Por Jorge Fernandes Isah
Lendo o livro do Dr. Jay Adams,
"Manual do Conselheiro Cristão"
1,
percebi que ele bate repetidamente na mesma tecla: de que à parte da
Escritura é impossível qualquer mudança ou cura espiritual.
O
homem poderá se debater e se bater com diversas metodologias, desde as
pretensamente mais científicas até as não-científicas; porém, sem que se
creia nas orientações da Bíblia, a mudança mais radical, o novo
nascimento, é inatingível; visto essa condição somente ser possível pelo
poder do Espírito Santo o qual nos predispõe, transformando a antiga
natureza em uma nova natureza, para que sejamos capazes de seguir o Seu
norteamento.
Desta
forma o não-crente somente terá uma esperança viva e verdadeira se,
pela operação divina, converter-se à fé no Evangelho de Cristo. De outra
forma, andará em círculos, amenizando aqui e acolá seus problemas, que
"volta e meia" retornarão, sem que haja uma solução. São placebos sem
nenhuma eficácia, o mesmo que tomar comprimidos de açúcar (que podem
matar ao invés de curar, se a pessoa for diabética, p.ex).
Outra
posição do Dr. Adams é a da necessidade de confrontação com o cliente
(a utilização do termo se dá pelo fato do autor não ver o aconselhado
como paciente). Enquanto ele não souber claramente qual é o seu
problema, e esse problema não for tratado através do arrependimento e do
perdão (sobretudo o arrependimento diante de Deus para receber o Seu
perdão); confrotado pela sua natureza caída e a de seus semelhantes (a
impiedade humana) diante da graça divina, esse homem será um homem sem
esperança.
Ao
contrário, se tiver a mente de Cristo, e for inundado por ela,
aprenderá a viver uma vida relativamente desprovida de raízes neste
mundo, e isso será uma imensa alegria, pois viverá como se peregrino e
estrangeiro fosse. Como definiu o autor: "Toda mudança prometida por
Deus é possível. Toda qualidade requerida por Deus, da parte de Seus
filhos remidos, pode ser atingida. Deus supriu cada recurso para tanto
necessário... sua pátria está nos céus (FP 3.20), e, por isso, há
esperança de alegre mudança no aconselhado pela graça de Deus"2.
A
mudança na crença do que é o homem a partir de conceitos "mascarados"
pelo próprio homem, como a sua bondade inerente, a sua animalidade
inerente, a sua irresponsabilidade inerente, a relatividade das relações
e da moral, tornam em infrutíferas, perniciosas e catastróficas a
metodologia humana para se tratar os desvios e os problemas espirituais
(inorgânicos). A abordagem não-cristã é inútil e apenas escravizará o
"doente" numa espécie de redoma que o próprio método o direcionará e
aprisionará.
Por
exemplo, existe a abordagem do conhecimento do especialista
(freudianismo) em que o aconselhamento somente deve acontecer por
métodos e técnicas apropriadas (segundo eles). Nela os problemas são
resultados dos eventos externos ocorridos na vida do cliente, o que
retira do cliente qualquer responsabilidade, pois os fatores que o
levaram ao problema decorrem das ações de outras pessoas. Interessante
que esse método tende a "inocentar" o cliente e a culpabilizar quem vive
ao seu redor. E, assim, o indivíduo vive num círculo vicioso onde a
culpa dos seus problemas se deve à socialização deficiente, onde o
cliente sempre será a vítima, e as outras pessoas com quem conviveu em
seu passado ou mesmo no presente, são os criminosos. E isso
determinou-lhe uma consciência rígida (superego), a qual se encontra em
conflito com os seus desejos normais (id), levando-o às dificuldades, à
sua não adaptabilidade, gerando os vários e duradouros conflitos da
vida.
Portanto,
o perito terá de desfazer aquilo que os outros fizeram, reverter esse
quadro pela psicanálise, retrocedendo ao passado do cliente, fazendo-o
reviver pessoas e situações desagradáveis, a fim de torná-las, durante
as sessões, agradáveis, reestruturando o sistema de valores do
aconselhado. Esse método é longo e está envolto em um emaranhado de
especialização que torna o psicanalista em uma espécie de "super-homem"
com todos os poderes sobre o cliente. Ele cria uma dependência e um
vínculo que impedem o paciente até mesmo de decidir sobre si mesmo, pois
muitos são internados por ordens desses mesmos peritos, que controlarão
a sua vontade e desejos tornando-os em corpos sem almas.
Da
mesma forma, ainda que o padrão seja diferente, o behaviorismo de
Skinner, se posiciona como a escola de modificação comportamental
baseada no empirísmo. Para eles, o homem é apenas um animal, e, por
isso, produto do seu meio ambiente. Novamente, temos uma causação
externa ao cliente. Ele não é culpado por seu comportamento nocivo, o
qual é somente consequência do seu convívio social.
Para
Skinner, falar ao menos em responsabilidade é uma insensatez. "A
solução aventada por Skinner consiste em descobrir cientificamente as
contingências relacionadas à conduta 'deficiente' (todos os julgamentos
de valores fazem parte da mitologia), para então, com base nos informes
obtidos, reagrupar as contingências ambientais, a fim de reprogramar as
reações do paciente. Isso é feito mediante o uso de recompensas e
controles que provoquem a aversão"3.
Em outras palavras, seria o mesmo que domesticar o homem como se
domestica um cão selvagem, treinando-o para fazer exatamente o que o
"dono" quer. Porém, ao meu ver, os animais foram criados por Deus para
servirem ao homem; e, especificamente neste caso, o que vemos é o homem
no mesmo nível dos animais, servindo a um grupo elitista que se
considera como um semi-deus. Desta forma, o método utilizado não é o da
confrontação bíblica, mas o da manipulação, ao qual muitos
aconselhadores cristãos se submeteram (p.ex., Dobson).
Para
ele, o homem é tão destituído de valor quanto qualquer animal; e assim,
podem fazer do homem qualquer tipo humano desejado, começando pela
manipulação genética e então estabelecendo as contingências ambientais
desejadas. O objetivo é o de criar rebanhos, como gado. Mas, mesmo entre
peritos tão obstinados, não há unidade, e determinar o que quer que
fosse seria impossível, visto não haver valores fixos, nem padrões, pois
tudo é relativo, está a ser descoberto ou mesmo pode não ser o
desejado.
Da
mesma forma outras abordagens seguem o mesmo padrão de controlar,
dominar e aprisionar os clientes aos seus métodos. Não há desejo real de
libertá-los.
Sem
o uso das Escrituras, sem a conversão, sem o arrependimento, sem que o
Espírito Santo atue no homem, sem a santificação, sem a confrontação
bíblica, sem que a criança seja ensinada nos caminhos do Senhor, todos
esses métodos se tornam em uma louca prisão, onde o cliente não obtém
cura, e necessita constantemente estar "conectado" ao especialista e sua
metodologia, sem que muitas vezes se saiba exatamente o que ele tem,
nem como "curá-lo".
Uma
boa dica de série televisiva é Monk, cujo personagem sofre de
transtorno compulsivo, o chamado "toc", e se mete em hilárias situações
(ainda que a série faça da psicanalise uma "válvula de escape"; de onde o
personagem não consegue escapar, e se mantém completamente dependente,
preso ao método).
Há
outras como Criminal Mind e Lie To Me (nitidamente adeptas do método de
Skinner) que abordam o homem a partir do seu comportamento. Em última
análise, eles sempre poderão solucionar os casos criminosos baseados na
personalidade, no seu passado, e em suas relações. Acontece que sendo o
próprio homem quem investigará esses elementos, assegurar que ele os
compreenderá e solucionará é impossível. Como séries policiais, elas não
se propõem a garantir a cura do cliente (nem estão preocupadas com esse
aspecto), mas apenas descobri-lo, revelando-lhe a identidade através
dos crimes. Mesmo que o objetivo seja minimamente alcançável, tenho
dúvidas da sua eficácia.
Outra
interessante série no campo psicológico voltada para os animais é o
Encantador de Cães, ainda que esteja fundida a uma crença holística
(espiritualista panteísta), mas que também analiza os comportamentos dos
humanos, no caso, os donos, a partir do mesmo princípio em que os
animais são examinados.
Voltando
ao Dr. Adams, ele se posiciona frontalmente contra os métodos
anticristãos, os quais, perpassados por técnicas esotéricas, obscuras,
não revelam a verdade do paciente, nem o colocam em contato com a
realidade, sua e do mundo em que vive. Pelo contrário, eles o
transportam para um mundo paralelo, onde não há solução, apenas
contemporização e uma cura intangível.
Com o alicerce sólido [a
Escritura] o crente poderá erguer uma metodologia cristã coerente com o
alicerce; enquanto o incrédulo sempre distorcerá esses aspectos com seus
pecados e sua posição não-cristã de vida. Porém, o conselheiro cristão
poderá trazer à luz a verdade obscurecidamente refletida pelo incrédulo a
partir dos princípios e metodologia bíblicos. Ele jamais deverá buscar e
incorporar a esses princípios e metodologia elementos alheios e
antibíblicos. Técnicas que aparentemente são eficazes somente o
distanciarão ainda mais da eficiência escriturística.
Infelizmente
o eclético e o cristão "moderno" (diga-se pragmático e liberal) partem
da premissa de que não existe base bíblica que sirva de alicerce, e,
invariavelmente, pegarão tudo de que dispoem à mão para tentar construir
algo que funcione, mas que ao final, será apenas um trabalho sem
efeitos reais e verdadeiros.
Na
ânsia de se obter resultados a qualquer custo, esquece-se de que há
somente um caminho que o assegurará: a sabedoria e o conhecimento
bíblico com o qual o homem é transformado à imagem de Cristo. Em sua
rebeldia, o que o homem faz é afastar-se de Deus, e buscar em si mesmo o
deus (in)capaz de curá-lo.
O
crente não pode agir como alguém que ao final não tem nada, quando Deus
lhe deu tudo, tanto o alicerce como os materiais a fim de construir um
sistema bíblico.
O pressuposto principal é o da inspiração divina da Escritura, a qual tem o poder de:
1) Ensinar, estabelecendo normas de fé e de vida.
2) Repreender, mostrando de modo convincente aos crentes que errarem, como e de que forma estão vivendo no erro.
3) Corrigir, endireitar novamente a partir das Escrituras a fim de que o crente se firme outra vez.
4)
Disciplinar na justiça, pois as Escrituras permanecem operando em nós,
estruturando-nos na disciplina diária, conduzindo-nos à piedade.
Esses quatro usos das Escrituras delimitam quatro atividades básicas do aconselhamento bíblico:
1)
Atividade aquilatadora, o crente, alicerçado na Bíblia, não encontra
dificuldade alguma em fazer juízo sobre as questões. Por exemplo, a
Bíblia diz que o homossexualismo é pecado. Para o crente, a questão está
resolvida.
2)Atividade
convencedora, na qual a Palavra revelará o padrão divino de santidade a
fim de que haja arrependimento do aconselhado, e não uma busca
infrutífera por um alívio. Condutas pecaminosas sempre trarão
consequências danosas às vidas das pessoas; logo, o conselheiro, ao
invés de minimizar ou contemporizar o pecado, deve mostrá-lo, levando o
cliente à convicção de sua rebeldia. Somente a ação do Espírito Santo
mediante a Palavra poderá ajudar o aconselhado a buscar o "reino de Deus
e a Sua justiça", através da qual ele experimentará o verdadeiro alívio
e a verdadeira felicidade.
3)Atividade
Transformadora - As escrituras, eminentemente práticas, levarão o
crente não somente a reconhecer o seu pecado, mas a como ser restaurado,
recuperado do pecado. A Bíblia deve ser usada de modo prático, da forma
como Deus tencionou que fosse empregada.
4)Atividade
Extruturadora - O discipulado através da disciplina no ensino regular e
ordenado da Palavra, pela Palavra, tornará o crente habilitado para
toda a boa obra; porque não há nada que o homem de Deus não esteja
adequadamente preparado pelas Escrituras.
Portanto,
a metodologia a ser aplicada no aconselhamento não pode ser o
ajuntamento e colagem de toda espécie de coisas à Bíblia, e sim, usarmos
os recursos do conhecimento divino no aconselhamento, através do estudo
árduo e contínuo das Escrituras.
É
preciso conhecer os problemas humanos, e descobrir as respostas dadas
por Deus. E o único método é através do estudo e ensino das Escrituras.
Para
completar, o aconselhamento cristão é uma prerrogativa de qualquer
crente, mas, sobretudo, ele tem de vir sob a autoridade investida por
Cristo e a Igreja; portanto, segundo Adams, é função primordial dos
pastores, os quais são preparados escrituristicamente para tal, e
outorgados por Deus e a Igreja para cumprirem essa missão, como vocação
especial.
Infelizmente,
do último século para cá, o aconselhamento tem sido adotado
secularmente por profissionais da área médica; e os médicos devem se
ocupar exclusivamente com os problemas orgânicos, ou seja, com a saúde
física do homem. Assim, "não há lugar, no esquema bíblico, para o
psiquiatra como médico de especialidade separada. Essa casta, que a si
mesmo se nomeou, veio à existência ante a expansão do guarda-chuva
médico a fim de incluir as doenças inorgânicas (qualquer que seja o seu
sentido)"4.
Ao
investirem-se de prerrogativas as quais não lhe cabem, como as do
psicólogo e psiquíatra, eles deixam de cumprir verdadeiramente a sua
missão para tornarem-se em ministros seculares, metade médico (uma parte
insignificante) e metade sacerdote secular (uma parte avantajada),
corrompendo todo o objetivo do aconselhamento e, por conseguinte, da
medicina. Até porque muitos vêem o aconselhamento como uma forma de
não-aconselhamento, relativista, em que o aconselhado é estimulado a
falar ao invés de ouvir, onde não se busca o resultado objetivo (no caso
do crente, a santificar-se e amoldar a sua imagem à de Cristo