Por Jorge Fernandes Isah
Não
tenho por hábito transcrever diálogos pessoais, mas recebi o pedido de
ajuda de um irmão. Orei, e respondi-lhe. Alguns dias depois, escreveu-me
aflito por cair novamente no pecado. Eis suas palavras:
“Preciso
de uma mudança, eu não quero servir Jesus desse jeito, com pecado; eu
lembro da passagem que fala de Acã e seu pecado escondido fez o arraial
de Deus regredir. Eu faço a obra de Deus, prego, evangelizo, mas peco.
Por favor, me ajude eu preciso restaurar o temor que eu tinha no meu
primeiro amor, o medo de pecar é algo que eu já perdi, mas quero
recuperar isso”.
A minha segunda resposta:
É difícil ajudá-lo a distância, sem conhecê-lo. Mas se esta é a vontade de Deus, que assim seja.
O
ideal é que você tivesse um irmão maduro na fé, alguém que pudesse
auxiliá-lo, como lhe disse, alguém com o qual convivesse, que estivesse
próximo. Preferencialmente, procurando o auxílio do seu pastor. Sei como
são essas coisas de timidez, pois também sou tímido, e não gosto de me
expor. Mas você tem de entender que, no caso da Igreja, como membro do
Corpo, faz o Corpo sofrer, ainda que os irmãos não saibam. Pois Cristo,
como a cabeça, sabe. Paulo descreveu a situação assim: “de
maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e,
se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele" [1Co
12.26].
Depois que lhe escrevi, tenho orado por sua
vida e pedido a Deus que o liberte desse vício e pecado, e meditado na
sua situação. Como contei, fui viciado em pornografia e sexo por muitos
anos, até a minha conversão, e sei como esses pecados nos controlam e
dominam. No início, quando da conversão, há uma parada abrupta em nosso
comportamento pecaminoso, é como se não houvesse nenhum desejo e vontade
em pecar. Acontece
que a nova natureza em Cristo faz com que a natureza carnal fique
adormecida. Nessa fase, somos apenas de Cristo, queremos ir aos cultos,
fazer evangelismo, ler a Bíblia, orar e falar de Jesus para todas as
pessoas de uma forma inimaginável, quase compulsiva.
Então progressivamente perdemos esse "furor"
inicial, e acontece da nossa antiga natureza ressurgir pouco a pouco.
Começamos a ouvir músicas seculares, a ver tv, cinema, e tantas outras
atividades tal qual antigamente. Voltamos aos antigos amigos, e
consideramos que já somos fortes o suficiente para enfrentar o mundo. Paulo foi claro ao nos alertar: “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” [1Co 10.12].
Logo, começamos a olhar para as mulheres com um olhar diferente, quase
como no passado, e sentimos desejos de ver o que é proibido, e de
atentar para o proibido. O pecado nos atrai novamente, e somos atraídos
por ele. Então, meu irmão, só há duas opções:
1) Nos rendemos ao pecado, e pecamos, ainda que depois venha o arrependimento.
2) Resistimos ao pecado, mesmo sabendo que Deus é misericordioso para nos perdoar.
O
problema não é o pecado em si, ele é conseqüência do nosso
relacionamento com Deus, ou da falta dele. Naquele momento, Deus é menor
do que o desejo de pecar. Naquele momento, o pecado [seja qual for] é o
meu deus. A questão é: amo o Senhor verdadeiramente a ponto de
considerar não pecar, e não pecar quando tentado? Ou o meu amor é
insuficiente para resistir ao pecado? [lembrando-me do novo-nascimento, a
velha natureza estava soterrada, inativa, pela nova natureza. O que
precisamos fazer é soterrar novamente a antiga natureza, e com ela, as
práticas pecaminosas].
O
mais importante é não gastar tempo ouvindo a própria voz. Ela lhe trará
uma gama de ilusórias desculpas, que podem trazer alívio momentâneo,
mas jamais o curará. De uma forma ainda pior, poderá cauterizá-lo e
colocá-lo em uma posição de acomodação ao pecado. Ouça a voz de Deus, o
qual fala pela Escritura Sagrada. Não canse de repetir para si mesmo:
pornografia é pecado! E, ao crente, somente há uma forma de se
relacionar com o pecado: rejeitando-o, derrotando-o, impedindo-o de se
levantar da sarjeta, do monturo.
Não
se engane com as mentiras que diz e já tem preparado para a ocasião,
elas somente o manterão escravizado. Antes não rejeite a verdade, e se
lance humildemente aos pés do Senhor. Diante dEle não há como nos
exaltarmos e pecarmos [a tentativa soberba do homem em se sobrepor a
Deus, de se exaltar acima dEle, como se isso fosse possível]. Diante
dEle estaremos sempre humilhados, submissos, e em posição de não-pecado,
não-autoglorificação, de não-rebeldia, mas de submissão, negação a si
mesmo, de reconhecimento da nudez, pobreza, cegueira e iniqüidade
humanas; e necessitados da Sua graça e sustento físico-espiritual. Como
João o Batista disse: “É necessário que ele cresça e que eu diminua” [Jo 3.30].
Não
deixe a mentira tomar conta da sua mente, e dizer que você é o que
jamais foi. Leia e medite na verdade, a Bíblia, através da qual Deus nos
fala e nos ensina a trilhar os caminhos santos para os quais Cristo nos
chamou, capacitando-nos pelo poder do Espírito Santo.
Por
que não devo pecar? Por que é uma ordem? Ou por que o meu amor a Deus é
tamanho que não transgredirei a Sua ordem? Veja bem, não pecarei não
porque estou com medo da punição [se fosse assim, ninguém pecaria], mas
não pecarei porque amo ao Senhor de tal forma que o meu amor não me
permitirá ceder ao pecado. Se o meu coração estiver cheio, repleto de
Deus, não haverá lugar para pecar. Como digo sempre: onde há amor, não
há pecado. Onde há pecado, não há amor.
A masturbação, especificamente, não é um pecado instantâneo. Ela não acontece por um impulso incontrolável, por um "repente", como se diz aqui em Minas. Ela
é progressiva, um processo. Primeiro você se entrega ao deleite de
olhar ou imaginar formas femininas, depois não se contenta apenas em
imaginar, mas há a cobiça, o desejo de realizar algo com aquele corpo,
por fim, como não é possível fazê-lo, você se rende ao alívio imediato,
para não ficar mais pensando e sofrendo por não tê-lo, e por pensar e
sofrer com o que pensa. Mesmo sabendo que é pecado, mesmo sabendo que
desagrada a Deus, mesmo sabendo que será levado a pecar novamente, a
sensação é por demais agradável; mesmo sendo escravizante, ainda assim, é
algo incontrolável quando se peca a primeira, a segunda vez, quando não
se refreia, peca-se por desordem. Pelo coração não estar acomodado, em
conformidade com a santidade. Entra-se em um círculo vicioso... e,
somente Deus para nos tirar dele.
Não
vejo saída a não ser a oração, a mortificação da carne [o jejum é uma
arma poderosa], afastando-se de tudo o que o remete à lascívia, à
cobiça, ao prazer ilícito. Exteriormente somos "fisgados", mas o problema está no interior, no coração. Como o Senhor Jesus disse, é dele que procedem todos os males [Mt 15.17-18]. Porém, um coração cheio do amor por Deus será um coração vitorioso na luta contra o pecado.
Pedro diz: "Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e
piedade,
pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude;
pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para
que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado
da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. E vós também, pondo
nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à
virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência,
e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor
fraternal a caridade. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego,
nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus
antigos pecados. Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a
vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis.
Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de
nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" [2Pe 1.3-11].
Em outras palavras, o apóstolo está dizendo ao crente: você
é um eleito de Deus, resgatado da condenação por Cristo, feito
co-herdeiro em Cristo, participante da glória e da graça de Deus em
Cristo, portanto, viva como um eleito, não como um ímpio!
Pedro
está nos exortando a viver segundo o chamado que Deus nos deu. Somos
eleitos, então vivamos com tal, e não como o pecador que antes éramos.
No
seu caso, posso fazer muito pouco ou nada além de ouvi-lo, de
exortá-lo, de orar por você. Está em suas mãos resistir ao pecado e
levar uma vida santa diante de Deus.
Novamente, voltemos a Pedro: "Portanto,
cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai
inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo;
como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que
antes havia em vossa ignorância; mas, como é santo aquele que vos
chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver;
porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo" [1Pe 1.13-16].
Pedro reafirma aqui o que disse anteriormente: você é um eleito, viva como tal; não se entregue às práticas dos gentios e incrédulos, que antes fazia. Porque o chamado de Deus para o Seu povo é o chamado à santidade.
Paulo também diz: "E,
se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do
pecado, mas o espírito vive por causa da justiça... De maneira que,
irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne. Porque,
se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito
mortificardes as obras do corpo, vivereis. Porque todos os que são
guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus... Quem nos
separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a
perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está
escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; somos
reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos
mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de
que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as
potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a
profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de
Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" [Rm 8.6-39].
Viva
no Espírito, no amor do Senhor, e você morrerá todo dia para a carne.
Não é fácil, mas não há outro caminho. Arrependa-se, coloque-se nas mãos
do Senhor integralmente, viva o Evangelho de Cristo, viva por meio
dEle, para Ele, e, certamente, Deus o libertará desse pecado. Na
verdade, você já foi libertado pelo sacrifício do Senhor na cruz, assuma
então a sua condição de eleito, e viva como um crente, como um servo
guiado pelo Senhor, buscando-o, sujeitando-se, humilhando-se,
glorificando-o, através do poder do Espírito Santo e da Palavra; pois o
único antídoto contra o pecado é a santidade. Desejar mais do que
qualquer outra coisa ser como é o nosso Senhor: santo!
Ore, ajoelhe, clame a Deus, implore, se humilhe diante dEle,
arrependa-se com o que de mais intenso e verdadeiro haja dentro de você,
e, certamente, odiará o pecado e amará cada vez mais a Deus.
Continuarei orando por sua vida, para que Cristo o liberte, dando-lhe
discernimento e sabedoria para enfrentar essas tentações. Como disse
anteriormente, a tentação ainda não é o pecado, mas quando passamos por
ela sem resistência, o pecado invariavelmente acontecerá. A tentação é a
chance que se tem de não pecar, o último recurso antes do desfecho
final: a queda!
Escreva quando quiser e precisar.
PS: Acho que seria bom você pensar, pelo menos por enquanto, em
afastar-se das pregações. Continue a evangelizar, a falar de Jesus para
as pessoas; a orar, ler as Escrituras, meditar nelas. Buscar literatura
de qualidade que o ajude a combater o pecado. Mas não considero,
biblicamente, qualquer possibilidade de você se manter em algum
ministério, seja a pregação, o louvor, ou qualquer outro, enquanto
estiver rendendo-se ao pecado. Não seria correto para com Deus nem a
igreja. Você disse que se converteu este ano, portanto, muito pouco
tempo para assumir certas funções no Corpo local. Como Paulo diz, o
neófito [novo na fé] não deve assumir liderança, "para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo" [1Tm 3.6].
Talvez o seu problema esteja aí. Mas é algo que apenas você poderá
responder, então, pergunte a si mesmo sinceramente: por que estou no
ministério? O que me motiva a exercê-lo?
Quem sabe, Deus já não esteja dando a resposta?