sábado, 21 de setembro de 2013

A Soberania Absoluta de Deus



Nos céus, estabeleceu o SENHOR o Seu trono, e o Seu reino domina sobre tudo. - Salmos 103:19

Por Jason A. Van Bemmel

Você se lembra de quando descobriu que seu pai não era todo-poderoso? Quando era menino, eu realmente achava que meu pai podia fazer qualquer coisa. Meu pai é bastante habilidoso e grande (mais de 1,98 m), e para um garoto de 6 anos, ele se parecia com o Super Homem. No entanto, como todos vocês, eu tive que enfrentar a dura e lenta constatação de que meu pai não era, de fato, onipotente, até que, quando adolescente, passei a imaginar se o meu pai podia realmente fazer alguma coisa certa.

Algumas pessoas (mesmo aquelas que se intitulam "cristãs") acham que as nossas típicas experiências da infância com nossos pais terrenos é um modelo para aquilo que deve acontecer em relação a nossa visão de Deus ao longo do tempo, à medida que amadurecemos em nossa fé. As crises e os conflitos vêm, razão pela qual devemos ver que um mundo cheio de maldade é incompatível com um Deus todo-poderoso e completamente bom. Uma vez que todos nós acreditamos que Deus é bom, devemos então abandonar a idéia de que Deus é todo-poderoso em favor de um Deus que se parece muito mais como nossos pais limitados e falíveis.


A Bíblia não nos dá qualquer espaço para uma visão tão pálida de Deus. EmEscritura após Escritura, Deus brilha com esplendor como o grande e glorioso Rei do Universo. "Porque para Deus não haverá impossíveis", a Bíblia proclama corajosamente e repetidas vezes (ver Lucas 1:37 e Marcos 10:27). "Eis que a mão do SENHOR não está encolhida, para que não possa salvar”, Deus relembra o seu povo duvidoso em Isaías 59. "Ninguém há como o SENHOR, nosso Deus”, nos é dito repetidas vezes e nos é dito exatamente o que isso significa: Ninguém é como Deus em majestade, em santidade, na soberania e na fidelidade dos pactos (mantendo suas promessas absolutamente).


Dois encontros com Soberania

Uma forma de analisar a soberania absoluta de Deus é através dos olhos de duas pessoas que estiveram cara a cara com Ele de maneiras diferentes: Jó e Nabucodonosor. Jó era um homem de Deus justo, que viu a soberania de Deus em ação nos seus momentos de provações. Nabucodonosor foi um imperador orgulhoso que aprendeu a lição da soberania de Deus da maneira mais difícil, por ser destituído de seu poder e de sua sanidade por Deus.

Imagine ser tão fiel a Deus a ponto de Deus perceber e começar a se gabar de você. Deus estava tão orgulhoso da justiça de Jó que Ele se gabou de Jó com Satanás. Em resposta à aprovação de Deus sobre Jó, Satanás fez um trato com Deus e conseguiu permissão para testá-lo severamente. Contudo, não perca o ponto aqui: Satanás teve que obter autorização de Deus antes que pudesse tocar em Jó. Deus está no controle, inclusive das atividades de Satanás contra o Seu povo.

No ponto mais profundo de seu desespero, Jó desejou nunca ter nascido e questionou as razões de Deus por enviar tais provações à sua vida. Embora Jó nunca tenha pecado contra Deus em acusá-Lo de injustiça, ele quis saber dos motivos que Deus teria para prová-lo de forma tão severa (de uma forma que pareceu a Jó como uma severa punição). Jó não entendia porque seus filhos morreram, porque perdeu toda a sua riqueza ou porque seu corpo estava coberto de chagas. Ele não tinha respostas, e seus amigos foram de pouca ajuda, mas ele sabia que a mão de Deus devia estar por trás daquelas suas horas escuras. E ele estava certo.

Sobre as perguntas de Jó, Deus proferiu suas próprias perguntas. Em uma furiosa tempestade, a voz de Deus surge para desafiar Jó e para relembrá-lo de quem é quem no universo. “Onde estavas tu", Deus começou, "quando eu lançava os fundamentos da terra?" Em outras palavras: "Quem exatamente você pensa que é para questionar Deus?”.

No final das contas, a resposta de Jó a Deus foi simples, profunda e a única verdade que todos nós precisamos saber, em última análise: "Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. Eu te conhecia só de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza.” (Jó 42: 2, 5-6). Jó tinha aprendido que Deus era Deus, e isso foi o bastante para ele.

Ao contrário de Jó, Nabucodonosor não era um servo de Deus, justo e humilde. Na verdade, ele era um governante arrogante que construiu um ídolo de 27 metros para si mesmo e ordenou que todos se curvassem e o adorassem. No entanto, este pecador perverso precisava, tanto quanto o justo servo de Deus, saber a verdade sobre quem realmente estava no trono e era digno de adoração. Então Deus deu ao Rei Nebby (Nabucodonosor) um sonho.

No sonho, tal como interpretado por Daniel, Nabucodonosor soube que ele estaria, em breve, despojado de toda a sua dignidade e sanidade, e iria viver como um animal selvagem no deserto. Por quê? Nabucodonosor, havia se tornado orgulhoso e achava que sozinho era responsável pelo grande reino que havia construído. Ao olhar para fora sobre a gloriosa Babilônia, ele proclamou: "Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para a glória da minha majestade? (Dn 4:30).

Depois que Deus humilhou Nabucodonosor, seu coração foi mudado e ele reconheceu que somente Deus é soberano sobre as questões das nações. Nabucodonosor proclamou:

“Pois seu domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” - Daniel 4:34-35


Através da vida e exemplo de Jó, aprendemos que Deus é soberano sobre o nosso sofrimento. Todo sofrimento vem da mão de Deus e serve aos seus propósitos últimos, embora o sofrimento possa vir através de uma variedade de causas secundárias (doença, desastres naturais, opressão demoníaca, pecado, etc.). Através da vida e exemplo de Nabucodonosor, aprendemos que Deus também é soberano sobre as nações e os governantes do mundo. Ele levanta reis e presidentes e os usa para a Sua vontade, muitas vezes para abençoar uma nação e, muitas vezes para trazer juízo e destruição. Mais uma vez Deus usa as causas secundárias (eleições, revoluções, etc.), mas a mão por trás de tudo isso é a Sua, e a Sua somente.


Heresias em nome do amor



Por Mauricio Zagari
Deus é amor. Isso é um fato básico e inquestionável da fé cristã. Não é preciso ser um grande teólogo para apreender essa verdade; de fato, nem mesmo é preciso ser cristão para ter conhecimento disso. Mas existe algo sobre essa afirmação que merece uma reflexão: o que isso significa? Quais as implicações do fato de Deus ser amor? De que modo isso afeta a teologia em que acreditamos – e, por conseguinte, nossa vida prática? Pode parecer algo tão óbvio que nem mereça discussão, mas fato é que a má interpretação do conceito da essência amorosa de Deus é justamente a gênese de muitos e grandes problemas e até de heresias que têm surgido no seio da Igreja nesse início de século XXI.
Vamos pensar um pouco sobre isso então. A essência de Deus é o amor. Agora: nós, humanos, só conseguiremos compreender plenamente o que isso significa se formos capazes de encaixar esse conceito divino essencial no que cada um de nós percebe como sendo amor. Uma analogia, para ficar mais claro: imagine que numa ilha distante só existam pássaros brancos. Automaticamente, todos seus habitantes associam o conceito de “pássaro” à cor branca. Um dia você atraca nessa ilha, encontra um nativo e tenta explicar para ele o que é, digamos, um urubu. Se disser a ele apenas que “o urubu é um pássaro”, automaticamente ele vai visualizar o urubu como uma ave branca. Afinal, é o único conceito de “pássaro” que ele conhece. Do mesmo modo, se na concepção de uma pessoa o conceito de “amor” é X, se você lhe disser que “Deus é amor”, automaticamente esse indivíduo compreende como “Deus é X”. Mesmo que a essência de Deus seja, por exemplo, Y. É uma mera questão de formar um signo por significados e significantes adequados e compreendidos por todos.
Diante disso, a pergunta que devemos nos fazer é: o que a civilização brasileira do século XXI entende como sendo “amor”? Pois é ao detectarmos qual é o sentido que esse conceito tem no inconsciente coletivo do brasileiro de nossos dias que conseguiremos visualizar como essa mesma civilização compreende o fato de Deus ser amor. E é exatamente aqui que começa o problema, uma vez que o conceito primário de “amor” para você e para mim é totalmente alheio à Bíblia. Trata-se do amor dos contos de fadas.
Geração após geração, século após século, década após década, nós ensinamos para nossas crianças que “amor” é aquilo que ocorre entre um príncipe e uma princesa nas fábulas e histórias de ninar. Ou seja, um grande e utópico sentimento destituído de implicações práticas, exigências ou contrapartidas. As inocentes histórias que crescemos ouvindo de nossos pais, professores, desenhos animados e outras fontes de formação de conceitos condicionam pavlovianamente gerações inteiras a abraçar uma ideia de amor que, antes de qualquer coisa, é um sentimento meloso, paternalista e ultraprotetor.
Repare: a princesa vê o príncipe e, apenas por olhar para aquela figura divina passa a amá-lo eternamente (e vice-versa). Não o conhece. Mal ou nunca conversou com ele. Às vezes a donzela está até mesmo dormindo e só toma conhecimento do “amado” após o beijo que arranca suspiros de todos. Isso na vida real seria tão esdrúxulo que se a sua filha decidisse se casar com um homem que mal conhecesse, no mínimo você teria uma séria conversa com ela. Mas nos contos de fadas… ah, o amor é lindo! E toda um geração cresce acreditando que amor é aquilo. Assim, somos condicionados desde os primeiros anos de nossas vidas a associar amor a uma sensação da qual nasce um relacionamento que não exige nada, que não tem contrapartidas – pois, afinal, o príncipe ama a princesa in-con-di-cio-nal-men-te, sem precisar renunciar a nada, sem uma gota se sacrifício. E mais: é o amor do príncipe que faz com que ele pegue a princesa nos braços e a carregue sem permitir que ela sue ou se canse. Que põe a capa sobre a poça de lama para que ela não suje o sapatinho de cristal. Que faz de tudo para que ela não tenha um incômodo sequer. É um amor de gente bastante mimada, convenhamos.
E, claro, esse amor dos contos da carochinha é complacente. A princesa nunca exige nada do príncipe. O príncipe não fica chateado com nada que a princesa faça. Eles apenas cantam e dançam, cavalgando sorridentes corcéis de crinas bem escovadas por prados verdejantes, cercados de cervos saltitantes e meigos coelhinhos de olhos grandes. É um amor de pura doação, poético, que não senta para cobrar atitudes. Que não demanda nenhuma renúncia. Basta entrar no castelo e a única exigência que se faz é que se seja feliz para sempre.
Esse conceito de amor de contos de fadas está tão introjetado no inconsciente coletivo que basta examinar as comédias românticas de Hollywood ou os grandes romances do cinema (que não passam de contos de fadas para crianças crescidas) e ver que o conceito se repete. Mais ainda: o modelo de sucesso das telenovelas da Globo justamente faz tanto sucesso porque segue a ideia introjetada no mais profundo de nossa mente desde nossa infância do amor-sentimento-nada-exigente: desde que haja aquele “sentir” arrebatador vale trocar o marido pelo amante, transar antes do casamento ou o que for e todos aplaudem. Sem exigir nada em troca, sem renunciar, sem se sacrificar pelo outro: basta suspirar, dar um grande beijo na boca e… ai ai…
Dor torna-se, então, por essa perspectiva, um conceito alienígena ao amor dos contos de fadas. Sofrimento quem impõe é a bruxa má, o príncipe jamais permitiria que sua princesa furasse um dedinho numa agulha de roca. Tristeza? INCONCEBÍVEL! Repare: o amor do conto de fadas é aquele em que (e isto é um ponto fundamental!) o ser amado vive feliz para sempre.
Pois é esse conceito de “amor” que ensinam a todos nós desde a nossa primeira infância, pela leitura de continhos de fadas, depois pelos desenhos animados, por fim pelos filminhos sentimentaloides. Somos condicionados, adestrados, ensinados, acostumados a que isso sim é amor.
O amor de contos de fadas aplicado a Deus
E de que modo esse conceito de amor de contos de fadas se aplica a Deus? Simples: quando então falamos que “Deus é amor”, automaticamente associamos o amor divino a esse tipo de amor fictício. Logo, enxergamos o amor de Deus como algo sentimental. Meloso. Poético. Que jamais poderia exigir do ser amado renúncias. Que torna inconcebível a ideia de sacrifício. Que exclui veementemente o amador permitir o sofrimento do amado. O Deus que é amor se torna, assim, um ser que não pode de jeito nenhum exigir algo de quem Ele ama, porque, na nossa cabeça, isso o tornaria alguém destituído de amor. Na nossa concepção de amor, formatada por anos de condicionamento à base de contos de fadas, telenovelas e filminhos água com açúcar, um Deus de amor jamais poderia exigir contrapartidas, jamais poderia estabelecer bases, sua aliança com o ser amado seria complacente, de autoanulação, uma eterna devoção dEle a nós. Uma eterna lua-de-mel.
E mais: por essa perspectiva, o amor de Deus tornaria inconcebível que o ser amado por Ele sofresse, sentisse dor, passasse maus bocados. O ser amado por Deus, na nossa mente pré-programada por contos de fadas, tem obrigatoriamente que fazer com que sejamos…felizes para sempre. O príncipe celestial jamais permitiria que a sua princesa-noiva-do-Cordeiro sofresse, pois senão ele não seria o príncipe, seria a bruxa. Então, a ideia de alguém que ama e permite o sofrimento do amado é um contrassenso, não conseguimos admitir, não aceitamos. E começamos a encaixar a nossa revolta em conceitos bíblicos: um Deus que ama mas permite o sofrimento não tem… graça.
É aí que começam a surgir os problemas – um nome elegante para heresias. Para o indivíduo condicionado ao conceito do amor de conto de fadas, um Deus que ama não permitiria que milhares morressem num tsunami, pois aí ele não seria o príncipe, seria a bruxa. Um Deus que ama não permitiria que centenas morressem num deslizamento de terra na região serrana do Rio, pois aí ele não seria o príncipe, seria a bruxa. Um Deus que ama não permitiria que milhões fossem para o inferno, pois aí ele não seria o príncipe, seria a bruxa. Um Deus que ama não imporia um código de ética, pois aí ele não seria o príncipe, seria a bruxa – e uma bruxa legalista. Um Deus que ama não exigiria o cumprimento aos seus mandamentos dolorosos, pois aí ele não seria o príncipe da graça, seria a bruxa do legalismo. Um Deus que ama não teria verdades absolutas, pois aí ele não seria o príncipe, seria uma bruxa que transforma conceitos como “dogma” e “doutrina” em palavrões abomináveis. E esse conceito humano, infantil e fictício de amor começa a tomar ares de teologias.
E nós adoramos isso! Adoramos que Deus não mande muitos para o inferno, senão o amor não venceria no final e não viveríamos felizes para sempre. Adoramos que Deus não esteja no controle das tragédias, senão o amor não venceria no final e não viveríamos felizes para sempre. Adoramos que Deus não exija de nós que nos sacrifiquemos para cumprir seus mandamentos, senão o amor não venceria no final e não viveríamos felizes para sempre. Adoramos que Deus nos proponha uma graça frouxa e destituída de renúncias daquilo que nos é conveniente e agradável por obediência e submissão a Ele, senão o amor não venceria no final e não viveríamos felizes para sempre. Confeccionamos teologias que fazem do Deus da Bíblia um deus de contos de fadas. Ou seja: um Deus que viva o amor como Cinderela, Branca de Neve ou Rapunzel viveram. Mas não é isso que a Bíblia diz.
O conceito bíblico do amor
A Bíblia Sagrada nos revela muitos aspectos da pessoa de Deus que os contos de fadas jamais associam aos seus personagens apaixonados. O mesmo Jesus que é a suprema prova do amor dvino (Jo 3.16; Fp 2.7-9) é o Deus encarnado que afirma: “Mas eu lhes digo que qualquer que se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento. Também, qualquer que disser a seu irmão: ‘Racá’ será levado ao tribunal. E qualquer que disser: ‘Louco!’, corre o risco de ir para o fogo do inferno” (Mt 5.22). Ou ainda, que devemos ter medo “daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno” (Mt 10.28), ou seja, Deus. Não dá para imaginar isso sendo falado sobre o príncipe da Branca de Neve, não é? Logo, por associação, na cabeça da civilização adestrada pela ficção pueril não dá para imaginar isso sendo falado sobre o Deus da Bíblia.
Assim, as pessoas, confusas com esse suposto paradoxo, começam a buscar explicações. De repente, o Deus que permitiu que Jó passasse por mais de 40 capítulos de sofrimento, dor, decepção, lágrimas e angústia é apenas fruto de uma fábula. Jó agora deixou de existir. virou uma metáfora. Aquele fato nunca aconteceu. Pois o Deus que ama como nos contos de fadas jamais deixaria que seu querido passasse por aquele sofrimento. Agora o Deus da Bíblia não controla mais forças da natureza e outras calamidades, pois um Deus que ama como nos contos de fadas e nos filmes de Julia Roberts e Sandra Bullock jamais estaria de acordo com genocídios, tsunamis, terremotos, Hitlers, Pol Pots e similares. Não, isso não condiz com o caráter de um Deus que quer que sejamos felizes para sempre.
Então, dizemos que o Deus que controla as forças da natureza é uma referência às deidades greco-romanas-pagãs que as controlavam. Esquecemos que Jesus acalmou o vento e a fúria dos mares com uma ordem, esquecemos que o Senhor conteve as águas do Mar Vermelho e do rio Jordão, consideramos inconcebível que esse Deus tenha provocado o dilúvio de Noé, que dizimou milhares. Ah, claro – dizem os teólogos adeptos do deus de contos de fadas – essas histórias são metáforas, são fábulas. Embarcamos no liberalismo teológico, numa teologia de relacionamento ou de universalismo que põem para fora do ser de Deus a pontapés os seus propósitos insondáveis, os seus planos elevados, a sua realidade infinitamente superior. Forjamos um deus que não compactuaria com dores e sofrimentos, quando Isaías 53 nos afirma que Jesus foi “ferido”, “moído”, “oprimido” e “afligido” – e isso desde antes da fundação do mundo.
Dizem esses teólogos poéticos que Deus jamais determinará o sofrimento das pobres vítimas da tragédia no Japão. Mas a Bíblia diz sobre o próprio Filho Unigênito do Deus que é amor que “ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar” (Is 53.10). Sobra a leitura de 1 Coríntios 13 mas falta a leitura de Romanos 9, por exemplo, onde o Deus que é amor afirma: “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão” (Rm 9.15). E aos que não concebem um Deus que não aja segundo as vontades humanas ou a teologia dos contos da carochinha, o apóstolo Paulo dá o ultimato cinco versículos à frente: “Mas quem é você, ó homem, para questionar a Deus?” (Rm 9.20). E logo depois: “E se Deus, querendo mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder, suportou com grande paciência os vasos de sua ira, preparados para a destruição?”. Olha só: o Deus que é amor se ira! Uma ira, aliás, explicitada em numerosas passagens, como Nm 22.22; Dt 4.25; Dt 6.15; Dt 7.4; Jo 3.36; Rm 1.18; Rm 2.5; Rm 3.5; Rm 5.9; Rm 9.22; Ef 5.6; Cl 3.6; Hb 3.17; Hb 4.3; Ap 14.10; Ap 14.19; Ap 15.1; Ap 15.7, entre outras.
Sim, o amor de Deus convive com sua ira. E o não-cumprimento de sua vontade exige o cumprimento da justiça divina. Pois a Bíblia escancara de Gênesis a Apocalipse o fato incontestável de que Deus tem um código de certo/errado. Ou seja: por definição, tem um padrão moral. Um padrão ético. E exige de nós que o cumpramos, mesmo que precisemos renunciar a nossas vontades, ao que nos é conveniente, ao que fazemos em nome de uma graça barata. “Quem tem os meus mandamentos e lhes obedece, esse é o que me ama”, diz Jesus em Jo 14.21. O mesmo Jesus de amor que em Jo 14.15 vaticina: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus mandamentos”. Sim, o amor de Deus está condicionado à obediência a seus mandamentos (ou: normas, dogmas, decretos ou o nome impopular que se queira dar a aquilo que o Senhor determina que façamos em cumprimento a Sua vontade). E como Jesus é o Deus da graça, fica claro que sua graça e seu amor trafegam em conjunto com a obediência a seus mandamentos. O que, na cabeça de muitos, faria dele um Deus legalista, veja você.
Sim, pois há aqueles que apostam na teologia do complacente Deus Papai Noel, um velhinho bonachão que nos vê desobedecer seus valores (explícitos nos mandamentos da graça) e passa a mão na nossa cabeça, quando o Deus da Bíblia, que é amor, afirma: “Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem acha a sua vida a perderá, e quem perde a sua vida por minha causa a encontrará” (Mt 10.38, 39). Ou seja, é um Deus que exige renúncia por amor a Ele. Renúncia de nós, de nossos desejos, de nossas vontades, de nossos prazeres, daquilo que nos é mais conveniente, daquilo que exige esforço de nós. Mas graça não é sinônimo de moleza. “O Reino dos céus é tomado à força” (Mt 11.12). Quer desfrutar do amor e da graça de Deus? Então ouça o que a encarnação do amor diz: “”Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8.34).
Conclusão
Vivemos dias em que um conceito equivocado sobre o que significa “amor” está fazendo muitos cristãos acreditarem que o Deus que é amor não é mais soberano sobre tudo o que acontece, ou não condena mais os filhos da perdição ao fogo eterno, ou não exige obediência à custa de renúncia pessoal. Pintamos um Deus que, em nome de um amor que não é o amor bíblico, nos isenta de sofrimentos ou nos dispensa do cumprimento de seus mandamentos.
O Amor bíblico está longe de ser o amor dos contos de fadas. O Amor bíblico permite que José passe décadas sofrendo como escravo e presidiário por um bem maior. O Amor bíblico permite que o príncipe do Egito passe 40 anos no deserto de Midiã e depois mais 40 no deserto do Sinai para cumprir seus planos soberanos. O Amor bíblico entrega Seu Filho unigênito para sofrer injustamente por multidões que não mereciam. Isso é o Amor bíblico: um Amor que custa caro. Que é dado pela graça, mas que custa no mínimo o preço da obediência e do respeito à vontade soberana de Criador dos Céus e da Terra. É um Amor que não isenta aqueles que são mais amados de serem “torturados (…) enfrentaram zombaria e açoites; outros ainda foram acorrentados e colocados na prisão, apedrejados, serrados ao meio, postos à prova mortos ao fio da espada. Andaram errantes, vestidos de pele de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos e maltratados” (Hb 11.35-37).
O Amor bíblico é sacrificial. É um Amor que permite catástrofes e sofrimentos porque a mente de Deus é muito mais elevada que a nossa e chega a ser arrogante tentar compreender o porquê de o Senhor optar por permitir tragédias que, dentro do grande esquema das coisas, poderão cumprir um propósito maior que não entendemos (afinal “agora, pois, vemos apenas um reflexo obscuro, como em espelho; mas, então, veremos face a face. Agora conheço em parte; então, conhecerei plenamente, da mesma forma como sou plenamente conhecido”). O Amor bíblico cumpre a Justiça divina e condena muitos sim à perdição eterna, pois é a profundidade do vale que determina a altura da montanha da eternidade ao lado de Cristo. O Amor bíblico exige do barro a coerência de obedecer de modo submisso ao oleiro, sem julgar que a renúncia de vantagens pessoais configure ausência de graça ou legalismo.
O Amor de Deus, o Amor bíblico, entrega Cristo para a cruz. Entrega o Cordeiro inocente para a humilhação, a tortura, a dor e a morte, pois sabe que a leve e momentânea tribulação redundará num eterno peso de glória. E não somos melhores que o Cordeiro. Não estamos isentos de humilhação, tortura, dor e morte. E, se nós, japoneses, moradores da região serrana ou qualquer outro passa por isso, temos a certeza de que Deus está no controle e que todas as coisas contribuem para o bem dos que o amam e andam segundo o seu propósito.
Afinal, reconhecer que Deus é amor quando tudo vai bem é fácil. Difícil é confessar esse amor no meio do sofrimento, da perda, da lástima, do apedrejamento, da perda de entes queridos, de um casamento dissolvido, do desemprego, da fome, da miséria. Bem-aventurados os que creram nesse amor sem ter visto sua expresão poetica. Bem-aventurados os que não se guiam por vista, mas por fé. E, afinal… não é isso que é fé? Crer com perseverança no amor de Deus quando tudo ao nosso redor tentar nos fazer acreditar que Deus não nos ama?

Nossa missão como soldados é destruir ideias falsas


Por John MacArthur

Esta não é, de modo algum, a primeira vez que a guerra pela verdade se introduziu na igreja. Isso tem acontecido em todas as principais épocas da história da igreja. Batalhas pela verdade têm rugido na comunidade cristã desde os tempos dos apóstolos, quando a igreja estava apenas começando. Na realidade, o relato das Escrituras indica que os falsos mestres na igreja logo se tornaram um problema significativo e amplamente difundido aonde quer que o evangelho chegasse. Quase todas as principais epístolas do Novo Testamento abordam esse problema, de uma maneira ou de outra. O apóstolo Paulo estava sempre envolvido numa batalha contra as mentiras dos "falsos apóstolos, obreiros fraudulentos", que se transformavam em apóstolos de Cristo (2 Coríntios 11.13). Paulo disse que isso era de se esperar. Afinal de contas, essa é uma das estratégias prediletas do Maligno: "E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. Não é muito, pois, que os seus próprios ministros se transformam em ministros de justiça" (w. 14-15).

Seria uma ingenuidade deliberada negar que isso pode acontecer em nossos tempos. De fato, isso está acontecendo em grande escala. O tempo presente não é favorável a que os cristãos flertem com o espírito da época. Não podemos ser apáticos quanto à verdade que Deus nos confiou. Nosso dever é guarda-la, proclamá-la e transmiti-la à geração seguinte (1 Timóteo 6.20-21). Nós, que amamos a Cristo e cremos na verdade incorporada nos ensinos dEle, precisamos ter plena consciência da re-alidade da batalha que ruge em nosso redor. Devemos cumprir nosso papel na guerra pela verdade, que já dura muitas eras. Temos a obrigação sagrada de participar da batalha e lutar pela fé.

Em sentido restrito, a ideia motriz por detrás do movimento da Igreja Emergente está correta: o clima atual do pós-modernismo representa realmente uma vitrine maravilhosa de oportunidades para a igreja de Jesus Cristo. A arrogância que dominava a era moderna está em suas agonias de morte. O mundo, na sua maior parte, foi apanhado em desilusão e confusão. As pessoas se sentem inseguras a respeito de quase tudo e não sabem que rumo tomar em busca da verdade.

Entretanto, a pior estratégia para ministrar o evangelho num clima assim é os cristãos imitarem a incerteza ou ecoarem o cinismo da perspectiva pós-moderna — e arrastarem a Bíblia e o evangelho para dentro dessa perspectiva. Em vez disso, precisamos afirmar, de modo contrário ao espírito desta época, que Deus falou com a maior clareza e autoridade, de modo definitivo, através de seu Filho (Hebreus 1.1-2). E temos, nas Escrituras, o registro infalível dessa mensagem (2 Pedro 1.19-21).

O pós-modernismo é simplesmente a expressão mais atual da incredulidade mundana. Seu valor essencial — uma ambivalência dúbia para com a verdade — não passa de ceticismo destilado em sua essência pura. No pós-modernismo, não existe nada virtuoso nem genuinamente humilde. Ele é uma rebelião arrogante contra a revelação divina.

De fato, a hesitação do pós-modernismo no tocante à verdade é a antítese exata da confiança ousada que, segundo as Escrituras, é o direito de família de todo crente (Efésios 3.12). Essa segurança é operada pelo próprio Espírito de Deus naqueles que crêem (1 Tes-salonicenses 1.5). Precisamos valorizar essa segurança e não temer confrontar o mundo com ela.

A mensagem do evangelho, em todos os fatos que a constituem, é uma proclamação clara, específica, confiante e autorizada de que Jesus é Senhor e de que Ele dá vida eterna e abundante a todos os que crêem. Nós, que conhecemos verdadeiramente a Cristo e recebemos aquela dádiva da vida eterna, também recebemos da parte dEle uma comissão clara e específica de transmitir com ousadia a mensagem do evangelho, como embaixadores dEle. Se não demonstrarmos igualmente clareza e nitidez em nossa proclamação da mensagem, não seremos bons embaixadores.

Mas não somos meros embaixadores. Somos, ao mesmo tempo, soldados comissionados a guerrear em favor da defesa e disseminação da verdade, face aos ataques constantes contra a verdade. Somos embaixadores com uma mensagem de boas-novas para as pessoas que andam em trevas e vivem na região da sombra da morte (Isaías 9.2). E somos soldados — com ordens para destruir fortalezas ideológicas e derrubar as mentiras e enganos engendrados pelas forças do mal (2 Coríntios 10.3-5; 2 Timóteo 2.2-4).

Observe atentamente: nossa tarefa como embaixadores é levar as boas-novas às pessoas. Nossa missão como soldados é destruir idéias falsas. Devemos manter esses objetivos no seu devido lugar; não temos o direito de declarar guerra contra as próprias pessoas, nem de entrar em relacionamentos diplomáticos com idéias anti-cristãs. Nossa guerra não é contra a carne e o sangue (Efésios 6.12); nosso dever como embaixadores não nos permite transigir com qualquer tipo de filosofia humana, engano religioso ou outro tipo de mentira nem a nos alinhar com alguma delas (Colossenses 2.8).

Se parece difícil manter essas duas tarefas em equilíbrio e na perspectiva adequada, isso acontece porque elas são realmente difíceis.

Judas certamente entendeu isso. O Espírito Santo o inspirou a escrever a sua breve epístola a pessoas que estavam lutando com essas mesmas questões. Contudo, ele as exortou a batalharem diligentemente pela fé, contra toda falsidade, ao mesmo tempo que faziam tudo que lhes era possível para livrarem almas da destruição: arrebatando-as "do fogo... detestando até a roupa contaminada pela carne" (Judas 23).

Somos, portanto, embaixadores e soldados; procuramos alcançar os pecadores com a verdade, ao mesmo tempo que envidamos todos os esforços para destruir as mentiras e outras formas de mal que os mantêm na escravidão mortífera. Esse é um resumo perfeito do dever de todo cristão na guerra pela verdade.

Martinho Lutero, aquele nobre soldado do evangelho, lançou este desafio diante dos cristãos de todas as gerações que o sucederam, ao dizer:

Se, com a voz mais elevada e a exposição mais nítida, eu professar toda porção da verdade de Deus, mas não confessar exatamente o pormenor que o mundo e o Diabo estão atacando naquele momento, não estou confessando a Cristo, ainda que esteja professando-0 com ousadia. Onde a batalha ruge, ali é provada a lealdade do soldado. E ficar firme em todos os demais pontos do campo de batalha é mera fuga e vergonha, se o soldado falhar naquele pormenor.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

ESTARIA O SALVO LIVRE PARA PECAR?


Por Cláudia Castor

Todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas convêm. Todas as coisas me são lícitas; mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas. I Coríntios 6:12
Todas as coisas são lícitas, mas nem todas as coisas convêm; todas as coisas são lícitas, mas nem todas as coisas edificam.I Coríntios 10:23

Ao lermos o que o apóstolo Paulo deixa registrado em sua carta ao povo de Corinto, pode nos surgir o pensamento: Estaria o homem livre para então decidir cometer ou não pecado? Tudo ou todas as coisas inclui aqui o que Deus abomina? Certamente esta primeira leitura e interpretação do texto aqui registrado seria ingênua, para não dizer distorcida da Palavra de Deus. Ao meditarmos em um texto da Bíblia, não podemos nos basear apenas nele para sua interpretação. C. H. Spurgeon disse que: “ se alguém ao ler parte da Bíblia, fora de seu contexto, e disser “Eureka”, certamente deixou o diamante para contentar-se apenas com um caco de vidro.” A Palavra de Deus tirada de seu contexto perde seu valor espiritual e passa apenas a cacos, muitas vezes usados para defender e propagar heresias ou erros cometido e dar-lhes ares de espiritualidade.

Comecemos nossa reflexão pela palavra “lícita”. A palavra lícita significa permitida, possível, tendo como seu antônimo impossível, aquilo que não me é permitido. Façamos uma divisão aqui entre o homem carnal e o espiritual. Nossa sociedade é regrada através de leis que nos permitem ou não determinados atos, quando ferimos atos que em nossa sociedade são proibidos, desacatamos a lei e sofremos as conseqüências por ela determinada. No mundo em que vivemos, embora estejamos aqui e ainda assim não pertencermos a este mundo, estamos ligados as suas condutas e moralmente convidados a praticar e tomar nossas decisões a partir do que será bom para toda a sociedade como um todo. Se essas condutas designadas pela sociedade que vivemos ferem a Palavra de Deus, cabe-nos como cidadãos do céu, optar pela conduta espiritual, mesmo que sofrendo consequências desagradáveis por tal opção. Melhor é servir a Deus do que aos homens (At 5.29). Então o que Paulo estaria falando aqui. Primeiro, sua missão sempre foi falar ao homem espiritual e certamente esta mensagem foi destinada a pessoas convertidas ao Senhor Jesus e que já entendiam o que é se tornar servo do Deus altíssimo. Quando tomamos uma decisão ao lado do Senhor Jesus já não nos é mais permitido pecar. Simplesmente Deus, através de Jesus, nos faz novas criaturas e tal opção não cabe mais em nossas vidas. Pecar sempre nos afastará de Deus e não consiste numa escolha, mas em obediência a Deus e a sua Palavra. O pecado nunca foi lícito ao homem e sua desobediência nos trouxe a queda. Adão não obteve a permissão de comer da árvore do bem e do mal. Sua desobediência e omissão acarretaram a queda de toda a humanidade e a ação e iniciativa de Deus foi em tornar a ter comunhão com o homem caído. O pecado nunca foi e nunca será lícito aos que querem viver piedosamente o evangelho, serem servos do Senhor Jesus e suas testemunhas fiéis aqui neste mundo.

A que então Paulo estaria se referindo a dizer que era permitido, mas não se deveria fazer? Para entendermos é necessário entendermos o propósito para que fomos chamados: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Mas não useis de liberdade para dar ocasião à carne, antes pelo amor servi-vos uns aos outros.” ( Gl 5.13) Liberdade não consiste em dizer sim a tudo e todos, mas em ter o bom senso e o discernimento espiritual de decidir entre o melhor para Deus, para seu Reino, o que implicará no melhor para mim e toda a sociedade em que vivo. Aqui entendemos que Deus nos fez seres racionais e que devemos usar da razão nas decisões que tomamos: “Por isso, não sejais insensatos, mas entendei qual seja a vontade do Senhor.”( Ef 5.17). Entender a vontade de Deus através da ação do Espírito Santo em nossas vidas é fundamental para tomar decisões corretas em nossas vidas. Ao usar a razão devemos estar com nossa mente da forma que o próprio apóstolo deixou registrado: “Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai” ( Fil 4.8). Pois só tendo a mente de Cristo poderemos crescer e amadurecer de forma correta: “antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo...” (Ef 4.15.) Como posso como nova criatura em Cristo Jesus e tendo sua mente achar que o pecado me é lícito? Esta não é uma escolha dada aos que decidem pela obediência a Deus e a sua Palavra e se deixam serem transformados por seu Espírito. Deus não nos chamou para contradizer tudo o que foi pregado no Evangelho da Cruz: “Porque Deus não nos chamou para a imundícia, mas para a santificação” ( I Ts 4.7). Um Deus Santo requer santidade, somos justificados em Cristo Jesus e santificados pelo nosso Deus que é Santo e não existe nEle sombra de variação. Nos é lícito ser livre para dizer não, a verdadeira liberdade consiste em escolhas e escolhas corretas, Deus desumanizaria o homem se tirasse dele o direito de dizer não ao pecado e optar por Deus e a obediência a sua Palavra. O valor intrínseco do ser humano consiste no respeito de Deus as nossas escolhas mesmo que firam sua santidade, não tendo com isto co-responsabilidade nestas escolhas, apenas não poderia contradizer a natureza humana de ser sua imagem e semelhança e de seu valor intrínseco de escolha que o humaniza e simplesmente trocar por um valor instrumental, onde Deus decidiria de antemão o dizer não em nosso lugar e o sacrifício de Cristo estaria aniquilado.

Este texto deixado pelo apóstolo Paulo não exorta acerca do pecado, Deus não admite o pecado, abomina e odeia o pecado, mas ama o pecador e nos dão direito de optar pela obediência e atitude da confissão e do arrependimento como caminho de volta aos seus braços e não uma escolha se quero ou não fazer. Paulo aqui se endereçava ao povo de Corinto. Esta igreja que estava situada nesta cidade apresentava ainda vários problemas devido a sociedade em que estava inserida e foi por Paulo incansavelmente admoestada, conduzida a uma nova vida e testemunho cristão. Nesta passagem, devemos voltar ao tempo e entender que muitos costumes da sociedade daquele lugar não representavam pecado diante de Deus, mas não contribuíam para identificá-los como novas criaturas em Cristo. Paulo aqui, na verdade, faz um apelo à igreja de Corinto que tudo aquilo que possa associá-los a uma vida distante de Deus e impedir que outros vejam a glória de Deus em suas vidas seja retirado do meio deles, para que novas vidas possam ser ganhas pelo seu testemunho e pela diferença que deveriam fazer naquele local. As pessoas deveriam olhar e dizer: verdadeiramente este é um novo povo, lavado e remido pelo sangue do Cordeiro, fazem diferença não só no mundo espiritual, mas entre os que têm vivido apartados de Deus. Como nos deixa o grande legado de John Stott: ““Testemunho não é sinônimo de autobiografia. Quando estamos realmente testemunhando, não falamos de nós mesmos, mas de Cristo.” Fica aqui a reflexão. Como temos tomados nossas decisões para que os que estão a nossa volta possam ver Cristo e tudo que Ele faz na vida daqueles que o servem? Muitas vezes optamos pela omissão, pelo calar, saiba que a falta de decisão já é a sua escolha e como diz um dito popular: quem cala consente. Fomos chamados como arautos do Rei, aquele que vai à frente gritando, anunciando a chegada do Rei, assim deve ser nossa vida em tudo e com todos, gritar, proclamar a chegada do Rei dos reis e a sua salvação, seja em nossas palavras, atitudes, gestos, escolhas e decisões, Cristo deverá estar sempre em primeiro lugar, sendo anunciado a todos os povos e nações. Deus nos abençoe e nos dê discernimento de agir e decidir segundo o Espírito Santo de Deus. A Deus toda honra, toda glória pelo século dos séculos, amém.

Salvo de quê?

Por R.C. Sproul
Certa vez, fui confrontando por um jovem na Filadélfia que me perguntou: “Você está salvo?” Minha resposta para ele foi: “Salvo de quê?”. Ele foi pego de surpresa com a minha pergunta. Obviamente, ele não tinha pensado muito sobre o significado da questão que estava perguntando. Certamente eu não estava salvo de ser interrompido na rua e abordado com a pergunta “Você está salvo?”.

A questão de ser salvo é a questão suprema da Bíblia. O assunto das Sagradas Escrituras é o tema da salvação. Jesus, em sua concepção no ventre de Maria, é anunciado como o Salvador. Salvador e salvação caminham juntos. O papel do Salvador é salvar.

Perguntamos novamente: Salvo de quê? O significado bíblico de salvação é amplo e variado. Na forma mais simples, o verbo salvar significa “resgatar de uma situação perigosa ou ameaçadora”. Quando Israel escapa da derrota nas mãos de seus inimigos no campo de batalha, ele se diz salvo. Quando as pessoas se recuperam de uma doença com risco de vida, elas experimentam salvação. Quando a colheita é resgatada de praga ou seca, o resultado é a salvação.

Usamos a palavra salvação de uma maneira similar. Diz-se que um boxeador foi  ”salvo pelo gongo” se o round termina antes do árbitro iniciar a contagem. Salvação significa ser resgatado de alguma calamidade. No entanto, a Bíblia usa o termo salvação em um sentido específico para se referir à nossa redenção definitiva do pecado e à reconciliação com Deus. Neste sentido, a salvação é da calamidade final – o juízo de Deus. A salvação final é realizada por Cristo, “que nos livra da ira vindoura” (1Ts 1.10).

A Bíblia anuncia claramente que haverá um dia de julgamento, em que todos os seres humanos serão responsabilizados diante do tribunal de Deus. Para muitos, esse “dia do Senhor” será um dia de trevas, sem luz. Esse será o dia em que Deus vai derramar sua ira contra os ímpios e impenitentes. Será o holocausto final, a hora mais escura, a pior calamidade da história humana.  Ser liberto da ira de Deus, que muito certamente virá sobre o mundo, é a salvação definitiva. Esta é a operação de resgate que Cristo executa para o seu povo, como seu salvador.

A Bíblia usa o termo salvação não só em muitos sentidos, mas em muitos tempos. O verbo salvar aparece em praticamente todos os possíveis tempos da língua grega. Há o sentido de que fomos salvos (desde a fundação do mundo); estávamos sendo salvos (pela obra de Deus na história); somos salvos (por estar em um estado justificado); estamos sendo salvos (por estarmos sendo santificados ou tornado santos) e seremos salvos (por experimentar a consumação da nossa redenção no céu). A Bíblia fala da salvação em termos de passado, presente e futuro.

Às vezes, nós igualamos a nossa salvação presente com a nossa justificação. Em outros momentos, vemos a justificação como um passo específico na ordem total ou plano de salvação.

Por fim, é importante notar outro aspecto central do conceito bíblico de salvação. A salvação é do Senhor. Salvação não é uma iniciativa humana. Os seres humanos não podem se salvar. A salvação é uma obra divina, que é realizada e aplicada por Deus.  Somos salvos pelo Senhor e do Senhor. É o ele quem nos salva da sua própria ira.

"Conheço as tuas obras... que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome" - Carta à Filadélfia


Por Pr. Silas Figueira

“Ao anjo da igreja em Filadélfia escreve: Estas coisas diz o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá”. Ap 3.7
“Ao anjo da igreja...”

Entre as sete cartas às igrejas no Apocalipse, encontramos duas que não contêm nenhuma crítica: A carta à igreja em Esmirna, uma congregação pobre que enfrentava perseguição, e a carta à igreja em Filadélfia, uma congregação fraca e limitada, mas que dependia de Deus. Os homens tendem a medir força e qualidade em termos de tamanho, poder e riqueza. Jesus vê as igrejas de forma diferente. Independente de sucesso em termos mundanos, Jesus olha para o caráter e o coração de cada discípulo e de cada igreja. Ele anda no meio dos candeeiros e sabe muito bem quem pertence a ele.

Evidentemente, tinha havido uma recente perseguição em Filadélfia, mas os cristãos (apesar da forte pressão) mantiveram sua fé. Como em Pérgamo, onde Antipas foi cruelmente martirizado, também em Filadélfia os cristãos tinham corajosamente permanecido firmes. Eles estavam pacientemente suportando tribulação e humilhação por amor a Cristo [1].

“... Filadélfia...”

 Esta era a mais jovem das sete igrejas da Ásia. Esta cidade foi fundada por colonos que vieram de Pérgamo sob o reinado d e Átalo II nos anos de 159 a 138 a. C. Átalo amava tanto ao seu irmão Eumenes que o apelidou de Philadelphos, que quer dizer aquele que ama a seu irmão, ou amor fraternal. Daí o nome da cidade. A cidade de Filadélfia gozava de uma localização estratégica de acesso entre os países antigos de Frígia, Lídia e Mísia. A região produzia uvas, e o povo especialmente honrava a Dionísio, o deus grego do vinho. A cidade servia como base para a divulgação do helenismo às regiões de Lídia e Frígia. Localizava-se num vale no caminho entre Pérgamo e Laodicéia. A cidade fora castigada por vários terremotos e as pessoas viviam assustadas pela instabilidade. Existiam muitos terremotos e grandes tremores de terá na cidade de Filadélfia. Muitos viviam em tendas fora da cidade. Paredes rachadas e desabamentos eram coisas comuns na cidade. Era uma região perigosamente vulcânica. O terremoto do ano 17 d.C., que destruiu Sardes, também atingiu Filadélfia e reconstruída pelo imperador Tibério. Mas para a igreja assustada com os abalos sísmicos da cidade, Jesus diz: “Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá...” (3.12) [2].

Em alguns momentos de sua história, a cidade recebeu nomes mostrando uma relação especial ao governo romano. Por volta do ano 90 d.C., com ajuda imperial, a cidade de Filadélfia tinha sido completamente reconstruída. Em gratidão, passaram o nome da cidade para Neocesaréia – a nova cidade de César. Durante o reinado de Vespasiano, foi também chamada de Flávia (nome da mulher dele, e a forma feminina de um dos nomes dele). Jesus então, aproveitando essa situação cultural diz para a igreja que os vencedores teriam um novo nome (3.12). Não o nome de César, mas o nome de Deus. Atualmente, a cidade de Alasehir fica no mesmo lugar, construída sobre as ruínas de Filadélfia [3].

“... Estas coisas diz o santo...”

Jesus revela-se como aquele que é santo. Como cabeça da Igreja, é santo em seu caráter, palavras, ações e propósitos. Ele é completamente santo [4]. Aqui no Apocalipse  santo é um título de Deus (4.8; 6.10), mas Jesus é também chamado assim diversas vezes (Mc 1.24; Lc 4.34; Jo 6.69; 1Jo 2.20), mostrando que Ele tinha uma vida sem pecado e totalmente dedicada a Deus.  

“... o verdadeiro...”

A palavra verdadeiro ou genuíno tem dois significados diferentes. No contexto grego a palavra significa o que é real, que corresponde à realidade. Mas no contexto hebraico ela significa o que é fiel e confiável. No Antigo Testamento Deus é o que mantém para sempre a sua fidelidade (Sl 146.6), isto é, podemos confiar que ele sempre cumprirá as suas promessas. Quando o Antigo Testamento fala do Deus verdadeiro isto acontece sempre no sentido de que ele é fiel (Êx 34.6) à sua promessa do pacto. No contexto de Filadélfia o verdadeiro lembra o pacto que Deus fez com Israel nos tempos do Antigo Testamento e que ele agora cumpriu fielmente na Igreja, em Jesus Cristo [5].

Hernandes Dias Lopes falando de Jesus dentro desse contexto diz que Ele não é uma cópia de Deus, é o Deus verdadeiro. Havia centenas de divindades naqueles dias, mas somente Jesus podia reivindicar o título de verdadeiro Deus [6].

 “... aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá”.

A chave de Davi podemos entender somente olhando para o Antigo Testamento. Em Isaías 22.22 diz: “Porei sobre o seu ombro a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá”. Eliaquim recebeu a chave como novo administrador das coisas do rei e, já que assim ele era representante do rei, ele estava autorizado a exercer autoridade plena em nome do rei. A Chave de Davi é a chave da casa de Davi – o Reino messiânico [7]. A chave do Reino de Deus pertencia a Israel, mas agora na verdade pertence a Jesus, o Messias davídico (Ap 5.5). Por isso que somente Cristo pode abrir a porta do Reino messiânico aos homens, Israel perdeu esse privilégio.

Vemos aqui como Jesus tirou essa autoridade dos judeus e deu a Igreja. O Senhor condena o legalismo dos judeus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque fechais o reino dos céus diante dos homens; pois vós não entrais, nem deixais entrar os que estão entrando!” Mt 23.13) e transfere a autoridade de porteiro à Igreja: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.” Mt 16.19). Dessa forma Pedro e os outros cristãos têm de dar as boas vindas não somente aos judeus, mas aos samaritanos e aos gentios como membros permanentes do Reino (At 2, 8, 10). Assim, todo conceito expresso nas palavras: chave, porta, templo e coluna torna-se cristão, e é a base para a transferência acima mencionada. Os judeus precisarão aprender que “eu te amei” [8]

“Conheço as tuas obras – eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar – que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome”. (Ap 3.8)

“Conheço as tuas obras...”

Essa é uma declaração comum em todas as cartas, no entanto aqui não há maiores detalhes destas boas obras. A igreja de Filadélfia era tão rica em boas obras que ela agradava ao Senhor. Mesmo tendo pouco poder, pouca influência e sendo pequena, ela só mereceu elogios e nenhuma crítica [9].

“... eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta...”

 A igreja era pequena em tamanho e em força, mas grande em poder e fidelidade. Deus na verdade escolhe as coisas fracas para envergonhar as fortes. Sardes tinha nome e fama, mas não vida. Filadélfia não tinha fama, mas tinha vida e poder. A igreja tinha pouca força, mas Jesus colocou diante dela uma porta aberta, que ninguém pode fechar. A igreja é fraca, mas seu Deus é Onipotente. A nossa força não vem de fora nem de dentro, mas do alto [10].

Porta aberta, no conceito do Novo testamento, quer dizer uma oportunidade para o ministério e pregação do evangelho. Alguns exemplos são muito claros (At 14.26,27; Cl 4.3,4). A primeira porta é a porta da salvação. Jesus disse em João 10.9 que Ele é a porta da salvação, da liberdade e da provisão. A segunda porta é a porta da evangelização. As angústias da cidade são como que o grito de socorro de homens carentes do evangelho. Jesus fala de uma porta de oportunidade para se pregar o evangelho [11]. Por causa da sua localização geográfica, pois ela situava-se junto às fronteiras de Mísia, Lídia e Frígia, a igreja de Filadélfia estava tendo a oportunidade de propagar as boas novas da graça do Reino de Deus de forma ampla. Assim como ela expandiu a cultura grega, agora ela estava tendo a oportunidade de expandir o evangelho de Cristo.
             
“... a qual ninguém pode fechar...”

A porta foi divinamente aberta, e só o Senhor poderá fechá-la. Aqui ele fala especificamente da natureza das oportunidades dadas aos discípulos em Filadélfia, mas garante que as portas ficariam abertas. Hoje, quando Deus abre portas de oportunidade para nós, devemos aproveitá-las (Tiago 4:17) [12]. Os judeus de Filadélfia eram agressivos em sua hostilidade em relação à igreja, e diziam que somente eles – Israel – tinham acesso à porta do Reino de Deus. Cristo assegura à igreja que os judeus não terão sucesso em seu propósito de fechar a porta do Reino de Deus para a igreja [13].

“... que tens pouca força...”

“Sei que tens pouca força” é a melhor tradução segundo George Ladd [14]. Não é o tamanho nem a força da igreja que determinam seu ministério, mas sua fé e obediência aos mandamentos do Senhor. Ou, ainda, não é o tamanho nem a força da igreja que determina seu ministério, mas o seu ministério é determinado pela fé e obediência para com o Senhor. Se Jesus abriu as portas, então Ele veria a disponibilidade da comunidade em andar e passar por ela. Talvez a congregação fosse pequena, ou talvez fosse composta predominantemente das classes mais baixas da sociedade romana, o que fazia que ela tivesse pouca influência sobre a cidade [15].

Jorge Henrique Barro faz uma comparação entre a igreja de Filadélfia e as igrejas no Brasil em relação ao tamanho das congregações. Ele diz que nem é preciso fazer muitas pesquisas para chegar a conclusão que a maioria das igrejas brasileiras não passa de duzentos membros. Mas não podemos nos esquecer, diz ele, de que são igrejas com menos de duzentos membros que estão desenvolvendo a maioria dos ministérios no Brasil atual. O poder de uma igreja não está no tamanho nem na força-influência que ela possui, pois seu poder está proporcionalmente ligado à sua fidelidade à Palavra e à sua fidelidade ao nome de Cristo [16].

“... entretanto, guardaste a minha palavra...”

Os crentes da igreja de Filadélfia achavam-se fielmente submissos à Palavra de Deus. Pregavam-na, ensinavam-na, obedeciam-na, viviam-na e a compartilhavam. Não se afastaram da Palavra. Qualquer coisa que fizessem, era dirigida pela Palavra de Deus.

“... e não negaste o meu nome”.

Esta igreja não se envergonhava do Evangelho. Muitos em Filadélfia, especialmente os judeus incrédulos, forçavam os crentes a negligenciar os ensinamentos de Cristo e a negar a fé [17]. Obediência e compromisso são os destaques da igreja de Filadélfia. Obediência à Palavra de Jesus e compromisso que assume as consequências de honrar o seu nome. Duas características que valem ouro; duas características que todo pastor sério anseia e busca em sua comunidade. Trata-se da centralidade da palavra e da centralidade de Cristo na comunidade (Jo 14.15) [18].

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Criador e criaturas: O que significa ser imagem e semelhança de Deus?




O livro do Gênesis afirma que o homem é um ser criado à imagem e semelhança de Deus: “Então disse Deus: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança’ [...] Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.26-17). Analisemos esse texto e suas implicações:

Criou Deus o homem

O homem é, portanto, uma criatura. Há uma diferença abismal entre Deus, como Criador, e o homem, como criatura, que jamais poderá ser apagada. O homem é barro mais sopro divino.

Há várias implicações do fato de o homem ser uma criatura de Deus:

1. Os seres humanos não têm existência independente. Ou seja, o homem é um ser dependente de Deus. Sem Deus, não haveria homem. O homem não gerou a si mesmo, nem é autoexistente. Somente Deus é incriado, sendo portanto, autoexistente (Sl 90.2).

2. A humanidade faz parte da criação. Por mais diferentes que os homens sejam dos outros seres criados por Deus, ele não é tão distinto do restante deles a ponto de não ter nenhuma relação com eles. O homem é parte da sequência da criação.

3. Há um vínculo comum entre todos os seres humanos. A doutrina da criação significa que estamos todos relacionados uns com os outros.

O homem é, portanto, uma criatura, mas como revela o texto de Gn 1.26-27, ele não é uma criatura qualquer, mas sim um ser feito à imagem e semelhança de Deus.

À sua imagem e semelhança

O comentarista bíblico Derek Kidner afirma que as palavras imagem e semelhança se reforçam mutuamente, não havendo, portanto, distinção teológica entre elas[1]. Andrés Ibáñez Arana afirma que a palavra hebraica equivalente à imagem, significa reprodução, imitação, ser igual, enquanto que a equivalente à semelhança significacópia[2]. Portanto, dizer que o homem é imagem e semelhança de Deus, significa dizer que o homem é como Deus, reflete a Deus. Isso é elucidado em Gênesis 5.3: “Aos 130 anos, Adão gerou um filho à sua semelhança, conforme a sua imagem; e deu-lhe o nome de Sete”. Perceba que Sete é imagem e semelhança de Adão. Ou seja, assim como um filho se parece com seu pai, o homem se parece com Deus.

Toda a Escritura Sagrada irá mostrar em que o homem é como Deus. A humanidade reflete Deus na sua racionalidade, criatividade, capacidade de comunicação, espiritualidade, capacidade de dominar, de tomar decisões, e assim por diante.

O fato de sermos imagem de Deus, ou seja, termos a estampa de Deus em nós, constitui também uma declaração de propriedade. Jesus disse aos seus questionadores: “De quem é esta imagem e esta inscrição?”. “De César”, responderam eles. E ele lhes disse: “Então deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22.20,21). O ser humano pertence a Deus, assim como a terra e tudo o que nela há (Sl 24.1).

Outro elemento importante da imagem de Deus em nós é a nossa consciência de Deus. O teólogo R.K. McGregor Wrigth afirma: “Quando um cachorro está em dificuldade, ele não ora, apenas corre. Calvino chamou a consciência humana da presença de Deus de ‘semente da religião’ e de ‘senso da divindade’. Blaise Pascal observou que há um ‘buraco em forma de Deus’ no coração humano que só Deus pode preencher”[3].

Wrigth afirma ainda que quando Deus criou Adão, ele também tinha em mente a encarnação futura de Jesus Cristo, porque Jesus era “o Cordeiro de Deus morto desde a fundação do mundo’ (Ap 13.8). Em outras palavras, a natureza de Adão foi criada de tal modo que a pessoa do Filho de Deus pudesse ter uma expressão pessoal perfeita através dele na encarnação do Cordeiro. Desse modo, Jesus é chamado de “a imagem de Deus” em 2Co 4.4. Novamente em 2Co 3.18, Paulo descreve nossa transformação progressiva na imagem de Cristo. O ser humano deve ser renovado à imagem de Cristo (Rm 8.29; Gl 4.19; 1Pe 1.4; 1Jo 3.2).