sexta-feira, 9 de agosto de 2013

The Next Generation – Buracos Teológicos.


Por Josemar Bessa
Nos episódios de Star Trek: The Next Generation ou nos longas da série, há algo frustrante que sempre acontece e que temos dificuldade de entender. O capitão da Enterprise (Consagrado na figura de Jean Luc Picard) – sempre que em situações terrivelmente perigosas, apesar da nave ter um escudo de proteção, deixa sempre este escudo desligado. Só depois que alguma nave desconhecida já está atacando perigosamente a Enterprise é que o capitão grita:“Levantar o escudo!” – Você pensa – por que não antes? Antes da nave ser danificada, antes de alguém morrer, antes do perigo se tornar em alguma tragédia...

Essa não é a mesma situação da maioria das pessoas que se dizem cristãos hoje? De grande parte das igrejas? Por que tantos erros teológicos prosperam na igreja – que segundo a Bíblia, devia ser o “Baluarte da Verdade?” – Ter os escudos de proteção desligados é um perigo mortal que a maioria corre o tempo todo.

Devíamos estar sempre alertas, com escudos teológicos sólidos levantados todo o tempo, pois o inimigo, suas ideias que fluem de nossa cultura pós-cristã, está sempre por perto. A palavra de ordem sempre foi: “Estai, pois, firmes, tendo cingidos os vossos lombos com a verdade, e vestida a couraça da justiça” - Efésios 6:14

Essa é outra maneira de dizer – Paulo não conhecia a Enterprise – mantenha os escudos ligados. Se alguém, a cultura... está tentando convencê-lo de uma ideia contrária a Palavra de Deus, algo imoral, algo dito comum e normal em nossos dias... mantenha os escudos levantados. O problema é que se não sentimos o perigo, para que escudos de proteção? Se você está se sentindo seguro e confortável, para que escudo de proteção? Essa é a situação da grande maioria dos cristãos, que por isso, tem sido conformados a esta geração – Quando você está mais vulnerável e em que ponto essa geração tem fracassado?
Poderíamos mencionar tantas coisas, mas em primeiro lugar, nada é mais perigoso teologicamente quando você está desejando acreditar que algo seja verdade. Porque quando isso acontece, você irá fazer de tudo para se convencer de que aquilo é realmente verdade. Então, mesmo inconscientemente você irá deixar desligado os escudos de defesas da Palavra, abrindo caminho para acreditar no que você quer acreditar. Isto tem sido tão comum.

Sempre que eu me pego querendo que algo seja verdade ( porque é confortável para mim – porque vou poder estar mais conectado a cultura ao meu redor...), eu deveria imediatamente estar em guarda, com todos os escudos teológicos levantados. Essa é uma situação extremamente perigosa... É óbvio que não é só porque eu quero que algo seja verdade que aquilo se transforma em verdade. Saio do objetivo, saio do claro ensino bíblico, saio dos dados concretos... O significado disso deve ecoar sempre em nossas mentes – “querer acreditar” é perigosíssimo, porque neste momento eu desligo os escudos da Verdade e abro as comportas da racionalização para desligar a consciência... Quando “quero acreditar” no que a cultura diz, devia acender a luz vermelha. Mas é isso que acontece?

Em segundo lugar devia não só deixar o escudo teológico ligado, mas deveria reforçá-lo ao máximo quando é mais fácil acreditar.

A vida cristã, a vida com Deus, tem implicações práticas. A salvação afeta tudo o que fazemos. E muitas vezes não deixa a vida mais fácil num mundo que desconsidera a mente de Deus. Na verdade não só desconsidera, mas é hostil a Verdade. Então somos constantemente confrontados com a tentação de acreditar em algo porque vai facilitar nossas vidas. Por exemplo, é mais fácil fazer do mundanismo uma palavra oca de significado, porque então meu estilo de vida pode expressar a cultura a minha volta e não um Deus santo. É mais fácil acreditar que viver para adquirir bens materiais – redirecionando para isso todo tempo, trabalho, estudo, carreira, família... porque então eu não tenho que mudar meu estilo de vida confortável que não se diferencia dos paradigmas que impulsionam todos os homens a minha volta que estão mortos espiritualmente.

É mais fácil acreditar que a minha relação com Deus é essencialmente um assunto privado entre mim e Ele, porque então eu posso justificar a minha falta de compromisso na edificação da igreja de Cristo, minha falta de comunhão numa comunidade local... É mais fácil acreditar que a evangelização é um dom espiritual para alguns, porque então não sinto a culpa por não estar propagando a verdade do Evangelho para a qual fui comissionado se estou em Cristo.

Acreditar que algo é verdadeiro por tornar a minha vida mais fácil, a continuar num estilo de vida mais fácil, a ir na direção mais fácil... é ter desligado todos os escudos de proteção. O caminho fácil acena em todas as relações nesta cultura, e é difícil ignorá-lo se os escudos de proteção não estiverem ligados.

Em terceiro lugar devemos estar totalmente atentos quando a cultura a nossa voltar quer que acreditemos. A cultura tende a nos formatar. É inevitável. Nós recebemos um fluxo constante de mensagens de nossa cultura sobre o que é bom e verdadeiro, sobre o que é belo, sobre o que vale a penas investir a vida, sobre o que é divertido... a maioria de nós nem sequer percebe o fluxo constante em que isso acontece. Então, ao nos sentirmos confortáveis e seguros, para quê escudos? Lenta e progressivamente esse fluxo constante nos molda. E nada pode ser mais fácil do que ir se deixando levar. Quando sentimos isso, deveríamos ligar o alerta vermelho e ligar todos os escudos. A pressão vem de todos os lugares: mídia, colegas, leitura... Começamos a pensar, eu não faço, mais isso é comum, normal... e esse é só o primeiro passo para perdermos toda a definição bíblica para a vida. Nossa cultura, por exemplo, quer desesperadamente que acreditemos que a homossexualidade e o casamento gay são normais, corretos... A corrente e o fluxo diário é muito forte. Você não quer ser visto como um troglodita, então, aos poucos... Sutilmente nossa cultura quer que acreditemos no consumismo, no individualismo ( é por isso que é tão comum hoje o que veio a ser chamado "desigrejados" – com desculpas piedosas escondemos o deus individualismo ) – a pregação da cultura sobre o individualismo, eu como capitão da minha história... entra em nossos poros todos os dias. E sabendo o quão fácil é apenas se deixar formatar e levar pelo fluxo, precisamos manter os escudos teológicos claros contra toda essa onda levantados a cada dia. Levantados contra cada uma dessas mensagens.

Em quarto lugar, devemos ligar todos os escudos quando a resposta obtida parece tão óbvia para a mente natural, o senso comum do homem sem Deus. Isso é extremamente perigoso porque se a resposta parece tão óbvia, por que se preocupar com isso. Naturalmente o homem, por exemplo, se vê como alguém livre, se vê como estando no centro... o humanismo secular sempre parece óbvio para a mente natural. O amor que aceita toda a espécie de erros e só afirma e nunca julga... parece tão óbvio para nossa cultura. Então pensamos – a resposta está logo ali. Se encaixa tão bem a minha mente, é tão confortável... Muitas pessoas jamais começam com a Bíblia – elas dizem –“olhe, é tão óbvio...” – É lógico que neste momento todos os escudos teológicos já estão desligados. Porque é lógico que não importa o que a Bíblia diz se eu já defini que algo é lógico, a partir desse ponto qualquer coisa contrária será ilógica. O que pareceu óbvio e lógico para Eva na sua conversa com a serpente se mostrou o oposto de toda lógica divina. Se achamos lógico, já não achamos perigoso – para que serviriam então escudos? Nós simplesmente desligamos. Relaxamos e continuamos na mesma direção. Então um “alienígena” – como em Star Trek – já fez um buraco em nossa nave, e a morte está a caminho.

Você percebe diariamente em quais situações você tem deixado os escudos de proteção desligados? Quando você está propenso a deixá-los desligados, você está num perigo morta. Essa é a razão de tantos erros prosperarem em nossos dias na igreja visível...

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

O Fruto do Espírito

 
Por Maurício Zágari
Amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Pronto. Eis aí a essência de ser cristão. É o fruto do Espirito, que Paulo descreve em Gálatas 5.22,23a. Uma utopia na vida prática do crente em Jesus? Ou um alvo a ser perseguido mas jamais alcançado? Algo que brota automaticamente no ato da justificação ou virtudes a serem desenvolvidas com o passar dos anos? O quê, como, quando, onde, por quê... nada disso importa. O que importa é ter esse fruto em nós. Pois o fruto do Espírito é a assinatura da presença de Deus no cristão. Só que... olho para dentro de mim e vejo a falta de tantas dessas virtudes! Significa que não sou salvo? Mas... também olho em volta e não vejo um cristão sequer que tenha todas essas características. Significa que a Igreja é vazia de Deus? Ou que o fruto brota de modos que não entendemos? Vamos meditar sobre isso.

A Bíblia não fala da "árvore" do Espírito, mas do "fruto", algo que brota porque corre seiva na árvore. Logo, não é causa, é consequência. Também frutas não nascem prontas: começam com um pontinho, que vai crescendo, crescendo, crescendo até alcançar a maturidade. E, nesse processo, enfrenta muitas intempéries. Tempestades. Vendavais. O calor escaldante do Sol. Mas já reparou que sem a água das tempestades o fruto morre? Que sem o ar dos vendavais não há a transformação de gás carbônico em oxigênio, algo que mantém viva a planta? E que o lado da maçã exposto ao sol sempre fica mais vermelho? Sim, é graças às intempéries que sofre ao longo de seu desenvolvimento que  o fruto torna-se viçoso, suculento, preparado, pronto, vivo.

Quando, no momento da justificação, o Espírito passa a habitar em nós creio que Ele semeia a boa semente do seu fruto. Não faz com que ele brote automaticamente, mas deposita a semente em nossa alma. Já a carregamos desde o dia em que Cristo estende a nós a Sua graça. Só que, se isso é assim, então por que há tantos cristãos sem amor, egoístas, abatidos, impacientes, odiosos ou sem autocontrole? Por que em tantos momentos não me reconheço? Se a seiva corre... por que o fruto não é visível?

Creio que faltaram as intempéries. Faltou o vendaval da vida. Faltaram as tempestades, com raios e trovoadas. Faltou o sol escaldante dos momentos de deserto. É nessas horas que vejo Deus trabalhar. Que vejo o fruto brotar. E quando o momento chega a forma como lidamos com as dificuldades vão nos tornar amargos ou melhores, temos a capacidade de decidir, de optar. Virtudes latentes em mim mas inexistentes só ganharam vida quando passei pelo vale da sombra da morte - o lugar com mais chuva, vento e sol causticante que existe.
 
Não amei de fato até que alguém me amou de um modo que eu não merecia. Não tive alegria real até que vivenciei profundas e esmagadoras tristezas. Não entendi a importância de pacificar até presenciar o  ódio. Não tive paciência até descobrir que há coisas que absolutamente não dependem de mim, que de nada adianta desesperar e só resta esperar a ação de Deus.  Não fui verdadeiramente amável até que em solidões profundas precisei desesperadamente de mãos estendidas e abraços honestos. Não fui bom até que eu sentisse na carne as consequências da maldade. Não fui fiel a Deus até que dependi totalmente do invisível. Não fui manso até que a ira mostrou suas garras. Não tive domínio próprio até que meus descontroles me tornaram o opróbrio da humanidade.

Tempestades. Vendavais. Sol fustigante. Pragas terríveis, bênçãos celestiais. Indesejáveis e bem-vindos. Quero distância como homem, mas preciso enquanto espírito. Se desejo ter em mim o fruto do Santo Espírito, preciso do que não quero. Não que busque , mas quando chega recebo de bom grado, sabendo que todas as coisas contribuem para o bem dos que amam a Deus. E eu o amo. Ou, pelo menos, tenho me esforçado para amá-lo com o amor que brota do Espírito. Pois enquanto amei o Senhor com meu estúpido amor humano não fui capaz de amá-lo verdadeiramente.

Hoje creio que o Espírito Santo é um semeador. Põe no solo árido de nossa alma a semente de Suas virtudes e espera vir a chuva, o vento, o sol - a dor. E isso demora. Por vezes anos. Por vezes décadas. Muitos morrem sem que todo o fruto tenha amadurecido. A maioria de nós, aliás. Creio que eu também morrerei sem tê-los todos maduros. Hoje as dificuldades da jornada fizeram com que algumas sementes brotassem em mim. Certas virtudes estão verdes, outras mais maduras, algumas ainda inertes. Mas o que me consola é que sei que a semente foi plantada. Pois essa é a maior prova de que, a despeito de sermos o pó que somos, aprouve a Deus escrever nosso nome no livro da vida. Sua seiva corre em nós. O resto? Virá com o tempo, com a dor e com a graça do Salvador do mundo.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Não julgue o deprimido



Por Stephen Altrogge

É fácil julgar pessoas que estão deprimidas.

Você já teve pensamentos como estes:

Por que eles não conseguem simplesmente sair da depressão? Eles não estão confiando em Deus? Um cristão não deveria ser feliz? Eles não devem estar se esforçando o bastante. Eles não devem estar exercitando sua fé em Deus. Eles estão encalhados na descrença.

Esses pensamentos passaram pela minha mente. Para a minha vergonha. Eu achava que eu era forte e não conseguia entender por que pessoas deprimidas não conseguiam ser fortes também.

No entanto, Deus tem me mudado lentamente nos últimos anos conforme passo um tempo com pessoas que lutam com a depressão. Eu estou lentamente aprendendo algumas coisas sobre depressão e como servir aqueles que estão lutando com isso. Aqui vão algumas coisas que tenho aprendido.

(Observação: Esse post foi lido e editado por um cristão maduro que lutou regularmente com a depressão. Muito do que aprendi veio deles).

Não os julgue

Eu nunca experimentei a depressão, mas, pelo que me disseram, é horrível. Ela suga sua vida, te debilita, esmaga seu espírito e torna muito difícil pensar com precisão. Como eu nunca experimentei isso, preciso ser muito tardio em emitir julgamentos quanto aos que estão na escuridão. Eu não sei como é isso e, até que eu passe por isso, não saberei como é.

Eu não posso falar para uma pessoa deprimida “sair dessa”, assim como eu não posso falar para uma pessoa com dor de cabeça para “sair dessa”. Simplesmente não funciona desse jeito. Então, preciso conter meu julgamento e ser cheio de misericórdia.

Seja compassivo

Para a minha vergonha, houve oportunidades em que eu não fui compassivo com aqueles que estão deprimidos. Eu realmente me arrependo disso. Depressão é algo terrível e aqueles que passam por isso precisam sentir meu cuidado e compaixão. Eu preciso transmitir o coração de cuidado paternal que Deus tem. Eles precisam saber que, mesmo que eu não entenda, eu realmente me importo com eles e que fico triste de vê-los nessa luta.

O que eu não preciso fazer é corrigi-los. Veja, não me entenda mal, há hora e lugar para gentilmente lembrá-los de confiar no caráter e nas promessas de Deus, mas minha proporção de compaixão e correção deve ser de aproximadamente vinte por um. Eu preciso lembrá-los que Deus se importa profundamente com eles, os ama e está com eles na escuridão.

Não ofereça soluções

Pode haver a tentação de oferecer soluções como um livro ou um sermão para uma pessoa que está deprimida. Geralmente isso não é uma boa ideia. A depressão torna praticamente impossível se concentrar e destrói totalmente qualquer energia ou motivação que uma pessoa poderia ter.

Na realidade, eu preciso oferecer esperança a essa pessoa. A falta de esperança é um dos principais sintomas da depressão e o afligido frequentemente tem medo de que a escuridão nunca acabe. Eu preciso encorajá-los mostrando que Deus irá tirá-los dessa. Que isso passará e que Deus virá até eles. Eu preciso encorajá-los a apegar-se no Senhor com a pequena força que eles tiverem e lembrá-los de que Deus está apegado a eles.

Esses são passos iniciais para ajudar as pessoas, não .soluções. Espero que eles o ajudem a confortar e cuidar daqueles que estão deprimidos.

Não cometa o mesmo erro que eu. Não julgue o deprimido, cuide dele.

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Pastor desviado deve sair do armário?



Por Zé Luís

A tradução da palavra “meditar” em espanhol é “ruminar”, ato bovino de regurgitar o alimento já engolido, tornando a masca-lo, intencionando extrair dele mais do que na primeira mastigação. Em termos de reflexão pessoal, isso é um exercício muito útil.
 
Recebi recentemente, através de um comentário anônimo, a seguinte pergunta:
 
“Pastor desviado deve sair do armário?”
Você- assim como eu - deve estar se questionando sobre qual o real significado da pergunta. Como não consigo imaginar quais dos meus oito leitores poderia te-la feito (e anonimamente, coisa que não fazem) – e que na verdade nem é o verdadeiro interesse da questão – tentei não ter tanta pressa para opinar sobre tão delicado questionamento entre nós, cristãos confusos. Além do mais, a questão pode ter diversas respostas implicadas.
 
“Sair do armário” é o termo usado quando um homossexual resolve assumir suas preferências sexuais diante de seu meio social, incluído gente que provavelmente se entristecerá com a noticia. Ainda hoje, por mais que a militância gay trabalhe para que essa opção seja irrestritamente aceita, ainda não se consegue conter a frustração de muitos familiares que sabem o quanto tal decisão fará sofrer aquele que a assumiu, assim como este, parece não faze-la por opção.
Este “pastor”, citado na pergunta, estaria desviado por ser gay? Não creio que seja isso. No mundo cristão evangélico, um homem pode ser aceito como tal, desde que não pratique o ato. Isso o isentaria de dizerem que ele é, embora haverão sempre comentários maldosos sobre os possíveis trejeitos efeminados do sujeito. É um mundo hipócrita, muitas vezes.
 
Desisti de me ater ao “sair do armário”e me foquei então em “desviado” e “pastor”.

No que consiste ser um desviado? Em uma igreja mais tradicional, se for uma mulher usando calças, ou por cortar pontas de cabelo, certamente estarei incluso no grupo.
Dependendo do ambiente religioso cristão em que fui “doutrinado”, posso estar fora da risca limitadora que me mantém salvo se por acaso não respeitar o sábado, se comer carne suína, se não der o dízimo, se não for em todos os cultos, se falar em línguas, se não falar em línguas, se não me ater ao livro de regras denominacionais locais ou mesmo questionar as preferências políticas impostas, com alegações estapafúrdias relacionadas a crenças bíblicas...
Dentro destes poucos parâmetros apresentados (em um universo muito mais vastos de indagações possíveis, já que a criatividade e a imbecilidade humana é infinita), creio que não sobrarão muitos pastores, presbíteros, ministros, levitas, anciãos, anjos, querubins, serafins, que não estejam de alguma forma desviados. Mesmo porque, em um denominação sou salvo e benção, e atravessando a rua, em outra, sou o diabo em pessoa.
Conheço gente que acredita que a sua igreja – comprovadamente equivocada em suas doutrinas – errou em condená-lo a “não-salvação”, mas por mais que se tente incorporá-lo em uma que detém a sã doutrina, este prefere a antiga, mesmo doentia, sabendo que jamais alcançará tamanha exigência de santidade. Ele escolhe continuar no tradicional erro.
Como, sendo pastor (ou no caso das igrejas que aceitam, outro desvio a ser apontado) ou pastora, gente que galgou tantos degraus, abandonar toda essa doutrina assimilada – não com pouco afinco - para transmitir, e revelar-se contrário a ela? Se fosse apenas uma simples ovelha de banco, mas um pastor(a)?
Como não pensar em Abraão e seu filho, para tentar acalmar a alma, quando esta prestes a cumprir a Ordem, em nome da Verdade, abrir mão de seu Isaque, seu bem maior e mais querido.
 
“Aguarde aqui e voltaremos...” disse Abraão quando subiu ao monte com o filho para o sacrifício. Ele sabia que voltaria com seu maior afeto, apesar de caminhar para a morte certa dele, por ordem de quem lhe dara tudo. Abraão não se apegou às conquistas, sabia que não havia situações irreversíveis Naquele que o chamou no início de sua jornada.

Não havia medo nem insegurança. Por isso ele era ímpar para Deus.
 
Nós nos apegamos a essa coisa requintada que a palavra “ministério” nos dá, embora o Espírito, suavemente aponte, que ainda não estamos no trilho que Ele projetou.
Um pastor que vai “sair do armário” deve saber o que um gay enfrenta: o mundo – ou mundinho? - ruirá sobre sua cabeça, e muita solidão será sua principal companheira. Aquele meio social que – supostamente – o amava, o tratará no máximo, com o carinho que damos aos amados com doenças infecto-contagiosas.
Um gay sabe disso, um desviado sabe disso, que decide pela Verdade saberá disso.

O QUE É SER PASTOR?

Por Pr. Silas Figueira
Ser pastor em primeiro lugar é ser humano. Alguém que vive os mesmos dilemas que qualquer membro da comunidade cristã vivencia. É viver a vida com graça, e manifesta a graça do Senhor, mesmo quando as circunstâncias são adversas.
Ser pastor é ter a consciência de que foi escolhido por Deus, para fazer parte do grupo que exerce o mais excelente ministério (1Tm 3.1). É fazer parte do grupo que desiste dos seus sonhos profissionais e de sua carreira para sonhar os sonhos que o Senhor tem traçado para sua própria vida.
Ser pastor é doar-se aos demais. É ser uma pessoa aberta e sempre acessível aos seus irmãos e também ao seu próximo. Isto implica muitas vezes ter que abdicar de horas de sono. É necessário em muitos casos, vencer o seu cansaço para poder ajudar alguém ou até mesmo ter uma palavra amiga para uma pessoa aflita ou alguém que está em sofrimento.

Ser pastor é ser mensageiro de Deus. Anunciador das boas novas. É ser uma voz que clama com ousadia. Muitas vezes, a mensagem será dura, outras promoverá conforto e consolo. Muitos compreenderão os seus pecados e render-se-ão aos pés do Salvador. Ser pastor é ser voz e nada, além disto.
Ser pastor é ser guia. O pastor segue o caminho antes dos demais. Orienta os seus irmãos e mostra-lhes qual o caminho que deve ser seguido. Isto significa que, enquanto todos estão em segurança, muitas vezes o pastor está a percorrer o pântano tenebroso para poder conduzir o rebanho ao qual serve em segurança (Sl 23.4). Ele não abandona os seus, está presente na hora da angústia a guiá-los em segurança.
Ser pastor é chorar em silêncio. É sofrer sozinho. É ser alguém que tira forças de onde muitas vezes parece que já não existe nenhuma para poder fortalecer os que em sofrimento lhe procuram. É ser consolado pelo consolo e conforto que vê que promoveu na vida dos seus irmãos. É alegrar-se na vitória daqueles que ele tanto ama.
Ser pastor é fundamental e acima de tudo, é ser um cristão salvo pela graça do Senhor Jesus. É alguém que compreendeu que sua vida não faz sentido sem a comunhão e intimidade com o Senhor e o seu povo.1
Podemos dizer com isso que o pastor não é um voluntário, mas uma pessoa chamada por Deus. Sua motivação não está em vantagens humanas, mas em cumprir o propósito divino. O ministério não é um palco de sucesso, mas uma arena da morte. O ministério não é um camarim onde colocamos máscaras e assumimos um papel diferente daquele que, na realidade, somos, mas é um campo de trabalho cuja essência é a integridade. Abraçar o ideal do ministério é abrir mão de outros ideais.2 O ministério é árduo, espinhoso, difícil. Só mesmo os chamados resistem. Dois vocábulos são usados por Paulo em 1 Coríntios 4.1, Uperetes (ministro) e oikonomos (despenseiro, mordomo) significando remador e administrador respectivamente. Todos os dois no sentido de serviço laborioso, organizado e sistemático.
“Assim, pois, importa que os homens nos considerem como ministros de Cristo e despenseiros dos mistérios de Deus” (1Co 4.1).

A palavra “ministro” na língua portuguesa representa o primeiro escalão do governo. No entanto, se olharmos a palavra “ministro” no campo religioso, estaremos falando de alguém que exerce a função de líder religioso na igreja local. Todavia, a palavra usada pelo apóstolo Paulo para definir o ministro nos dá uma ideia totalmente contrária. A palavra grega usada é Uperetes, que significa um remador de galés. Essa palavra era utilizada para a classe mais simples de escravos. A palavra Uperetes só aparece aqui em todo o Novo Testamento. Nos grandes navios romanos existiam as galés, que eram porões onde trabalhavam os escravos sentenciados à morte e eles prestavam um último serviço antes de morrer. Eles tinham seus pés amarrados com grassas correntes e trabalhavam à exaustão sob o flagelo dos chicotes até à morte. Paulo está dizendo para não colocarmos os holofotes sobre um homem, porque importa que os homens nos considerem uperete e não como capitães do navio. O ministro da igreja é um escravo já sentenciado à morte, que deve obedecer as ordens do Capitão do navio, o Senhor Jesus.3
Paulo utiliza agora uma nova figura. Ele diz que o pastor é um despenseiro ou mordomo. A palavra grega utilizada por Paulo é oikonomos, de onde vem a palavra mordomo. O ministro é um despenseiro, aquele que toma conta da casa do seu senhor. Em relação ao dono da casa, o mordomo era um escravo, mas em relação aos outros serviçais, ele era o superintendente. O mordomo era a pessoa que cuidava da despensa, da dieta, da alimentação de toda a família. Ele era um escravo de confiança da casa. O que isso nos sugere?
a) Não é competência do mordomo prover o alimento para a família; essa era uma responsabilidade do dono da casa. O ministro do evangelho não tem de prover o alimento, porque esse já foi provido. Esse alimento é a Palavra de Deus. Reter a Palavra ao povo é um pecado.
b) Não era função do mordomo buscar outra provisão ou qualquer alimento que não fosse pelo senhor. A Palavra de Deus deve ser ensinada de formas variadas. Paulo diz para ensinarmos todo conselho de Deus (At 20.27). Nos dias atuais nenhum homem ou mulher recebe mensagens novas de Deus. Tudo o que Deus tem para nós já está nas Escrituras. A pregação de hoje não é revelável, mas expositiva.
c) A função do mordomo era servir as mesas com integridade. O ministro não é um filósofo que cria a sua própria filosofia. Não é assim o despenseiro. Ele não cria uma doutrina, uma teologia ou uma ideia a fim de aplicá-la e ensiná-la. Cabe a ele transmitir o que recebeu. E Paulo sempre usa essa expressão: “[Eu] vos entreguei o que também recebi” (1Co 11.23; 15.3).4
Os ministros deverão ter chamada específica e caracterizar-se por fidelidade, piedade, responsabilidade, integridade e ter familiaridade com a palavra de Deus. Hoje em dia, é muito fácil encontrarmos obreiros administradores, construtores e sistemáticos dentro de padrões humanos. Porém a obra carece de obreiros que distribuam o alimento, que é a Palavra, diretamente de Deus aos corações, e isto será feito a partir da utilização de dons que destacam o lado espiritual da obra de Deus, em contraste com as obras meramente humanas como construções, aquisições e conceitos baseados na lógica e ciência puramente humana.
O verdadeiro obreiro também será aquele que sabe conviver com responsabilidade de seu chamado e as críticas que advirão desta chamada. Somos vitrine, expostos a juízos: de Deus, da Igreja, de nós mesmos e da sociedade como um todo.

Façamos das palavras de Paulo a Timóteo nosso lema: “Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” (2 Tm 2.15).

O obreiro como ministro de Cristo, deverá acima de tudo ter a habilidade de abrir portas, caminhos (construir pontes), unir distâncias, pessoas e vidas. Em suma, não haverão portas fechadas aos servos de Deus, no que depender do seu testemunho.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

O homem natural odeia a Graça


Por C. H. Spurgeon
 
O teor do evangelho gira em torno do fato de que o homem está morto em seus pecados, e que a vida eterna é um dom de Deus, e se colocaria contra a totalidade deste teor básico do evangelho quem defendesse que o homem pode conhecer e amar a Cristo sem a atuação do Espírito Santo. O Espírito Santo encontra os homens tão desprovidos de vida espiritual, como aqueles ossos secos na visão de Ezequiel; o Espírito tem de juntar cada osso com seu osso, até reconstituir o esqueleto, e depois, vindo dos quatro cantos, precisa soprar sobre esses ossos mortos a fim de que recebam vida. A não ser pelo Espírito de Deus, as almas dos homens teriam de permanecer no vale de ossos secos, mortas, e mortas para sempre.

Mas as Escrituras não dizem apenas que o homem está morto em pecado; afirmam algo pior que isso: que ele, por natureza, é absoluta e totalmente contrário a tudo que seja bom e reto. "Portanto a intenção da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem em verdade o pode ser" Rom. 8:7. Folheemos as páginas da Bíblia e continuamente é repetido que a vontade do homem é contrária às coisas de Deus. Que disse Cristo naquele texto tão freqüentemente citado pelos arminianos para negar a doutrina que tão claramente afirma? Que disse Ele aos que imaginavam ser possível ao homem vir a Ele sem a influência divina? Primeiramente afirmou: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer". Entretanto, disse algo ainda mais enfático: "E não quereis vir a mim para terdes vida".

O homem não quer vir. Aqui se encontra a coisa fatal; não é apenas que o homem se encontra sem forças para fazer o bem, e sim que é suficientemente poderoso para fazer o mal, de modo que a sua vontade está perversamente disposta a ir contra tudo que é reto. Vá, arminiano, e diga a seus ouvintes que eles podem vir a Cristo, se assim o desejam, mas saiba que o seu Redentor o observa face a face e lhe diz que você está proferindo uma mentira! Os homens não querem vir. Nunca virão por si mesmos. Ninguém pode induzi-los a vir, nem mesmo forçá-los a vir com todas as suas ameaças, nem seduzi-los com todos os seus convites. Eles não querem vir a Cristo para terem vida. Até que o Espírito os traga, não quererão vir, nem poderão vir.

E é pelo fato de que a natureza humana é hostil ao Espírito de Deus, que o homem odeia a graça, despreza a maneira pela qual se oferece esta graça, e é contrário à sua natureza orgulhosa o humilhar-se para receber a salvação pelos méritos de outro. Daí, pois, surge a necessidade de que o Espírito opere diretamente no homem para mudar a sua vontade, corrigir as inclinações do seu coração, e depois de colocá-lo no caminho certo, dar-lhe forças para andar nele. Oh, se todos estudassem o homem e chegassem a compreendê-lo, não poderiam deixar de ser zelosos nesta doutrina da necessidade da obra do Espírito Santo! Com razão um grande escritor observou que jamais conheceu um homem que sustentasse algum erro teológico, que ao mesmo tempo não mantivesse alguma doutrina que atenuasse a depravação humana.

O arminiano diz que é verdade que o ser humano está espiritualmente caído, todavia acrescenta que ele ainda possui o poder da vontade e essa vontade é livre; ele pode levantar-se. Atenua-se dessa forma o caráter desesperador da queda do homem. Por outro lado, o antinomiano afirma que o homem não é responsável, pois nada pode fazer; por conseguinte não está obrigado a fazer nada. Não é sua obrigação crer, nem é sua obrigação arrepender-se. Vemos aqui que ele também atenua a condição pecaminosa do homem e lhe faltam idéias corretas a respeito da Queda. Entretanto, uma vez mantida a posição verdadeira, ou seja, a de que o ser humano não só está completamente caído, perdido e condenado, e sim também de que é culpado e por si mesmo impotente, então necessariamente você adotará a posição doutrinária correta em todos os demais pontos do grande evangelho do Senhor Jesus. Desde que se creia o que as Escrituras ensinam sobre o homem -posto que se aceite que o seu coração é depravado, seus afetos corrompidos, seu entendimento obscurecido e sua vontade pervertida, então você terá de sustentar que, se uma pessoa assim tão miserável há de ser salva, essa salvação deverá ser efetuada pelo Espírito de Deus, e por Ele somente.

A IGREJA LOCAL


Por Pr. Silas Figueira
Comentando sobre este assunto, R.C. Sprou editor geral da Bíblia de Genebra diz que “cada igreja local é uma manifestação da única Igreja Universal e deverá incorporar a natureza dessa Igreja, como a família regenerada do Pai, o corpo ministerial de Cristo e a comunhão pelo Espírito Santo. No processo de separar-se da Igreja Católica Romana, os reformadores precisavam estar certos a respeito de quais seriam as marcas da Igreja verdadeira. Nas Escrituras, eles acharam a resposta em termos de dois critérios.

  1. A fiel pregação da Palavra de Deus. Isso significa que a Igreja ensina o evangelho cristão de acordo com as Escrituras. Qualquer grupo que nega a Trindade, a divindade de Cristo, a expiação pelos pecados ou a justificação pela fé somente se comporta como os separatistas dos tempos primitivos da Igreja, cuja negação da Encarnação (1Jo 4.1-3) levou João a dizer: “não eram dos nossos” (1Jo 2.19).
  2. O correto uso dos sacramentos. Esse critério significa que o Batismo e a Ceia do Senhor são usados e explicados como exposições do evangelho da fé em Cristo. Transformar esses Sacramentos em superstições que anulam a suficiência da fé em Cristo é solapar a identidade da Igreja, como qualquer outra coisa que obstrua a fé em Cristo. Um propósito do Batismo é identificar aqueles que são recebidos na Igreja visível. A Ceia do Senhor confirma, para os fiéis, sua condição de membros da Igreja e sua comunhão uns com os outros e com Cristo.1  

A Igreja, “Corpo de Cristo”, é perfeita e sem mácula, mas a igreja local ainda é formada por pessoas imperfeitas e que ainda não alcançaram a perfeição, pois ainda estão vivendo em um corpo que é carne; embora, em Cristo Jesus já tenham alcançado a salvação. Por isso que a igreja local ainda é um lugar lastimável. Pois nela, contudo, há sempre alguns (e frequentemente muitos) que vivem como parasitas. Os de fora veem apenas os parasitas e pensam que eles são a igreja. Isso não é verdade, assim como os pregos não são o casco do navio. Como disse Eugene Perteson: “Nenhuma igreja jamais existiu em estado puro. É composta de pecadores. As pulgas acompanham o cachorro”.2

A igreja é o lugar aonde vamos para descobrir o que estamos fazendo certo – lugar de afirmação. Mas a igreja é também o lugar onde buscamos saber em que estamos errando – lugar de correção. Na igreja, ansiamos ouvir as promessas – lugar de motivação. Nenhuma comunidade sobrevive sem qualquer das partes. Precisamos de afirmação, correção e motivação. 3 Essa tríplice orientação espiritual capacita o povo de Deus para viver em fé, confiante nEle, em ambiente hostil. O processo de afirmação, correção e promessa ou motivação é o que os gregos chamavam de paidea, processo complexo pelo qual a comunidade passa adiante sua paixão e sua experiência.4

As igrejas são o meio que Deus utiliza para unir as pessoas, para que entendam quem é o seu Senhor, quem elas mesmas são e, assim, desenvolvem relacionamentos coerentes com essas identidades. 

Cada mensagem começa com o Senhor dizendo: “Conheço...”, no grego oida. Cada mensagem demonstra conhecimento exato de tudo que acontece na congregação. A mensagem se desenvolve de acordo com os fatos econômicos, culturais e políticos da cidade e da igreja. A situação social externa e a situação religiosa interna se unem na mensagem formulada. O conhecimento dEle não é exterior, como seria o de um jornalista dedicado; é um conhecimento preciso do que significa viver como povo de Deus naquele lugar – conhecimento compreensivo do que implica, para eles, viver no nome de Jesus.5

COMO ASSIM [OUTRAS] COISAS?


Por Marcelo Berti
Será que Colossenses 1:16, 17 (ALA) exclui Jesus de ter sido criado, ao dizer “nele foram criadas todas as cousas . . . tudo foi criado por meio dele e para ele”? A palavra grega traduzida aqui por “todas” é pán‧ta, forma flexionada de pas. Em Lucas 13:2, ALA traduz isso por “todos os outros”; BV “os demais”; HR diz “todos os mais”. (Veja também Lucas 21:29 na BLH e Filipenses 2:21 na PIB.) Em harmonia com todas as outras coisas que a Bíblia diz a respeito do Filho, a NM atribui o mesmo sentido a pán‧ta em Colossenses 1:16, 17, de modo que reza, em parte, “mediante ele foram criadas todas as outras coisas . . . Todas as outras coisas foram criadas por intermédio dele e para ele”. Assim, indica-se que ele é um ser criado, faz parte da criação produzida por Deus.[1]
Muitas pessoas querem saber a verdade sobre quem Jesus é, e a frase acima demonstra exatamente isso. Algumas pessoas acham que Ele é o Criador de todas as [outras] coisas encontradas no universo. Ou seja, embora seja Ele um ser criado por Jeová, ele é criador com Ele de todas as [outras] coisas. Isso é exatamente o que lemos na citação acima, retirada do livro Raciocínios. Mas, será isso mesmo verdade?
Nossa primeira observação a esse argumento é que o adjetivo grego “pas” é usado 1243x em todo o Novo Testamento, e o autor está fundamentando sua tradução em três ocorrências. Em outras palavras, 1240 ocasiões são menos importantes que essas três. Ou seja, a tradução proposta pela TNM, seguindo o argumento desse autor, é fundamentada na exceção do uso do adjetivo “pas”. Nossa pergunta nesse ponto é: Isso é válido?
Para responder a essa pergunta, vamos analisar os exemplos que o autor oferece. Em Lc.13.2 lemos na TNM: “Ele lhes disse, assim, em resposta: “Imaginais que esses galileus se mostraram piores pecadores do que todos os outros galileus, porque sofreram tais coisas?”. Note que o termo galileus é usado duas vezes e que o texto faz clara distinção entre dois grupos distintos de galileus. Ou seja, o próprio texto estabelece um contexto em que o adjetivo “pas” não possa significar todos em absoluto, mas todos em distinção do grupo previamente identificado. Portanto, parece óbvio que o segundo grupo de galileus não é o mesmo do anterior, tendo a inclusão do termo “outros” ou não. Segue-se que, nesse caso o contexto exige tal inserção. Mas que dizer de Cl.1.16: nesse texto vemos esse indicativo?
Em Lucas 21.29 lemos na TNM: “Com isso contou-lhes uma ilustração: “Reparai na figueira e em todas as outras árvores”. Note que o caso é similar: Dois grupos distintos de árvores são contrastadas, as figueiras e as demais. Nesse caso, como no anterior, o contexto exige tal distinção. Será que tal exigência é vista em Cl.1.16?
Em Filepenses.2.21 lemos na TNM: “Pois todos os outros estão buscando os seus próprios interesses, não os de Cristo Jesus”. Novamente dois grupos contrastados: os cristãos e os demais. Novamente vemos que quando o contexto exige a distinção, o uso do termo “outros” na tradução não é um equívoco, mas uma necessidade. Mas, em Cl.1.16 vemos essa exigência e necessidade? Com que criação as “outras” coisas foram contrastadas?
Note que o autor responde a essa pergunta: “Em harmonia com todas as outras coisas que a Bíblia diz a respeito do Filho, a NM atribui o mesmo sentido a pán‧ta em Colossenses 1:16, 17, (…) Assim, indica-se que ele é um ser criado, faz parte da criação produzida por Deus”. Ou seja, o autor não encontrou no contexto do texto qualquer indicação de contraste sendo realizada, e de pronto, julgou necessário recorrer à sua teologia para justificar a versão da TNM. Note que tal autor nada apresenta sobre “todas as outras coisas que a Bíblia ensina”, apenas diz que o todo das escrituras afirmam que Jesus é Criado.
Vamos considerar, portanto, que tal autor entende o termo “primogênito” como um indicativo de sua criação. Aliás, pouco antes no mesmo texto ele atesta: “a Bíblia aplica esta expressão unicamente ao Filho. Segundo o significado costumeiro de “primogênito”, indica que Jesus é o mais velho da família dos filhos de Jeová[2]”. Segundo esse autor, o texto de Paulo utiliza o sentido costumeiro de “primogênito” e conclui que Jesus é a primeira criação de Deus. Entretanto, esse não é o único argumento em defesa da TNM, pois o autor completa:
“Antes de Colossenses 1:15, a expressão “primogênito” ocorre mais de 30 vezes na Bíblia, e em todos os casos em que é aplicado a criaturas viventes, tem o mesmo significado — o primogênito faz parte do grupo. “O primogênito de Israel” é um dos filhos de Israel; “o primogênito de Faraó” é um da família de Faraó; “os primogênitos dos animais” são eles próprios animais. O que faz com que alguns atribuam, então, um significado diferente a “primogênito” em Colossenses 1:15? O emprego bíblico, ou a crença à qual já se apegaram e para a qual procuram prova?”
Note que o autor descarta a possibilidade de outro sentido para o termo primogênito afirmando que os que o fazem prestigiam sua teologia e não as escrituras, pois, segundo ele, o termo primogênito nunca é usado nas escrituras nesse sentido. Todavia, essa afirmação não é verdadeira. Devemos ainda lembrar o leitor que o termo grego para primogênito é usado diversas vezes na Septuaginta e nem sempre é usada no sentido usual que o autor propõe. Por exemplo, em Gn.4.4 o termo é usado descrever a parte mais importante de um rebanho. Em Ex.4.22 o mesmo termo grego é usado, muito embora o sentido auferido descreva o relacionamento de Israel para com Deus. Em Ez.44.30 vemos a mesma idéia de Gn.4.4, que trata da parte mais importante de uma plantação que deveria ser ofertada aos sacerdotes. Mesmo no Novo Testamento vemos o texto de Hb.12.23 cujo o uso do mesmo termo é feito com diferente do proposto pelo autor da STV. Mas, devemos lembrar que, realizar essa análise e ignorar o modo como Paulo usa esse termo, de nada adianta, afinal, não procurarmos saber a definição de “primogênito”, mas o modo como Paulo usa o termo.
Por isso, observe que Paulo além de chamar a Cristo de “primogênito de toda criação” (v.15), também o chama de ”primogênito dentre os mortos” (v.18). Nesse momento percebemos que Paulo não está fazendo uso do termo do modo costumeiro, visto que ninguém poderia ser o primeiro nascido dentre os que morreram. Isso não faz qualquer sentido. Ao que o contexto (textual) de Cl.1.16 indica, o termo primogênito não está sendo utilizado no sentido q de filho que tem a primazia sobre a herança do Pai, conceito recorrente na teologia de Paulo (Rm.8.17; Gl.3.29; 4.7; cf. Hb.1.2).
Além disso, devemos lembrar que não encontramos no texto de Cl.1.16 nada que demonstre que o termo “toda criação” esteja em contraste com o termo primogênito. Ou seja, ainda que o significado do termo seguisse o modo usual defendido pela STV, não encontramos a mesma necessidade da inserção do termo “outras” como vemos nos textos usados como exemplo pelo autor. Portanto, concluímos que tal inserção é desnecessária e motivada por teologia.
O problema da interpretação proposta nesse parágrafo é sua contradição explícita com outro verso das escrituras, que na TNM é lido assim: “Todas as coisas vieram à existência por intermédio dele, e à parte dele nem mesmo uma só coisa veio à existência” (Jo.1.3). Observe que no desejo de defender Jesus como criatura, o autor acabou entrando em franca contradição com Jo.1.3 que diz que Jesus é o responsável pela existência de todas as coisas, e que SEM ELE nada do que existe veio à existência. Ou seja, se Jesus foi criado, segundo Jo.1.3, isso significa que Ele se criou, o que é impossível.
O grande mal de assumir que as inserções são de fato texto inspirados é construir teologia e ensinar baseado nessa inserção. Observe o que lemos na obra Estudo Perspicaz:
Jeová também mostrou amor ao conceder ao seu primeiro criado Filho espiritual o privilégio de participar com Ele em todas as demais obras criativas, tanto espirituais como materiais, fazendo generosamente com que este fato se tornasse conhecido, com a honra resultante para seu Filho. (Gên 1:26; Col 1:15-17) Assim, não receou tibiamente a possibilidade duma competição, mas, antes, demonstrou inteira confiança em sua própria Soberania legítima[3]
Observe que o texto já inicia com a declaração de que Cristo é criado e que foi convidado a criar as outras coisas, debaixo da autorização do Pai. Contudo, o fundamento para essa afirmação teológica, segundo esse autor, é o próprio texto de Cl.1.16. Ou seja, Jesus é criado e co-criador por que Cl.1.16 diz. Note que a distorção já não precisa ser analisada, apenas apresentada. Porém, vemos nessa afirmação a teológica ser construída sobre um termo que não faz parte do texto do apóstolo Paulo, mas trata-se de uma inserção da STV. Ou seja, mais uma vez o texto do apóstolo Paulo tem pouco valor, o que importa é a inserção e a promoção da teologia da STV. Os Testemunhas de Jeová que leram essa citação e abriram suas TNM para verificar as citações, entenderam que tal afirmação era verdadeira pois estava nas escrituras. Mal sabem eles que foi tal teologia que colocou tal idéia na TNM.
Portanto, devemos admitir que colocar o termo [outras] no texto de Cl.1.16 não é justificado pela gramática do texto, pela semântica do termo grego “pâs” no uso que é feito nesse texto, e que tal inclusão faz com que o significado do texto entre em conflito com outras passagens da escritura (Jo.1.3). Segue-se que não parece justificada a tentativa de chamar Jesus Cristo de um ser criado, por que a Bíblia ensina que Ele é Criador.

O Deus que Se recusa entrar na caixa



Existe uma expressão muito conhecida, especialmente entre os teólogos, que diz: “É impossível colocar Deus numa caixinha”. Com essa expressão, queremos dizer que Deus está tão além da compreensão humana, que é impossível propor uma definição que consiga exaurir todo o ser divino.
O problema é que na prática as coisas não funcionam de forma tão simples assim. Depois de passar anos debruçado sobre livros, respirando todos os ácaros das bibliotecas, dissecando as Escrituras nas línguas originais, e aprendendo todos os tipos de categorias teológicas, o teólogo começa achar que Deus é como aquela namorada que conhecemos muito bem. E por isso, ele conclui que pode definir com toda segurança a essência divina. Ele passa a crer que é um especialista em Deus, e que é capaz de explorar e definir a pessoa e o modus operandi divino. Entretanto, este indivíduo “cai do cavalo” quando Deus aparentemente contradiz o seu bairrismo teológico. Ele fica sem respostas quando seus credos não mais explicam, suas categorias não mais comportam e suas definições não mais resumem.
Jó, o personagem bíblico, e seus amigos teólogos sofrem desse mal. São indivíduos que diante de uma aparente incoerência divina, debatem, replicam, treplicam, mas o fato é que suas categorias teológicas não conseguem explicar o que está acontecendo na prática. Observemos com mais cuidado.
O livro de Jó nos apresenta um cenário em que tudo faz sentido, onde todas as categorias teológicas funcionam bem direitinho. Jó, um homem piedoso, justo e temente a Deus, goza abundância, prosperidade e felicidade. Do ponto de vista teológico, tudo bem! Afinal de contas, nada mais normal do que ver Deus abençoando um homem justo e piedoso.
Agora, o castelinho de cartas das categorias teológicas simplesmente desmorona, quando Deus decide sair da caixinha e permitir que as maiores atrocidades aconteçam na vida de um homem justo e piedoso. De repente, Jó perde a fortuna, filhos e a saúde. E agora, José? Como explicar um quadro como esse? Se Deus é bom, soberano e justo, por que ele permite tamanho mal? Por que existem crianças morrendo de fome na África? Por que pessoas piedosas morrem nas filas dos hospitais do SUS? Por que tsunamis e terremotos varrem países matando milhares de pessoas? E pior, por que Deus permite que o traficante, o político corrupto, o mafioso viva uma vida regalada, feliz e próspera? Por que o mundo é caótico e tudo parece fora dos eixos?
Diante deste quadro, todos os personagens do livro de Jó vestem a toga teológica e começam um debate, numa tentativa de colocar Deus de volta na caixinha. A mulher de Jó é uma teóloga epistemologicamente empiricista e conclui: “Deus é injusto”; Os três amigos de Jó são teólogos racionalistas e concluem: “Jó, você está sendo punido por Deus!”; Eliú, o amigo mais novo e aparentemente o mais centrado, baseado numa epistemologia um tanto existencialista, conclui: “Ei, velharada, vocês estão errados. Jó sofre porque Deus quer ensinar algo a ele”.
Depois que todos os teólogos debateram, que o dispensacionalista brigou com o aliancista, que o calvinista “quebrou o pau” com o arminiano, que o reformado cutucou o evangélico, e todos os tipos de categorias foram expostas e defendidas, Deus decide entrar na parada. E a resposta da parte de Deus pode ser resumida com a seguinte frase: “Estou pouco me lixando para suas categorias teológicas”.
Sim! O discurso divino não chega nem perto de ser considerado uma resposta aos questionamentos e categorizações do teólogo Jó. Deus não se preocupa em prestar contas e dar satisfações de todos os pormenores de seu governo. A “não-reposta” de Deus às interrogações da mente de Jó deve ser lida assim: “Amigo, a maneira como me conduzo e governo o universo não é da sua conta”. Robert Alter emThe Art of Biblical Poetry (Basic Books) sugere de forma brilhante que ao invés de responder os questionamentos de Jó, Deus sarcasticamente o questiona acerca da sua habilidade em produzir relâmpagos, fazer o sol nascer, derramar a chuva, estabelecer os limites dos oceanos, etc.
Além disso, Deus não somente se revela soberano sobre a criação, mas também sobre o caos (uma clara figura teológica para a ausência do bem). O “Beemote” (Jó 40.15 בהמות) e o “Leviatã” (Jó 41.1 לויתן) são símbolos do caos na literatura bíblica e cananita (ver John Day, God’s conflict with the Dragon and the Sea). Assim, Deus revela seu governo sobre o mundo e sobre todas as forças que são contrárias a ordem criada e estabelecida.
Embora não seja da alçada de Jó compreender todas as operações da justiça divina, ele é convidado a confiar no Criador da ordem, no Senhor das forças cósmicas, naquele que tem poder para suprimir o caos que invadiu sua vida e restaurar a ordem natural dos eventos de sua experiência.
Portanto, não é papel do teólogo tentar categorizar o ser divino ao tentar forçá-lo dentro de uma caixinha teológica. Simplesmente, porque Deus se recusa entrar na caixa. Sua tarefa é nada mais do que o privilégio de vislumbrar a majestade do Criador e deixar ser vencido por seu poder e soberania.

As duas religiões cristãs


Por Maurício Zágari

Tempos atrás eu ficava muito chateado quando alguém criticava o termo “religião”. Pois eu sempre entendi “religião” como algo bom, uma comunicação com Deus, um relacionamento pessoal com o Senhor – a partir da raiz latina “religare”. Por isso eu lia ou ouvia pessoas amaldiçoando a “religião” e aquilo me incomodava profundamente. Tenho lido alguns bons livros. Tenho tido algumas experiências. E hoje posso dizer que entendo os que criticam a “religião” e não me chateio mais. Na verdade, até concordo com eles e por uma simples razão: finalmente compreendi que, em nossos dias, o termo “religião” (e seus cognatos) ganhou dois significados diferentes. O fenômeno é igual ao que ocorre com palavras como “manga”, que pode se referir a uma fruta ou a um pedaço da minha camisa; como “casa”, que pode ser a construção onde moro ou o local onde prendemos o botão da calça; como “pena”, que pode ser “dó” ou uma parte da asa de um pássaro. Sim, atualmente, a mesma palavra, “religião”, também ganhou significados bem diferentes – um positivo e outro negativo. Vamos falar sobre eles.
Primeiro o positivo. Algum tempo atrás estava conversando com um amigo e ele usou uma metáfora muito interessante. Ao falar sobre pecado e restauração, usou a imagem do fio de algum aparelho eletrodoméstico que é arrancado da tomada. Isso é pecado. Deus é a fonte de energia, a fonte de vida, a tomada. Nós somos o eletrodoméstico. Enquanto estivermos ligados a Deus, “conectados à tomada”, fluirá dele para nós a “eletricidade”, a vida, aquilo que nos permite funcionar. Assim, do mesmo modo que uma televisão precisa estar ligada à tomada para ter razão de ser, para cumprir o propósito para o qual foi criada, para termos vida nós precisamos estar ligados ao Senhor. Só assim teremos razão de ser, cumpriremos o propósito para o qual fomos criados.
Portanto, quando pecamos, é como se nosso fio fosse arrancado da tomada. Perdemos a conexão. Não estamos mais ligados ao Pai. Por isso, precisamos nos re…ligar a Deus. Isto é, nos ligar novamente à fonte de vida. Religar. Essa é a origem do termo “religião”: vem do latim religare, que se refere a essa religação. Portanto, sempre que você ouvir falar de “religião” no sentido da “religação entre o pecador e Deus”, sorria! Esse é um bom significado. Essa é a boa religião. E não deve ser criticada ou amaldiçoada. Nesse sentido, “religiosa” é somente uma pessoa que foi reconectada a Cristo. E glória ao Senhor por isso: bendita a religião, que permitiu que a graça transformasse o pecador em um religioso.
Mas existe também o sentido negativo. Aos olhos de muitos, o termo perdeu o sentido original de “religação”. E hoje entendo isso. O exemplo maior do conceito negativo de “religião” está na parábola do bom samaritano. Sei que você já leu essa passagem milhares de vezes, mas o convido uma vez mais para dar atenção a esse relato, registrado em Lucas 10:

Religião3
“[Certo intérprete da Lei] perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? Jesus prosseguiu, dizendo: Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e veio a cair em mãos de salteadores, os quais, depois de tudo lhe roubarem e lhe causarem muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia um sacerdote por aquele mesmo caminho e, vendo-o, passou de largo. Semelhantemente, um levita descia por aquele lugar e, vendo-o, também passou de largo. Certo samaritano, que seguia o seu caminho, passou-lhe perto e, vendo-o, compadeceu-se dele. E, chegando-se, pensou-lhe os ferimentos, aplicando-lhes óleo e vinho; e, colocando-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e os entregou ao hospedeiro, dizendo: Cuida deste homem, e, se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores? Respondeu-lhe o intérprete da Lei: O que usou de misericórdia para com ele. Então, lhe disse: Vai e procede tu de igual modo.”

Repare: aquele sacerdote e aquele levita (que passaram ao largo, não deram a mínima para quem estava ali, caído, e foram cuidar da própria vida) são “religiosos” – no pior sentido. Eles cumprem tudo o que a religiosidade estipula, obedecem as normas do eclesiasticismo (não procure essa palavra no dicionário, é um neologismo meu)… enfim, aos olhos dos homens aquele sacerdote e aquele levita são servos corretíssimos de Deus. Seguem a cartilha da fé ao pé da letra. Só que tem um porém: em seu coração eles não amam o próximo. Isso é o sentido negativo que o conceito de “religião” ganhou em nossos dias: é o estilo de vida de quem exteriormente é o supra sumo da espiritualidade, mas por dentro é cheio de desamor. É exatamente o que Jesus chamou de um “sepulcro caiado”. Pois Jesus define o “sepulcro caiado” como alguém que parece justo por fora mas por dentro está cheio de hipocrisia e maldade – o que, pelo meu entendimento, é resultado direto da falta de amor.

Tiago 1.27 diz: “A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo”. A palavra, no original grego, traduzida aqui por “religião”, é thrēskeia, que tem exatamente o sentido do cumprimento de práticas litúrgicas, de normas e regras ditadas pela fé, de observâncias cerimoniais. O irmão de Jesus estava fazendo uma alusão direta aos fariseus e outros mestres da Lei, explicando que tudo aquilo que eles cumpriam como parte de sua religiosidade (rituais, obediência à Lei, liturgias, cumprimento de festas e sábados e tudo o mais) era inútil se eles não tivessem amor pelo próximo. E não só amor como sentimento, mas amor demonstrado de forma prática. Pois era tão importante buscar a santidade e fugir da contaminação do pecado como esforçar-se e sacrificar-se pelo bem-estar do próximo – como fruto do amor.
Religião no sentido da “religação” com Deus é algo bom, imprescindível e, mais do que tudo, é um privilegio concedido por Cristo a nós. Quando ele morreu na cruz e o véu do templo se rasgou, o que aquilo quis dizer foi: “Não há mais impedimentos, você pode se ligar diretamente ao Pai”. Por outro lado, religião no sentido de viver uma vida de práticas, cumprimento a regras e obediência aos mandamentos bíblicos mas sem demonstração de amor ao próximo é o que há de mais nefasto. Os samaritanos não faziam nada do que os sacerdotes judeus faziam em termos litúrgicos, mas foi precisamente o gesto de amor do samaritano pelo próximo que lhe rendeu elogios de Cristo. Não foi ter ido ao culto, evangelizado, louvado da forma “certa”, pregado um bom sermão, seguido as liturgias e datas santas…nada disso. Fazer essas coisas é ótimo – e devemos fazer – mas não foi isso o que fez Jesus destacar a atitude do samaritano. O sacerdote cumpria a cartilha da fé ao pé da letra, mas deixou o próximo pra lá e foi cuidar da própria vida e tratar dos próprios interesses. E esse, aos olhos de Jesus, é “raça de víboras”.

Os elogios de Jesus foram pelo amor demonstrado ao próximo.

Que Deus nos livre de nos tornarmos “religiosos” no mau sentido. Se cumprirmos tudo o que a cartilha do crente determina mas nosso coração não tiver amor pelo próximo… estamos mal na fita. Peço ao Senhor que nos amemos uns aos outros de fato. Que haja mais pregações sobre isso. Que se cante mais sobre isso. É simples, não exige grandes teologias: amar o próximo é fazer por ele o que gostaríamos que fizessem a nós. Uma criança entende o conceito.
Deus queira que nunca aconteça com você. Mas, se um dia ocorrer de você estar caído, ferido, à beira da estrada, peça ao Senhor que passe por ali o religioso que foi religado a Deus e não o religioso que só cumpre os eclesiasticismos. Senão, meu irmão, minha irmã, você ficará jogado às traças, à chuva e ao desamor de gente que diz amar a Deus mas deixa você caído à beira do caminho, implorando por socorro.
Mais do que isso: que o religioso que deixa os outros largados para lá nunca sejamos você e eu. Pois, se formos assim… que Deus tenha misericórdia de nós.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Mauricio