordo com eles e por uma simples razão: finalmente compreendi que, em nossos dias, o termo “religião” (e seus cognatos) ganhou dois significados diferentes. O fenômeno é igual ao que ocorre com palavras como “manga”, que pode se referir a uma fruta ou a um pedaço da minha camisa; como “casa”, que pode ser a construção onde moro ou o local onde prendemos o botão da calça; como “pena”, que pode ser “dó” ou uma parte da asa de um pássaro. Sim, atualmente, a mesma palavra, “religião”, também ganhou significados bem diferentes – um positivo e outro negativo. Vamos falar sobre eles.
Primeiro o positivo. Algum tempo atrás estava conversando com um amigo e ele usou uma metáfora muito interessante. Ao falar sobre pecado e restauração, usou a imagem do fio de algum aparelho eletrodoméstico que é arrancado da tomada. Isso é pecado. Deus é a fonte de energia, a fonte de vida, a tomada. Nós somos o eletrodoméstico. Enquanto estivermos ligados a Deus, “conectados à tomada”, fluirá dele para nós a “eletricidade”, a vida, aquilo que nos permite funcionar. Assim, do mesmo modo que uma televisão precisa estar ligada à tomada para ter razão de ser, para cumprir o propósito para o qual foi criada, para termos vida nós precisamos estar ligados ao Senhor. Só assim teremos razão de ser, cumpriremos o propósito para o qual fomos criados.
Portanto, quando pecamos, é como se nosso fio fosse arrancado da tomada. Perdemos a conexão. Não estamos mais ligados ao Pai. Por isso, precisamos nos re…ligar a Deus. Isto é, nos ligar novamente à fonte de vida. Religar. Essa é a origem do termo “religião”: vem do latim religare, que se refere a essa religação. Portanto, sempre que você ouvir falar de “religião” no sentido da “religação entre o pecador e Deus”, sorria! Esse é um bom significado. Essa é a boa religião. E não deve ser criticada ou amaldiçoada. Nesse sentido, “religiosa” é somente uma pessoa que foi reconectada a Cristo. E glória ao Senhor por isso: bendita a religião, que permitiu que a graça transformasse o pecador em um religioso.
Mas existe também o sentido negativo. Aos olhos de muitos, o termo perdeu o sentido original de “religação”. E hoje entendo isso. O exemplo maior do conceito negativo de “religião” está na parábola do bom samaritano. Sei que você já leu essa passagem milhares de vezes, mas o convido uma vez mais para dar atenção a esse relato, registrado em Lucas 10:

Religião3
“[Certo intérprete da Lei] perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo.”

Repare: aquele sacerdote e aquele levita (que passaram ao largo, não deram a mínima para quem estava ali, caído, e foram cuidar da própria vida) são “religiosos” – no pior sentido. Eles cumprem tudo o que a religiosidade estipula, obedecem as normas do eclesiasticismo (não procure essa palavra no dicionário, é um neologismo meu)… enfim, aos olhos dos homens aquele sacerdote e aquele levita são servos corretíssimos de Deus. Seguem a cartilha da fé ao pé da letra. Só que tem um porém: em seu coração eles não amam o próximo. Isso é o sentido negativo que o conceito de “religião” ganhou em nossos dias: é o estilo de vida de quem exteriormente é o supra sumo da espiritualidade, mas por dentro é cheio de desamor. É exatamente o que Jesus chamou de um “sepulcro caiado”. Pois Jesus define o “sepulcro caiado” como alguém que parece justo por fora mas por dentro está cheio de hipocrisia e maldade – o que, pelo meu entendimento, é resultado direto da falta de amor.

Tiago 1.27 diz: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo”. A palavra, no original grego, traduzida aqui por “religião”, é thrēskeia, que tem exatamente o sentido do cumprimento de práticas litúrgicas, de normas e regras ditadas pela fé, de observâncias cerimoniais. O irmão de Jesus estava fazendo uma alusão direta aos fariseus e outros mestres da Lei, explicando que tudo aquilo que eles cumpriam como parte de sua religiosidade (rituais, obediência à Lei, liturgias, cumprimento de festas e sábados e tudo o mais) era inútil se eles não tivessem amor pelo próximo. E não só amor como sentimento, mas amor demonstrado de forma prática. Pois era tão importante buscar a santidade e fugir da contaminação do pecado como esforçar-se e sacrificar-se pelo bem-estar do próximo – como fruto do amor.
Religião no sentido da “religação” com Deus é algo bom, imprescindível e, mais do que tudo, é um privilegio concedido por Cristo a nós. Quando ele morreu na cruz e o véu do templo se rasgou, o que aquilo quis dizer foi: “Não há mais impedimentos, você pode se ligar diretamente ao Pai”. Por outro lado, religião no sentido de viver uma vida de práticas, cumprimento a regras e obediência aos mandamentos bíblicos mas sem demonstração de amor ao próximo é o que há de mais nefasto. Os samaritanos não faziam nada do que os sacerdotes judeus faziam em termos litúrgicos, mas foi precisamente o gesto de amor do samaritano pelo próximo que lhe rendeu elogios de Cristo. Não foi ter ido ao culto, evangelizado, louvado da forma “certa”, pregado um bom sermão, seguido as liturgias e datas santas…nada disso. Fazer essas coisas é ótimo – e devemos fazer – mas não foi isso o que fez Jesus destacar a atitude do samaritano. O sacerdote cumpria a cartilha da fé ao pé da letra, mas deixou o próximo pra lá e foi cuidar da própria vida e tratar dos próprios interesses. E esse, aos olhos de Jesus, é “raça de víboras”.

Os elogios de Jesus foram pelo amor demonstrado ao próximo.

Que Deus nos livre de nos tornarmos “religiosos” no mau sentido. Se cumprirmos tudo o que a cartilha do crente determina mas nosso coração não tiver amor pelo próximo… estamos mal na fita. Peço ao Senhor que nos amemos uns aos outros de fato. Que haja mais pregações sobre isso. Que se cante mais sobre isso. É simples, não exige grandes teologias: amar o próximo é fazer por ele o que gostaríamos que fizessem a nós. Uma criança entende o conceito.
Deus queira que nunca aconteça com você. Mas, se um dia ocorrer de você estar caído, ferido, à beira da estrada, peça ao Senhor que passe por ali o religioso que foi religado a Deus e não o religioso que só cumpre os eclesiasticismos. Senão, meu irmão, minha irmã, você ficará jogado às traças, à chuva e ao desamor de gente que diz amar a Deus mas deixa você caído à beira do caminho, implorando por socorro.
Mais do que isso: que o religioso que deixa os outros largados para lá nunca sejamos você e eu. Pois, se formos assim… que Deus tenha misericórdia de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio

domingo, 4 de agosto de 2013

Na moral... ou imoral?


Por Lourenço Stelio Rega
 Uma grande rede de TV brasileira lançou há poucas semanas um programa semanal noturno que pretende ser um fórum de diálogo especialmente sobre questões éticas ou morais. A propaganda incentiva os espectadores à reflexão e busca de definição neste tão importante campo da vida cotidiana, pois as questões no campo da ética sempre se fazem presente na agenda de discussões por toda parte, desde uma conversa entre pessoas comuns até nos principais meios massivos de comunicação do mundo.
Aliás, esta semana eu falava para meus alunos de ética e bioética que todo mundo tem ética. Sem dúvida eles estranharam, pois é normal ouvirmos a menção de que “fulano não tem ética”, especialmente nesta época em que os “mensaleiros” estão sendo julgados pelo STF. Aproveitando a ocasião, utilizei esse mesmo time para provar que todo mundo tem ética. A ideia foi provar que o ser humano por natureza foi criado como um ser ético, isto é, a natureza humana inclui a eticidade. O ser humano foi criado como um “ser que decide”, um ser volitivo e responsável, portanto. Sempre decidimos, mesmo que você afirma que não decidiu nada ainda a respeito de algo, na realidade decidiu não decidir, pois uma não-decisão é uma decisão (a de não decidir)!
Veja que todo mundo então tem ética ou é ético em termos de sua própria natureza humana. A questão não é esta, mas qual a fonte, os referenciais, os fundamentos da ética de cada um. Os “mensaleiros”, por exemplo e ao que tudo indica, se valeram da ética utilitarista em que os fins justificam os meios. Se votos podem ser obtidos por “doação” de dinheiro, então assim se faça. Na ética utilitarista tudo o que dá certo é certo e, portanto, deve ser feito. Claro que se você segue referenciais cristãos terá uma ética cristã. Os existencialistas terão uma ética existencialista, etc. Assim, sempre há ética, o mais importante é o seu atributo, isto é, qual a sua fonte de verdade.
Voltando ao programa citado no começo. A ideia é bem interessante e instigante não fosse o apresentador implicitamente mobilizar o público presente a aplaudir alguma atitude compatível com os pressupostos do programa sobre determinado tema que está sendo lançado. Por exemplo, há alguns dias o programa foi sobre o casamento gay. Desde o começo o apresentador levava o público ao delírio quando trazia ao programa pessoas que viviam na condição ou relacionada com o casamento gay. Em outras palavras, em vez de levar o público presente e os telespectadores à reflexão os induzia a acreditar que a posição favorável ao casamento gay era a correta.
Na publicidade durante o dia o programa convida ao debate e à reflexão, mas nada disso faz, pois impinge, manipula e domina os telespectadores a acreditarem que a posição tão bem conhecida da emissora e dele são a pura e cristalina verdade. Não há discussão, não há especialistas que debatem os fundamentos do tema, que discutem os prós e contra.
Por exemplo, o fundamento que o programa se valeu para induzir o público de que o casamento gay é aceitável e correto foi a busca da felicidade. Um artista, protagonista do apresentador do programa, afirmou que a felicidade é um direito de todos e se a opção pela homossexualidade faz a pessoa feliz, nada há contra.
Ora, todo estudioso de Filosofia sabe da discussão e incertezas surgidas ao longo da história sobre o estabelecimento da felicidade como referencial de verdade ética e moral.
Se a felicidade é o referencial seguro da verdade ética, então o sadismo, masoquismo, pedofilia, corrupção, tráfico de drogas, homicídio poderiam ser justificáveis se seus praticantes alegassem que se sentem felizes com estas práticas. Vejam o absurdo.
Outro sofisma que o programa utiliza é taxar de preconceituoso todo mundo que discorda. Há uma distância muito grande entre preconceito e convicção e é isso que os “amantes” da homoafetividade não conseguem entender ou não querem aceitar. Por isso mesmo, eles é que podem ser considerados radicais, preconceituosos, autoritários. Estamos hoje vivendo a ditadura da imposição ética nietzschiana em que a “vontade de potência” como um vulcão deve ser o guia da verdade além do bem e do mal. Querem que todos abandonem suas convicções para se submeter às suas convicções. E é isso que o programa “Na moral” faz. Com essa manifesta dominação ideológica da emissora será que o que temos mesmo é uma atitude descaradamente imoral???

sábado, 3 de agosto de 2013

Deus dá testemunho de si mesmo


Por Valdir Steuernagel
Na sala pequena a conversa é intensa. Em pouco tempo chegamos a assuntos profundos. “Você não faz ideia do que este país passou e do que o regime comunista e ateu fez com esta gente!”, diz o missionário inglês, com a firmeza e a espontaneidade de quem se sente em casa em Esbalan, no nordeste da Albânia. E ele tem razão. Fico tentando entender o drama pelo qual o país passou em sua história recente e o seu processo de transformação nestas duas últimas décadas.

A história da Albânia é antiga. Só em 1912 eles se libertaram da longa ocupação otomana que transformara o país cristão em muçulmano. Porém, em 1944, eles voltavam a outro império, dessa vez o soviético. Sob a liderança de Enver Hoxha, que ficou no poder até falecer, em 1985, a Albânia passou a ser uma “ilha” totalitária na qual nem o bloco soviético, com o qual rompeu em 1967, nem a China, com a qual rompeu em 1978, eram suficientemente radicais em sua vivência do comunismo. Foi Hoxha quem suprimiu toda e qualquer estrutura e expressão religiosa no país, declarando-o o primeiro estado ateu do mundo. A liderança que o substituiu procurou introduzir algumas medidas liberalizadoras, mas não subsistiu às consequências e à influência da queda do império soviético e à mediática queda do muro de Berlim. Assim, quando as fronteiras foram abertas, em 1991, instituiu-se um novo regime político e a população vivenciou níveis desconhecidos de liberdade.

O mais intrigante é que, apesar de décadas de ensino e controle ateísta e do aniquilamento radical de qualquer sinal religioso, hoje a população é descrita em termos religiosos, embora com dados antigos e desatualizados. Assim, 70% da população é muçulmana, 20% ortodoxa e 10% católica. Já a igreja evangélica, com expressões diversas, é bem pequena e tem menos de 20 anos de idade. Onde estão os ateus? Os convertidos ao ateísmo por um estado forte, controlador e violento? Eles existem, é claro. No entanto, o anseio e a necessidade espiritual vieram à tona assim que possível. Eclesiastes 3.11 diz que Deus “pôs no coração do homem o anseio pela eternidade”; e o homem, quando pode, expressa sua busca por Deus de várias maneiras e formas religiosas. Por algum tempo, a inexistência de Deus pode até ser declarada, imposta e proclamada por regimes, instituições e filosofias; porém, assim que uma janela se abre ou uma porta deixa fresta, as pessoas saem em busca de conhecer e pertencer, como nós cristãos dizemos, ao Deus que nos criou, nos sustenta e se revela com amor em Jesus Cristo. Deus é o maior interessado em revelar-se a nós, pois sabe que necessitamos dele de forma existencial e visceral. Ele é a nossa vida e a razão da nossa coexistência comunitária.

Há sinais do interesse de Deus em se dar a conhecer e em dar às pessoas a oportunidade de descobrir que aquilo que anelavam e buscavam está no conhecimento e na relação de amor com ele mesmo.

No último domingo que Silêda e eu passamos na Albânia, fomos a uma igreja no sul do país, acompanhados por duas funcionárias da Visão Mundial. Erisa era uma delas -- uma jovem bonita e inteligente. Quando perguntei a ela como havia chegado à fé cristã, ela me disse com naturalidade: “Eu tive um sonho!”. Claro que a minha racionalidade e a bem alimentada suspeita estranhou: “O quê?”. “Eu tive um sonho”, ela repetiu. E nos contou a história.

Nascida numa família nominalmente muçulmana, praticante de um islamismo típico do país, ela sofria com pesadelos noturnos. Um dia alguém que visitava sua casa lhe sussurrou ao ouvido, para que seu pai não ouvisse, que ela invocasse o sangue de Jesus ao ter pesadelos. Erisa começou a fazer isso e certa noite sonhou que alguém, cujo rosto ela não via, lhe estendia as mãos e dizia que a amava. Quando acordou, na manhã seguinte, ela saiu correndo pela casa, dizendo a todo mundo que era cristã. Ela tinha 8 anos e por um bom tempo continuou a afirmar sua identidade cristã, apesar dos protestos e da suspeita dos pais. Foi só aos 14 anos que, escondida, ela começou a frequentar uma igreja. E só mais tarde, já universitária, começou a aproximar-se da Bíblia de forma mais inteira e compreensiva.

De queixo caído e com o coração palpitando de alegria, eu disse: “Você é uma menina bem-aventurada!”. Estava impactado pela forma como Deus se revela e como ele faz isso com graça, amor e convicção. Eu tinha ouvido falar de revelações de Deus em sonho, mas nunca havia encontrado alguém com tal experiência. Agora, porém, diante do testemunho de Erisa, eu só queria e podia ficar encantado com o próprio Deus.

Claro que nem sempre é assim. Aliás, isso é raro. Normalmente, Deus usa gente como você e eu para dar-se a conhecer e o faz pelo encontro com o evangelho de Jesus Cristo, intermediado pelo Espírito Santo. Porém, é muito bom saber que ele não depende de nós para se revelar onde e como quiser.

Há algum tempo venho escrevendo sobre o chamado de Jesus para sermos testemunhas dele. Durante a viagem à Albânia, vi um pouco mais de como Deus é o maior interessado em se dar a conhecer a todos nós e como ele faz isso de formas ricas e diversas. Graças a Deus, ele dá testemunho de si mesmo e o faz com muita beleza, intensidade e clareza.

Maridos evangélicos que batem em suas esposas



Por Renato Vargens

A Violência doméstica é um grave problema em nossa sociedade, e infelizmente nossas igrejas estão repletas de mulheres que apanham de seus maridos. Não são poucas aquelas que vivem uma vida de horrores, sofrendo as agruras de uma relação despótica, ditatorial e abrutalhada.
Lamentavelmente mesmo em um ambiente no qual a verdade é cultivada como valor fundamental, como é o caso da igreja Evangélica no Brasil, mulheres tem sido violentadas fisicamente por seus maridos. Em uma reportagem extremamente esclarecedora realizada pelo Jornal da Tarde, de São Paulo, chegamos a conclusão que muitas de nossas irmãs em Cristo comem o pão que o diabo amassou nas mãos de seus esposos.
A matéria revelou um número impressionante de mulheres evangélicas na capital paulista que freqüentemente são espancadas pelos maridos (Também evangélicos), uma realidade que passava escondida da maioria dos membros das igrejas, embora seja corriqueira de acordo com os dados colhidos pela Casa de Isabel – uma organização não-governamental (ONG) da zona leste paulistana, que em parceria com a prefeitura e o Estado, oferece assistência psicológica e jurídica a mulheres, crianças e adolescentes vitimas de violência.
Segundo Sônia Regina Maurelli, pesquisadora da área de violência e presidente da Casa de Isabel, a ONG atende a três mil mulheres por mês – dentre elas, a maioria é protestante.
 
“Posso afirmar que 90% das mulheres que nos procuram são freqüentadoras assíduas de igrejas evangélicas”, diz Maurelli, que também é crente. De acordo com Sônia, aquelas que procuram a ONG reclamam que os maridos não correspondem na verdade, ao que é ensinado na igreja. “É como se eles tivessem personalidade dupla: em casa são agressivos e brigões, mas na congregação são santos, alguns têm até cargo de liderança. Conheci um que mantinha um programa de rádio o qual abordava, pasmem, os valores da família, por mais incrível que isso possa parecer”, conta Sônia, a qual vem recebendo cartas e mensagens eletrônicas de pessoas de todo o Brasil que se identificam com o problema.” As maiores queixas são de mulheres que sofrem violência física, ou seja, são espancadas; violência psicológica (agressões verbais) e violência sexual (sexo forçado)”, explica a pesquisadora.
De acordo com Sônia Maurelli, há várias modalidades de violência contra mulher, mas no caso das evangélicas, essas agressões são motivadas muitas vezes pelo que os maridos consideram ser pecado.” Toda mulher tem lá sua vaidade: quer dormir de camisola, por exemplo, ou cortar o cabelo mais curto. Mas há crente, motivado muito pelo que ouve do seu pastor ou pelo que interpreta disso, que acredita que essas coisas são pecaminosas e acaba excedendo-se e punindo a companheira com surra quando ela manifesta seu desejo. Há mulher que apanha porque não está com vontade de fazer sexo com marido. E olha que isso não é raro. Eles justificam dizendo que a mulher tem que ser submissa ao homem segundo os preceitos bíblicos e que eles tem de corrigi-las. Mas isso é um excesso um crime”,adverte Maurelli.
A pesquisadora explica que a mulher agredida a qual procura socorro na ONG Casa de Isabel é encaminhada ao serviço social da instituição e, ali, passa por uma entrevista. Em um segundo momento, o esposo é chamado, mas, de acordo com Maurelli, a maioria não aparece.Dentro da ONG, elas receberam tratamento psicoterápico e tem acesso a um atendimento jurídico, um auxilio providencial para mulheres que apresentam características muito peculiares.”Elas não se querem separar, uma vez que valorizam o casamento e desejam ficar ao lado de seus maridos. A mulher evangélica é mais tolerante e dá mais chances para o conflito ser corrigido, ou seja, tem um ‘pavio menos curto’. Ela quer investir na relação familiar e tem mais fé que tudo seja resolvido e que haja um milagre. Algumas vezes, quando o esposo aceita discutir o problema e tratar-se durante alguns meses,o milagre acontece, e o casamento é restaurado.
Caro leitor, a violência doméstica afronta a santidade de Deus. Maridos que espancam suas esposas precisam ser denunciados e presos. E digo mais: pastores e líderes evangélicos que encobertam casos como estes, precisam também ser denunciados, levando sobre si as penas da lei.
A violência contra a mulher é uma agressão ao Criador e em hipótese alguma as mulheres devem se sujeitar a qualquer tipo de agressão, denunciando o agressor às autoridades competentes a fim de que o sofrimento imposto pela violência cesse definitivamente em sua casa. Além disso, deve levar suas queixas, lamúrias, angústias e sofrimentos ao justo JUIZ, que com certeza no tempo certo lhes fará justiça

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

A igreja deve celebrar o casamento de gays?


Por Mário Persona
Sua pergunta tem a ver com a celeuma causada por uma lei que, se aprovada, daria à união de duas pessoas do mesmo sexo o mesmo status do casamento de um homem com uma mulher. Primeiro é preciso definir o que é o matrimônio, e para isso precisamos recorrer à Bíblia.
Mat 19:4-6 "Ele, porém, respondendo, disse-lhes: Não tendes lido que aquele que os fez no princípio MACHO e FÊMEA os fez, E disse: Portanto, deixará o HOMEM pai e mãe, e se unirá a sua MULHER , e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que DEUS AJUNTOU não o separe o homem".

O ensino do Senhor Jesus é muito claro: no plano original de Deus ele fez MACHO e FÊMEA para se unirem formando uma só carne. Trata-se de duas pessoas de diferentes sexos unidas em algo que "Deus ajuntou". Aquilo que é chamado de "casamento gay" não tem nenhuma dessas características: não são pessoas de sexos diferentes e obviamente não é algo que Deus ajuntou, pois não faz parte de seu plano original.

Existe também o lado simbólico da união homem-mulher, e aprendemos que quando Deus une um homem e uma mulher ele tem em vista algo muito mais elevado: o matrimônio é uma figura ou símbolo da união entre Cristo e sua noiva, a Igreja.

Efs 5:25-32 "Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela... Por isso deixará o HOMEM seu pai e sua mãe, e se unirá a sua MULHER; e serão dois numa carne. Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de CRISTO e da IGREJA". (Igreja é o conjunto de TODOS os salvos por Cristo).

Não é preciso ser muito inteligente para perceber que o matrimônio do qual Deus fala em sua Palavra nada tem a ver com a união entre pessoas do mesmo sexo que querem chamar de "matrimônio". Podem chamar do mesmo nome, mas nunca será o que Deus instituiu como tal.

Mas sua dúvida vai mais longe e você pergunta se o Estado poderá obrigar as "igrejas" a celebrarem casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Bem, César pode fazer o que bem entender com as coisas que são suas. Se César quiser criar leis que garantam igualdade de direitos a pessoas do mesmo sexo que vivem juntas, isso é com ele.

Mas o que diz a Palavra de Deus a respeito de sua pergunta, isto é, se igrejas poderão ser obrigadas a celebrar essas uniões? Bem, o fato é que em nenhum lugar da Palavra de Deus você encontra alguma igreja celebrando um casamento. Deus nunca deu a homem alguma a autoridade de unir um casal em nome de Deus. Isso foi inventado pelos homens, portanto se existem hoje organizações cristãs chamadas "igrejas" fazendo isso, estão cometendo um erro, pois não há fundamento bíblico para o que se costuma chamar de "casamento religioso".

A função do juiz de paz é outra história. No Brasil ele tem autoridade para declarar duas pessoas marido e mulher, porque lhe foi delegada tal autoridade e deve ser respeitada. Por isso todo casal cristão que se sujeita à Palavra de Deus e pretende ser unido por Deus em matrimônio deve procurar "casar-se no civil" para estar em conformidade com a lei.

Vamos voltar no tempo e visitar uma assembleia de irmãos reunidos ao nome do Senhor Jesus no primeiro século. Eles não tinham denominações, não tinham templos de pedras e não tinham um clero, mas cada um era um sacerdote, era uma pedra viva, e era conhecido apenas pelo nome de Jesus ou "cristão". Digamos que a autoridade da época criasse uma lei que obrigasse as igrejas a celebrarem casamentos entre pessoas do mesmo sexo. O que esses cristãos responderiam?

- "Desculpe-nos, dona Autoridade, mas nós não celebramos casamentos nem de pessoas de diferentes sexos, por que teríamos de celebrar casamentos de pessoas do mesmo sexo?!".

Isso não mudou. Hoje Deus continua unindo homens e mulheres em todo o mundo, independente do que algumas organizações chamadas "igrejas" ou governos pensem do assunto. Nos países como o Brasil existe o casamento civil ao qual os cristãos devem se submeter. Em alguns países africanos existem matrimônios polígamos, os quais os cristãos obviamente não irão imitar. Ainda que você encontre a poligamia na Bíblia, isso foi invenção de Lameque, sexta geração dos descendentes de Caim. TODOS os polígamos da Bíblia (Davi, Salomão etc.) estavam desobedecendo a Deus e tiveram problemas resultantes de sua poligamia.

Agora falando especificamente de todo o alarde que está sendo criado em torno da tal lei, que supostamente obrigaria as "igrejas" a celebrarem casamentos de pessoas do mesmo sexo, essa lei teria um efeito nulo sobre os cristãos se essas "igrejas" simplesmente percebessem que não devem celebrar casamento de espécie alguma. É Deus quem une. "O que Deus ajuntou..."

Quanto ao casamento civil, no qual o Juiz de Paz faz a união, que deixem isso para o Juiz de Paz resolver. Afinal, o cristão não deve se intrometer naquilo que é de César, mas apenas dar a César o que lhe for devido, ou seja, respeito e impostos. Nos países em que a lei inclui a poligamia, que inclua. Os cristãos nesses países não terão mais de um cônjuge. Nos países onde a lei aceita o casamento entre pessoas do mesmo sexo, seus dirigentes que respondam diante de Deus por essa prática contrária à natureza (Romanos 1:26, 27). Aos cristãos desses países cabe tão somente evitarem tal prática contrária à Palavra de Deus, como os cristãos nos países polígamos devem evitar a poligamia para si mesmos.

Eu aprendi que, quando o mágico faz seu número de mágica, não devemos ficar olhando para a mão que ele insiste em mostrar. É na outra que o truque está sendo realizado. No caso dessa gritaria geral de evangélicos e católicos a respeito da legalização ou não do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o truque está na outra mão.

Que truque é esse? Satanás está habilmente conseguindo unir cristãos genuínos com alguns que se dizem cristãos, porém são idólatras, hereges, avarentos etc. Deus é contra a o homossexualismo ou qualquer tipo de imoralidade contrária aos padrões que ele estabeleceu para o homem e a mulher, mas pode ter certeza de que na lista das prioridades de Deus a idolatria vem antes da imoralidade.

Êxo 20:3-5 "Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam".

A situação toda dessa comoção geral de católicos e evangélicos contra a tal lei, que poderia legalizar a união entre pessoas do mesmo sexo, me faz lembrar o livro "The Screwtape Letters" de C. S. Lewis (publicado em português como "Cartas de um diabo a seu aprendiz"). O livro é uma ficção que descreve como seria a correspondência entre um "diabo maior" com um "diabo aprendiz" sobre o que fazer para enganar os homens. Vou plagiar o livro e criar aqui uma carta extra:
Diabo-mor: Meu querido aprendiz, inventei um truque eficaz para os cristãos desonrarem seu Deus. Vamos criar uma lei que gere uma celeuma em torno do que vamos chamar de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os cristãos não vão perceber que não existe na Bíblia uma união matrimonial além daquela na qual Deus une um homem e uma mulher. Como os próprios cristãos inventaram "casamentos religiosos" feitos por igrejas, pastores, sacerdotes etc. vão achar que estamos falando desse tipo de coisa. Se na Palavra de Deus diz que Deus só une um homem com uma mulher, então Deus não vai unir algo que não cumpra tais requisitos, não é mesmo?
 
Diabo-aprendiz: Realmente, mestre, mas ainda não entendi o que pretende fazer.

Diabo-mor: Os cristãos ficarão tão cegos e ocupados com essa tal lei que permite aquilo que não é o matrimônio que Deus criou, que começarão a tentar interferir nas coisas de César como se eles próprios fossem do mundo. Vão se esquecer do que Jesus disse, "não sois do mundo" (Jo 15:19), e de que o próprio Jesus jamais interferiu nas questões de César e de sua política, nem mesmo para salvar a própria vida! Eles perderão de vista qual é a verdadeira cidadania deles, que o apóstolo Paulo mencionou com estas palavras:
"A nossa cidadania, porém, está nos céus, de onde esperamos ansiosamente um Salvador, o Senhor Jesus Cristo" (Fp 3:20 - NVI).

Diabo-aprendiz: Brilhante, mestre! E depois?

Diabo-mor: Depois eles vão perceber que uma andorinha sozinha não faz verão, e precisarão se unir, fechando os olhos para suas diferenças, algumas banais, mas outras muito sérias. Sabe aquele ecumenismo que eu tenho tentado fazer para criar uma grande colcha de retalhos? Pois é, eles nunca perceberam que Deus não quer unir os cristãos divididos, mas quer apenas que abandonem suas divisões e voltem ao que era no princípio. Como não veem isso, cristãos das mais diferentes confissões se unirão, fechando os olhos para o fato de alguns não crerem na divindade de Jesus, outros adorarem ídolos, e mais outros usarem o nome de Deus só para arrancar dinheiro do povo. Tudo isso que Deus odeia - heresias, idolatrias e avareza - deixará de ser importante para eles, pois só pensarão no tal casamento que nem mesmo é casamento na Bíblia, porque não foi previsto no plano original de Deus. E o que Deus não une, não está unido para Deus. Simples assim.

Diabo-aprendiz: Mestre, excelente ideia! Eles vão ficar olhando para o lado errado e nem perceberão que Deus abomina todos esses idólatras, hereges e mercadores da fé, que marcharão lado a lado com cristãos genuínos!

Diabo-mor: Você se lembra do que nós tentamos fazer quando os judeus voltaram do exílio para reconstruir os muros de Jerusalém e seu templo? Quero dizer, já tentamos unir os verdadeiros com os falsos?

Diabo-aprendiz: Xi, mestre, minha memória está ruim. O que foi mesmo?

Diabo-mor: Vou refrescar sua memória lendo do próprio livro que os cristãos usam, a Bíblia. Pelo jeito nem você e nem eles têm o costume de ler este livro... Deixe-me ver... Aqui está:

Ed 4:1-3 "Ouvindo, pois, OS ADVERSÁRIOS de Judá e Benjamim que os que voltaram do cativeiro edificavam o templo ao Senhor Deus de Israel, chegaram-se a Zorobabel e aos chefes dos pais, e disseram-lhes: Deixai-nos edificar CONVOSCO, porque, como vós, buscaremos a vosso Deus; como também já lhe sacrificamos desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria, que nos fez subir aqui. Porém Zorobabel, e Jesuá, e os outros chefes dos pais de Israel lhes disseram: Não convém que NÓS E VÓS edifiquemos casa a nosso Deus; mas NÓS SOZINHOS a edificaremos ao SENHOR Deus de Israel, como nos ordenou o rei Ciro, rei da Pérsia".

Diabo-aprendiz: É mesmo, mestre, os inimigos se ofereceram para ajudar, porque assim poderiam desviá-los da verdade e fazê-los cair em idolatria, mas eles não aceitaram a ajuda deles. Era mais importante permanecerem fiéis ao seu Deus do que se colocarem em jugo desigual com idólatras. Eu odiei essa atitude deles! Agora estou adorando esse seu plano para os cristãos! Eles vão cair que nem patinhos.

Diabo-mor: Depois que o muro estava pronto, eu ainda tentei outra vez acabar com eles. Como não dava para entrar na cidade, convidei os judeus para saírem para conversarem com meus emissários em campo aberto, no meu território. Veja aqui o que aconteceu:

Ne 6:1-4 "Sucedeu que, ouvindo Sambalate, Tobias, Gesem, o árabe, e o resto dos nossos inimigos, que eu tinha edificado o muro, e que nele já não havia brecha alguma, ainda que até este tempo não tinha posto as portas nos portais, Sambalate e Gesem mandaram dizer-me: Vem, e CONGREGUEMO-NOS JUNTAMENTE nas aldeias, no vale de Ono. Porém intentavam fazer-me mal. E enviei-lhes mensageiros a dizer: Faço uma grande obra, de modo que NÃO PODEREI DESCER; por que cessaria esta obra, enquanto eu a deixasse, e fosse ter convosco? E do mesmo modo enviaram a mim quatro vezes; e da mesma forma lhes respondi".

Diabo-aprendiz: É, aquela também não pegou, né mestre?

Diabo-mor: Minha última tentativa foi usar mulheres de outros povos para seduzirem os judeus e alguns acabaram se casando com elas e com isso eu quase consegui destruí-los, mas Neemias descobriu meu plano no último capítulo do livro que ele escreveu e eu fiquei no prejuízo.

Diabo-aprendiz: Mas agora já vi que vamos ter sucesso, não acha mestre?

Diabo-mor: Tenho certeza disso. Deus será extremamente desonrado com essas associações que os cristãos estão fazendo, reunindo o que existe de pior em termos de idolatria, heresias e avareza para lutarem em prol de uma causa comum. Vamos continuar dando corda que isso vai abrir caminho para abandonarem de vez a verdade. Sempre que pessoas de diferentes crenças se unem elas precisam passar a régua pelo menor denominador comum. Aí a apostasia vai correr solta, quando estiverem dando menor valor e importância às coisas que Deus considera as mais importantes.