sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Jesus e as fraldas que vazam


Por Maurício Zágari
Quem já teve filho sabe do que vou falar. Você deixa seu neném todo cheirosinho, passa creminho, talquinho. Uma graça. Fofo. Lindo. Por cima de tudo vem a fraldinha. Coisa boa. Tem desenhos de bichinhos, da Turma da Mônica, de balões coloridos. São objetos úteis, mimosos e que deixam o neném com aquela aparência divertida de gorilinha, com o traseiro desproporcionalmente maior do que deveria. Que invenção extraordinária. A fralda retém o xixi e o cocô, mantém o bebê sequinho, limpinho e cheiroso e impede desastres que só quem já segurou um neném peladinho no colo enquanto ele faz xixi descontroladamente entende.
Mas as fraldas têm um problema: se elas não estiverem bem ajustadas, certinhas, no lugar certo... elas vazam. E aí, meu irmão, minha irmã, não queira saber a desgraceira que é. Não foi uma nem duas vezes em que acordei de manhã e encontrei o berço da filhota parecendo um circo de horrores: cocô espalhado pelas paredes, bichinhos, lençóis e, o que é pior: pelos braços, pernas, rosto e até cabelo do nenêm. Porque não pense você que ele entende que aquilo é sujo: para o pequeno é divertidíssimo se esbaldar jogando caquinha pra todo lado, se esfregando com aquela coisa quentinha e diferente e se emporcalhando com as imundícies que vazaram da fralda mal ajustada. Prefiro nem pensar na hipótese de que depois da farra feita ela lambeu os dedos. E isso não ocorre só no berço. Ocorre no carrinho, na cadeirinha de comer, no automóvel da familia, no colo. Se a fralda não está justa é certeza de que a coisa não vai prestar.
A vida espiritual do crente tem certas semelhanças com esse processo. Antes da conversão, somos como bebês peladinhos, fazendo todo tipo de porcaria por aí, descontroladamente, sem nada que impeça que nossas sujeiras e imundícies atinjam quem estiver ao nosso redor - e, em especial, a nós mesmos. Até que Jesus nos chama para si, nos elege, estende-nos sua graça. Com isso, numa metáfora. é como se Ele pusesse uma fralda em nós. Pois na regeneração ocorre o processo de adoção (Jo 1): fomos feitos filhos de Deus e, com isso nos tornamos seus herdeiros. E Jesus passa a cuidar de nós com olhar paterno. Passa creminho nas assaduras do passado, nos limpa. Também nos torna justos. Ou seja: ajusta-nos ao que é perfeito. Assim, pela graça do crucificado somos justificados mediante a fé e nossas "fraldinhas espirituais" são ajustadas perfeitamente em nós, impedindo que a sujeirada que antes fazíamos volte a ser contaminação. Ficamos limpos, puros ou, como diz o antigo hino, "alvos, mais que a neve".
O grande problema ocorre quando, por culpa nossa, essa proteção é removida mediante o que chamamos pecado. O pecado distorce o que é perfeito e faz nossas fraldas se "desajustarem". É como se o elástico ficasse frouxo ou se a fralda se deslocasse para fora do lugar. Com isso, surgem espaços que não deveriam existir numa realidade de justificação e toda aquela imundície que estava contida volta a vazar. E, ao vazar, suja tudo e todos ao nosso redor - em especial aquele que, como um neném, voltou a se divertir com as coisas impuras - afinal, para a mente cauterizada, o que é imundo é divertido e quentinho.
Fraldas que vazam são o terror dos pais. Pecados que retornam são o terror dos cristãos. Ninguém deseja um ou outro. Mas acontece. E aí, o que fazer? No caso do neném, troca-se a fralda desajustada por uma nova e todo o processo de limpeza se repete: dá-se um banho no bebê ou passa-se lencinhos umidecidos, creminho, talquinho... tudo de novo até que aquele que fez a sujeirada retorne ao seu estado de pureza. Já no caso do pecador o processo é bem similar. Mediante nosso arrependimento, Jesus nos limpa, dá banho, cuida de nossa alma com o creminho do perdão sobre as assaduras que o pecado provocou e ajusta novamente aquilo que impedirá que a caquinha da desobediência a Deus volte a nos sujar novamente. E aí retornamos ao nosso estado de pureza.
A você que ainda não teve filhos, meu desejo é que nunca tenha que passar pela experiência de uma fralda que vaza. Embora, sinceramente, eu ache impossível que isso não venha a ocorrer. Converse com qualquer pai veterano e ele terá histórias e mais histórias sobre isso para contar. De igual modo, meu desejo é que você nunca tenha de passar pela imundície de retornar ao pecado como, em linguagem bíblica, um cachorro que retorna ao próprio vômito. Embora, sinceramente, eu ache impossível que isso não venha a ocorrer. Converse com qualquer cristão veterano e ele terá histórias e mais histórias sobre isso para contar. A solução? O bebê tem os pais para limparem suas sujeiras. E o cristão tem Jesus para fazer exatamente a mesma coisa. Mantenha-se sempre perto de Cristo e, assim, você terá a garantia de que o pecado pode ocorrer, mas o teu advogado prontamente correrá em seu auxilio para solucionar a sujeirada que teus desajustes provocaram.
Você se desajustou? Está coberto de imundície espiritual? Não se desespere. Arrependa-se. Quem se sujava, não se suje mais. Mude de atitude. Pois, mediante seu arrependimento e a graça de Cristo, Jesus vai limpá-lo, purificá-lo e fazer você ficar limpinho e cheiroso aos olhos e às narinas do Pai, como aqueles lindos e fofos bebês que sempre nos deixam encantados por sua pureza e inocência.
Paz a todos vocês que estão em Cris

Deus age na nossa fraqueza


Por Maurício Zágari

Há um trecho da oração do Pai-nosso que é extraordinário e enigmático: “Não nos deixes cair em tentação” (Mt 6.13). Já parou para refletir sobre essa petição? O aspecto mais curioso dela é que a Bíblia o tempo inteiro nos insta a nós resistirmos à tentação, a nós nos esforçamos para não pecar. Em outras palavras, a atribuição de interromper o processo que leva a tentação a se tornar pecado é posta sempre nas costas dos seres humanos. A responsabilidade é minha e sua. No entanto, na oração do Senhor uma das atitudes que Jesus nos ensina a tomar é justamente pedir a Deus que aja no sentido de ele criar alguma circunstância que nos impeça de pecar. Isso significa que o Senhor pode agir de maneiras que nem imaginamos com o objetivo de nos dar a força de que necessitamos para não fazermos aquilo que não devemos fazer. A pergunta é: por quê?

Se cabe a nós resistir às tentações, por que, afinal, devemos pedir que Deus intervenha em nossa vida, no sentido de não deixar que pequemos? Acredito eu que Jesus nos deu essa orientação porque sabia o quanto somos fracos e o quanto as tentações são fortes, como ele mesmo afirmou: “O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41). Então, naquilo que humanamente somos incapazes de resistir, precisamos recorrer à ação direta de Deus em nosso favor.

Isso pode acontecer de inúmeras maneiras. Suponhamos que não consiga ficar longe das drogas, é algo mais forte que você. No que você ora “não nos deixes cair em tentação”, o Senhor entra em ação em seu favor e faz com que aquele amigo que te fornecia as substâncias se mude para outra cidade, o que corta seu suprimento de drogas. Ou, suponhamos, você está enveredando pelo caminho do crime, sucumbindo a práticas ilegais. Acredite, o Senhor pode fazer com que você receba uma dura da polícia para que tome jeito. Uma noite na cadeia ou uma intimação judicial podem ser belas respostas de oração da parte do Pai. Suponhamos, também, que você seja dominado pela glutonaria e não consiga deixar de comer todas aquelas comidas que só fazem mal à sua saúde. Deus pode permitir que você tenha uma infecção intestinal que te levará ao hospital, para que você comece a se alimentar direito. Um último exemplo: você pode estar pecando porque acha que tem a vida inteira pela frente, mas Deus faz você descobrir que tem uma doença grave. Pronto: a percepção da sua finitude te faz entrar no prumo. Por vezes, Deus soma até mais de um fator para te auxiliar.

Enfim, seja qual for a situação em que você tenha uma fraqueza que pareça ser mais forte do que você, esta é a oração que precisa fazer: “Não nos deixes cair em tentação”. Acredite: Deus agirá de modo sobrenatural em seu favor. Ele fará coisas que você não espera, seja para tornar aquele pecado virtualmente impossível, seja para lhe dar as forças que você não tem, a fim de superar a tentação. Deus é criativo. E extremamente eficiente em seu métodos.

E se, em algum momento, a resposta de Deus ao “não nos deixes cair em tentação” for dolorosa e não exatamente a que você queria, tenha a certeza de que Paulo sabia o que dizia quando escreveu em Romanos 8.28: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito”: absolutamente tudo o que ocorre em sua vida é para o seu bem. Tudo. Deus está por trás. Ele nos surpreende com eventos muitas vezes inesperados, na hora certa, mas que são a mão dele atuando para te ajudar naquilo que você não tem forças. “O poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” (2Co 12.9). Quando poderia supor Paulo que o espinho na carne era Deus articulando as coisas para que o apóstolo fosse aperfeiçoado naquilo em que ele não tinha sozinho condições de superar? Mas era.

A vida tem me mostrado que Deus não é cego. Ele nos observa e, quando vê que seus filhos estão fracos, entra em cena e nos surpreende com soluções extraordinárias para nossos problemas e fraquezas. Cria circunstâncias inesperadas e eficazes para nos dar a força que faltava. Às vezes dói. Mas se foi Deus quem fez, certamente é o melhor.

Recomendo que ore todos os dias: “Não nos deixes cair em tentação”. É uma magnífica blindagem espiritual para as partes de sua vida que você não consegue controlar sozinho. Deus protegerá você, às vezes tomando atitudes inusitadas, às vezes fazendo coisas de que você nem mesmo tomará conhecimento. Mas tenha esta certeza: ele não vai te desamparar. “Qual de vocês, se seu filho pedir pão, lhe dará uma pedra? Ou se pedir peixe, lhe dará uma cobra? Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai de vocês, que está nos céus, dará coisas boas aos que lhe pedirem!” (Mt 7.9-11).

Você está sem forças? Então pare de se esforçar para ficar de pé: desabe de joelhos. E ali, prostrado e ajoelhado, estará na postura ideal para clamar àquele que deseja aliviar todos os seus fardos.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Pecado Não É Múltipla Escolha!

Por Jorge Fernandes Isah

Não tenho por hábito transcrever diálogos pessoais, mas recebi o pedido de ajuda de um irmão. Orei, e respondi-lhe. Alguns dias depois, escreveu-me aflito por cair novamente no pecado. Eis suas palavras:

“Preciso de uma mudança, eu não quero servir Jesus desse jeito, com pecado; eu lembro da passagem que fala de Acã e seu pecado escondido fez o arraial de Deus regredir. Eu faço a obra de Deus, prego, evangelizo, mas peco. Por favor, me ajude eu preciso restaurar o temor que eu tinha no meu primeiro amor, o medo de pecar é algo que eu já perdi, mas quero recuperar isso”.

A minha segunda resposta:

É difícil ajudá-lo a distância, sem conhecê-lo. Mas se esta é a vontade de Deus, que assim seja.

O ideal é que você tivesse um irmão maduro na fé, alguém que pudesse auxiliá-lo, como lhe disse, alguém com o qual convivesse, que estivesse próximo. Preferencialmente, procurando o auxílio do seu pastor. Sei como são essas coisas de timidez, pois também sou tímido, e não gosto de me expor. Mas você tem de entender que, no caso da Igreja, como membro do Corpo, faz o Corpo sofrer, ainda que os irmãos não saibam. Pois Cristo, como a cabeça, sabe. Paulo descreveu a situação assim: “de maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele" [1Co 12.26].

Depois que lhe escrevi, tenho orado por sua vida e pedido a Deus que o liberte desse vício e pecado, e meditado na sua situação. Como contei, fui viciado em pornografia e sexo por muitos anos, até a minha conversão, e sei como esses pecados nos controlam e dominam. No início, quando da conversão, há uma parada abrupta em nosso comportamento pecaminoso, é como se não houvesse nenhum desejo e vontade em pecar. Acontece que a nova natureza em Cristo faz com que a natureza carnal fique adormecida. Nessa fase, somos apenas de Cristo, queremos ir aos cultos, fazer evangelismo, ler a Bíblia, orar e falar de Jesus para todas as pessoas de uma forma inimaginável, quase compulsiva.

Então progressivamente perdemos esse "furor" inicial, e acontece da nossa antiga natureza ressurgir pouco a pouco. Começamos a ouvir músicas seculares, a ver tv, cinema, e tantas outras atividades tal qual antigamente. Voltamos aos antigos amigos, e consideramos que somos fortes o suficiente para enfrentar o mundo. Paulo foi claro ao nos alertar: Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe não caia” [1Co 10.12]. Logo, começamos a olhar para as mulheres com um olhar diferente, quase como no passado, e sentimos desejos de ver o que é proibido, e de atentar para o proibido. O pecado nos atrai novamente, e somos atraídos por ele. Então, meu irmão, só há duas opções:

1) Nos rendemos ao pecado, e pecamos, ainda que depois venha o arrependimento.

2) Resistimos ao pecado, mesmo sabendo que Deus é misericordioso para nos perdoar.

O problema não é o pecado em si, ele é conseqüência do nosso relacionamento com Deus, ou da falta dele. Naquele momento, Deus é menor do que o desejo de pecar. Naquele momento, o pecado [seja qual for] é o meu deus. A questão é: amo o Senhor verdadeiramente a ponto de considerar não pecar, e não pecar quando tentado? Ou o meu amor é insuficiente para resistir ao pecado? [lembrando-me do novo-nascimento, a velha natureza estava soterrada, inativa, pela nova natureza. O que precisamos fazer é soterrar novamente a antiga natureza, e com ela, as práticas pecaminosas].

O mais importante é não gastar tempo ouvindo a própria voz. Ela lhe trará uma gama de ilusórias desculpas, que podem trazer alívio momentâneo, mas jamais o curará. De uma forma ainda pior, poderá cauterizá-lo e colocá-lo em uma posição de acomodação ao pecado. Ouça a voz de Deus, o qual fala pela Escritura Sagrada. Não canse de repetir para si mesmo: pornografia é pecado! E, ao crente, somente há uma forma de se relacionar com o pecado: rejeitando-o, derrotando-o, impedindo-o de se levantar da sarjeta, do monturo.

Não se engane com as mentiras que diz e já tem preparado para a ocasião, elas somente o manterão escravizado. Antes não rejeite a verdade, e se lance humildemente aos pés do Senhor. Diante dEle não há como nos exaltarmos e pecarmos [a tentativa soberba do homem em se sobrepor a Deus, de se exaltar acima dEle, como se isso fosse possível]. Diante dEle estaremos sempre humilhados, submissos, e em posição de não-pecado, não-autoglorificação, de não-rebeldia, mas de submissão, negação a si mesmo, de reconhecimento da nudez, pobreza, cegueira e iniqüidade humanas; e necessitados da Sua graça e sustento físico-espiritual. Como João o Batista disse: É necessário que ele cresça e que eu diminua” [Jo 3.30].

Não deixe a mentira tomar conta da sua mente, e dizer que você é o que jamais foi. Leia e medite na verdade, a Bíblia, através da qual Deus nos fala e nos ensina a trilhar os caminhos santos para os quais Cristo nos chamou, capacitando-nos pelo poder do Espírito Santo.

Por que não devo pecar? Por que é uma ordem? Ou por que o meu amor a Deus é tamanho que não transgredirei a Sua ordem? Veja bem, não pecarei não porque estou com medo da punição [se fosse assim, ninguém pecaria], mas não pecarei porque amo ao Senhor de tal forma que o meu amor não me permitirá ceder ao pecado. Se o meu coração estiver cheio, repleto de Deus, não haverá lugar para pecar. Como digo sempre: onde há amor, não há pecado. Onde há pecado, não há amor.

A masturbação, especificamente, não é um pecado instantâneo. Ela não acontece por um impulso incontrolável, por um "repente", como se diz aqui em Minas. Ela é progressiva, um processo. Primeiro você se entrega ao deleite de olhar ou imaginar formas femininas, depois não se contenta apenas em imaginar, mas há a cobiça, o desejo de realizar algo com aquele corpo, por fim, como não é possível fazê-lo, você se rende ao alívio imediato, para não ficar mais pensando e sofrendo por não tê-lo, e por pensar e sofrer com o que pensa. Mesmo sabendo que é pecado, mesmo sabendo que desagrada a Deus, mesmo sabendo que será levado a pecar novamente, a sensação é por demais agradável; mesmo sendo escravizante, ainda assim, é algo incontrolável quando se peca a primeira, a segunda vez, quando não se refreia, peca-se por desordem. Pelo coração não estar acomodado, em conformidade com a santidade. Entra-se em um círculo vicioso... e, somente Deus para nos tirar dele.

Não vejo saída a não ser a oração, a mortificação da carne [o jejum é uma arma poderosa], afastando-se de tudo o que o remete à lascívia, à cobiça, ao prazer ilícito. Exteriormente somos "fisgados", mas o problema está no interior, no coração. Como o Senhor Jesus disse, é dele que procedem todos os males [Mt 15.17-18]. Porém, um coração cheio do amor por Deus será um coração vitorioso na luta contra o pecado.

Pedro diz: "Visto como o seu divino poder nos deu tudo o que diz respeito à vida e
piedade, pelo conhecimento daquele que nos chamou pela sua glória e virtude; pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, e à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, e à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Pois aquele em quem não há estas coisas é cego, nada vendo ao longe, havendo-se esquecido da purificação dos seus antigos pecados. Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca jamais tropeçareis. Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo" [2Pe 1.3-11].

Em outras palavras, o apóstolo está dizendo ao crente: você é um eleito de Deus, resgatado da condenação por Cristo, feito co-herdeiro em Cristo, participante da glória e da graça de Deus em Cristo, portanto, viva como um eleito, não como um ímpio!
Pedro está nos exortando a viver segundo o chamado que Deus nos deu. Somos eleitos, então vivamos com tal, e não como o pecador que antes éramos.

No seu caso, posso fazer muito pouco ou nada além de ouvi-lo, de exortá-lo, de orar por você. Está em suas mãos resistir ao pecado e levar uma vida santa diante de Deus.

Novamente, voltemos a Pedro: "Portanto, cingindo os lombos do vosso entendimento, sede sóbrios, e esperai inteiramente na graça que se vos ofereceu na revelação de Jesus Cristo; como filhos obedientes, não vos conformando com as concupiscências que antes havia em vossa ignorância; mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver; porquanto está escrito: Sede santos, porque eu sou santo" [1Pe 1.13-16].

Pedro reafirma aqui o que disse anteriormente: você é um eleito, viva como tal; não se entregue às práticas dos gentios e incrédulos, que antes fazia. Porque o chamado de Deus para o Seu povo é o chamado à santidade.

Paulo também diz: "E, se Cristo está em vós, o corpo, na verdade, está morto por causa do pecado, mas o espírito vive por causa da justiça... De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne. Porque, se viverdes segundo a carne, morrereis; mas, se pelo Espírito mortificardes as obras do corpo, vivereis. Porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus esses são filhos de Deus... Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação, ou a angústia, ou a perseguição, ou a fome, ou a nudez, ou o perigo, ou a espada? Como está escrito: Por amor de ti somos entregues à morte todo o dia; somos reputados como ovelhas para o matadouro. Mas em todas estas coisas somos mais do que vencedores, por aquele que nos amou. Porque estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor" [Rm 8.6-39].
Viva no Espírito, no amor do Senhor, e você morrerá todo dia para a carne. Não é fácil, mas não há outro caminho. Arrependa-se, coloque-se nas mãos do Senhor integralmente, viva o Evangelho de Cristo, viva por meio dEle, para Ele, e, certamente, Deus o libertará desse pecado. Na verdade, você já foi libertado pelo sacrifício do Senhor na cruz, assuma então a sua condição de eleito, e viva como um crente, como um servo guiado pelo Senhor, buscando-o, sujeitando-se, humilhando-se, glorificando-o, através do poder do Espírito Santo e da Palavra; pois o único antídoto contra o pecado é a santidade. Desejar mais do que qualquer outra coisa ser como é o nosso Senhor: santo!

Ore, ajoelhe, clame a Deus, implore, se humilhe diante dEle, arrependa-se com o que de mais intenso e verdadeiro haja dentro de você, e, certamente, odiará o pecado e amará cada vez mais a Deus.

Continuarei orando por sua vida, para que Cristo o liberte, dando-lhe discernimento e sabedoria para enfrentar essas tentações. Como disse anteriormente, a tentação ainda não é o pecado, mas quando passamos por ela sem resistência, o pecado invariavelmente acontecerá. A tentação é a chance que se tem de não pecar, o último recurso antes do desfecho final: a queda!

Escreva quando quiser e precisar.

PS: Acho que seria bom você pensar, pelo menos por enquanto, em afastar-se das pregações. Continue a evangelizar, a falar de Jesus para as pessoas; a orar, ler as Escrituras, meditar nelas. Buscar literatura de qualidade que o ajude a combater o pecado. Mas não considero, biblicamente, qualquer possibilidade de você se manter em algum ministério, seja a pregação, o louvor, ou qualquer outro, enquanto estiver rendendo-se ao pecado. Não seria correto para com Deus nem a igreja. Você disse que se converteu este ano, portanto, muito pouco tempo para assumir certas funções no Corpo local. Como Paulo diz, o neófito [novo na fé] não deve assumir liderança, "para que, ensoberbecendo-se, não caia na condenação do diabo" [1Tm 3.6]. Talvez o seu problema esteja aí. Mas é algo que apenas você poderá responder, então, pergunte a si mesmo sinceramente: por que estou no ministério? O que me motiva a exercê-lo?
Quem sabe, Deus já não esteja dando a resposta?

VELHOS E NOVOS FARISEUS [Comentário a Mateus 23.1-12]



Por Jorge Fernandes
A Bíblia esteve nas mãos dos judeus e, ainda que a estudassem diligentemente, não compreendiam os reais propósitos divinos; escutavam muitas vozes, muitas sugestões, muitas interpretações, mas a voz do Espírito Santo era-lhes por silêncio. De forma diabólica, os escribas e sacerdotes ouviam apenas a si mesmos e aos seus pares, corrompendo e acrescentando à palavra de Deus seus próprios conceitos, insuflando o povo a segui-los como se fosse o conselho divino. É o que está escrito: “Na cadeira de Moises estão assentados os escribas e fariseus. Todas as coisas, pois, que vos disserem que observeis, observai-as e fazei-as; mas não procedais em conformidade com as suas obras, porque dizem e não fazem. Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com seu dedo querem move-los” (Mt 23.1-4).
Ao sentarem-se na cadeira de Moisés, os líderes do templo liam as Escrituras, tanto a Lei como os Profetas, explicavam-nas e ensinavam-nas, de forma que cumpriam o trabalho honrado de preservar e propagar a palavra escrita. Contudo, a despeito da autoridade investida (eram também juízes no tribunal onde a Lei Mosaica era a lei civil), suas atitudes não eram compatíveis com aquilo que proferiam. Eles eram “atores”, interpretavam o papel de alguém que não é, não pode ser, ou não quer ser. O hipócrita encontra-se no mais miserável de todos os estados, o de guiar os outros quando está completamente perdido; e de ser incapaz de ver a própria ruína e inutilidade. Por isso, Cristo exortou o povo a ouvi-los, mas não a segui-los (1).
Por diversas vezes, Ele os chamou de hipócritas, insensatos, cegos, assassinos, raças de víboras. Há os que vêem nas palavras do Senhor uma admoestação branda, um apelo amoroso para que os fariseus e escribas se convertessem da sua disposição ao pecado e a oposição a Deus. Porém, em Mateus 23, Jesus os censura duramente através de uma série de “ais” e em descrições pormenorizadas das suas atitudes pecaminosas. Não vejo, na contundência de Suas afirmações, nenhuma demonstração de amor para com o alvo do Seu ataque. Antes, em Suas palavras, é visível a sentença condenatória.
A forma como os “ais” são proferidos, mostram a nítida ira do Senhor para com aqueles homens; e não há porque ser diferente, visto que a Bíblia revela a soberana autoridade de Cristo para salvar e também para condenar. E é esse o caso. Cristo está a julgar os principais. Aqui Ele não se refere a eles como amigos, mas como a inimigos. Parece que, de certa forma, para alguns, se Ele está julgando-os, está agindo injustamente. Mas, lembremo-nos de três coisas:
1-Cristo é Deus. A segunda pessoa da Trindade Santa; o Filho eterno; nosso Senhor e Salvador, cuja morte na cruz propiciou a libertação e vida a muitos; Aquele pelo qual todas as coisas foram feitas; e pelo qual o mundo será julgado. Portanto, se há alguém com autoridade, justiça, santidade e retidão para julgar qualquer pessoa ou evento no universo, esse alguém é o Verbo encarnado: Jesus Cristo.
2-A ira divina é santa. Ela é o reflexo da Sua justiça. Portanto, dizer que Cristo, ao mesmo tempo em que se ira e condena, o faz em amor ao objeto da Sua ira e condenação é, no mínimo, uma contradição. O problema é que se espalhou pelo mundo que Deus ama a todos, quando, na verdade, Deus ama aquele que o obedece, aquele que cumpre os Seus mandamentos, aquele que foi regenerado e lavado no sangue do Seu Filho amado, os eleitos, pelo qual morreu e se entregou para que fossem salvos. Quem se atreverá a rogar por aquele que Deus condena? Ao fazê-lo, não estará questionando a Sua justiça e a santidade? E se fazendo como ele? O “ai” de Cristo é uma acertiva inexorável, do qual não se pode escapar.
3-Deus é justo, e não pode ser questionado por ninguém. Foi o que Ele disse a Jó: “Porventura também tornarás tu vão o meu juízo, ou tu me condenarás, para te justificares?” (40.8).
O que não quer dizer que Cristo não tenha outro objetivo em mente. O alvo do Seu amor está implícito na maneira com que os condena, e desta forma, todos os eleitos lerão e ouvirão aqueles exemplos como alerta para não repeti-los, para afastarem-se deles, para condená-los igualmente, e assim, buscarem fazer exatamente o oposto do que os líderes de Israel faziam. Em outras palavras, Cristo revela-nos toda a sordidez e vilania dos fariseus e escribas, condenando-as e a eles, para que nós visualizemos o erro, saibamos do desagravo de Deus a quem os comete, e nos afastemos de suas práticas. O alvo da Sua ira é a liderança judaica e seus seguidores, o alvo do Seu amor, os eleitos (podendo ser mesmo alguns desses líderes e seguidores).
E, hoje, as coisas são diferentes? Não há milhares de estudiosos mundo afora, Bíblias em mãos, examinando-a, assim como os fariseus e escribas faziam? E, igualmente, não são guiados por suas mentes pervertidas a rebelar-se contra aquilo que dizem acreditar?
Vejamos alguns pontos:
1-Os fariseus e escribas tinham o conhecimento das Escrituras, e sabiam da chegada do Messias.
2-Cristo veio ao mundo, e os fariseus e escribas odiavam-no exatamente porque Ele se opunha a tudo o que faziam e era contrário as Escrituras.
3-Os fariseus e escribas eram “obreiros fraudulentos” (2Co 11.13) e, por isso, combatiam declaradamente o Evangelho de Cristo.
4-Eles se diziam servos de Deus, mas na verdade eram idólatras, pois faziam todas as obras a fim de serem vistos pelos homens” (v. 5). Faziam ídolos de si mesmos.
5-Não eram humildes; usurparam e usavam o título que não lhes pertencia (Rabi), considerando-se mestres, quando “um só é o vosso Mestre, a saber, o Cristo, e todos vós sois irmãos” (v. 8).
O quadro dos “principais” descrito pelo Senhor, em nada lhes é favorável, ao contrário, é totalmente adverso, desventurado. E muitos discípulos dos fariseus e escribas estão a andar por aí, cheios de vaidade, exibindo-se como pavões na cópula, a fim de serem vistos e engrandecidos como se fossem deuses. A ferida na qual Cristo colocou o dedo é a vergonha exposta por muitos crentes. Não apenas pastores, presbíteros e diáconos, mas muitos de nós estão inchados por todo o tipo de cobiça, de vanglória, de louvor, de adoração, ostentando títulos e honrarias usurpadas de Deus. Como aqueles à época de Jesus queriam ocupar o lugar que somente o Filho de Deus pode ocupar, muitos se iludem com as falsas promessas de que podem ser rabis modernos, mestres de uma legião de tolos e incautos.
Quem lhe deu olhos para ler? A mente para entender? O espírito para discernir? E a vontade para obedecer? Quem lhe revelou o pecado? E a salvação? Quem lhe deu a vida? Ou será que foi você que se entregou na cruz por seus pecados? Ou, onde estava quando Deus fundou a terra? (Jó 38.4).
Se atentarmos, veremos que nada do que temos é fruto do nosso esforço, ou pode ser determinado por nossa vontade, ou aconteceu por mérito. Provavelmente, haverá no mundo pessoas muito melhores do que eu, muito mais inteligentes, sábias, talentosas e dispostas, mas de uma forma inexplicável, Deus escolheu-me para Si e não eles. Por isso, ninguém será justificado por obra de justiça que houver feito (Tt 3.5-6), "para que nenhuma carne se glorie perante ele" (1Co 1.29), e "aquele que se gloria glorie-se no Senhor” (1Co 1.31). Paulo está nos dizendo que tudo é pela graça e misericórdia de Deus, que nada do que somos ou temos é fruto nosso, mas gerado em nós por Cristo. Então, por melhor que eu seja, por mais bem situado social e financeiramente, por mais poder e prestígio que tenha, nada disso foi-me dado por mérito, mas por graça; o que me torna duplamente responsável pela forma como decido usar o que me foi entregue por Deus. Fazendo-o sabiamente, guiado pelo Espírito, serei instrumento de justiça, do contrário, de injustiça. E toda injustiça será castigada, condenada, parafraseando Nelson Rodrigues.
Vem à mente a advertência:
“Portanto, pelos seus frutos os conhecereis. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mt 7.20-23).
Sem entrar na análise profunda deste trecho, o que fica evidenciado é que, mesmo muitos sendo usados para a obra de Deus, não são de Deus. Fazem-na, estão nela, cumprem uma obrigação específica determinada por Deus, como todos no mundo, crentes ou não fazem, mas não estão entre os escolhidos. O que revela, mais uma vez, o poder divino de fazer o que quer, como bem quer, com quem quer, porque Ele é o padrão máximo de soberania, justiça e santidade, e para que em tudo o Seu nome seja glorificado. Ninguém pode enganá-lo, ou rir-se dEle, antes é Ele quem ri do tolo, porque “o tolo não tem prazer na sabedoria, mas só em que se manifeste aquilo que agrada o seu coração” (Pv 18.2).
No fundo, os antigos e os novos fariseus orgulham-se tanto das suas obras, como uma espécie de manifestação das suas bondades pessoais, como o fruto da aplicação e esmero de uma vida voltada para o serviço religioso e, com isso, esperando serem justificados perante Deus, corrompem todo o bom ensinamento doutrinário que porventura venham a realizar. Ele está tão seguro de si mesmo, tão cheio de si, que mesmo desejando glorificar a Deus o que consegue é glorificar-se, revelando todo o caráter vaidoso e soberbo que possui (dissimuladamente), e o desprezo para com tudo o que não seja ele mesmo (Lc 18.11-12). Ele é um fraudador da fé cristã, um embuste, uma vergonha para a igreja, pois diz o que está em conformidade com as Escrituras, mas age diametralmente oposta a elas (2). Está tão orgulhoso de suas obras (apontar os erros alheios), ensimesmado com seus dotes e atributos, com o destaque e proeminência alcançados, que é incapaz de acusar em si mesmo os pecados que acusa nos outros. Em suma, é o desobediente crônico; finge que é, mas não é; faz o que não deve quando devia fazer o que diz fazer; é odioso ao criticar o pecado de outrem, talvez por se ver nele e no seu pecado. Ele é um obstinado; perseverante na teimosia.
Paulo o descreve assim: “Tu, pois, que ensinas a outro, não te ensinas a ti mesmo? Tu, que pregas que não se deve furtar, furtas? Tu, que dizes que não se deve adulterar, adulteras? Tu, que abominas os ídolos, cometes sacrilégio? Tu, que te glorias na lei, desonras a Deus pela transgressão da lei?” (Rm 2.21-23). Esse é o pior inimigo da verdade, porque ainda que a proclame e muitas vezes aceite-a intelectualmente, é incapaz de praticá-la, prefere viver a mentira deslavada, e terminar por blasfemar, com suas atitudes, o nome de Deus entre os incrédulos (Rm 2.24).
Como diz o pregador: “vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” (Ecl 1.2).
Mas ao que “a si mesmo se exaltar será humilhado; e o que a si mesmo se humilhar será exaltado” (Mt 23.12). Porque quando tivermos a mente e o sentimento que houve também em Cristo, o qual se humilhou a si mesmo, e esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, achado na forma de homem, e foi obediente até a morte na cruz (Fl 2.5-8), então seremos “irrepreensíveis e sinceros filhos de Deus inculpáveis, no meio de uma geração corrompida e perversa, entre a qual resplandeceis como astros no mundo” (Fl 2.15).
Retendo a palavra da verdade (o fariseu não consegue fazê-lo), humilhar-se significa considerar os outros superiores a si mesmo, não atentar para o que é propriamente seu, mas também para o que é dos outros (Fl 2.3-4). Para que isso aconteça, é necessário que Cristo cresça em nós, enquanto diminuímos e finalmente morremos para nós mesmos (Jo 3.30; Gl 2.20); pois o nosso velho homem foi crucificado com Ele, para desfazer o corpo do pecado, a fim de que não sirvamos mais ao pecado (Rm 6.6).
Cristo nos deu o exemplo: o maior se fez menor para ser exaltado soberanamente.

Só os músicos são levitas?

Há um enorme equívoco no meio evangélico que se enraizou na mente de alguns crentes, quando o músico, ou ministro de louvor é exclusivamente chamado de levita da casa de Deus. Assim como muitos erros de interpretação bíblica causaram enormes contradições pela falta de harmonização de textos com contextos, apesar do caso aqui exposto se tratar de contexto remoto, gramatical, histórico e cultural, a comparação feita especialmente do músico atual para com o levita da Bíblia é mais um exemplo disso.

Mas, quem eram, de fato, os levitas descritos na Bíblia? O que eles realmente faziam? Que ligações possuem os levitas das Escrituras com os “levitas” de nossos dias? Quais os equívocos causados quanto ao assunto em questão?

Os levitas eram os membros da tribo de Levi, terceiro filho do patriarca Jacó. Formavam uma tribo separada, sem território, sem herança terrena, sem recenseamento com as demais tribos, porque tinham a benção do alto privilégio de ter o Senhor como sua posse (Dt. 10.9). Era a tribo dos sacerdotes (cohanim), descendentes de Arão, por sua vez descendente de Levi (Ex. 29.44; Nm. 3.10). Isso quer dizer que todo sacerdote (cohen) era levita, mas nem todo levita era sacerdote (Nm. 3.6ss).  É claro que encontramos pequenos resquícios literários de sacerdotes que não eram levitas, principalmente na época dos juízes e no início da monarquia, mas isso é um outro assunto.

As funções dos levitas

O Dr. Henry Hampton Halley, no “Manual Bíblico de Halley” mostra que o ministério levítico era amplo em suas atividades, diferente em relação ao que se pensa em nossos dias. Os levitas tinham uma atividade honrosa que compreendia: o serviço no santuário (Nm 3.6; 1º Cr 15.2) o auxílio nos sacrifícios (Jr. 33.18,22), no transporte da Arca da Aliança, na responsabilidade para com o ensino da Lei (Dt 31.9; 22.10), na música (1ª Cr. 25.1) e, no uso da autoridade para abençoar. “Parece, portanto, que os deveres dos levitas incluíam tanto o serviço de Deus como um papel de relevância no governo civil”, conclui Dr. Halley (Manual Bíblico de Halley – p. 222, Ed. Vida – 9ª reimpressão 2011).

Davi foi o responsável por inseriu a música como parte integrante do culto, afinal, ele era músico e compositor desde a sua juventude (1º Sm.16.23). Atribuiu a alguns levitas a responsabilidade musical. No 1º livro das Crônicas capítulos 9.14-33; 23.1-32; 25.1-7, vemos diversas atribuições dos levitas. Havia então entre eles porteiros, guardas, padeiros, cantores, instrumentistas e até o tesoureiro era levita (1ª Cr. 26.20-28; 2º Cr. 5.13; 34.12).

Os levitas em nossos dias

Deixo bem claro que o ministério levítico descrito na Bíblia, teologicamente interpretado, não possui sequer nenhuma ligação com os chamados “levitas cristãos” de nossos dias. A começar pela ampla organização ministerial, postura, atividade, contexto histórico, religioso e cultural, promessas bíblicas, seleção, critérios, períodos e épocas.

Mas, não poderia deixar de considerar a forma do uso atual, pois, se torna importante esclarecer aqui, que a verdade no que tange ao “levitismo evangélico”, ficou obscura por causa do erro interpretativo das Escrituras propagado pelos não estudantes da Bíblia. Ou seja, se queremos assim considerar o ministério levítico em nosso meio, á luz da Palavra de Deus, todos os que servem em qualquer ministério relacionado ao culto e ao templo, podem e devem ser chamados também de “levitas”.

A falsa ideia de que apenas músicos são levitas, mais uma vez considerando teologicamente o assunto no contexto atual, é totalmente contrária aos textos e relatos bíblicos. E mais, se torna um fato irônico chamar de levita aquele músico que, muitas vezes, exerce seu ministério na igreja tendo uma irreverência explícita no próprio culto, confundindo a adoração coletiva com seu show particular e, ignorando o conhecimento teológico e profundo da Palavra, o que o distancia mais ainda dos levitas bíblicos que possuíam grande sabedoria das Escrituras e extrema visão espiritual.

Concluo expressando o desejo de que os verdadeiros cristãos, que buscam para si a mesma nomeclatura do chamado levítico, possam exercer seus ministérios de uma forma em que suas ações possam refletir, pelo menos, uma expressiva parcela da responsabilidade, zelo, dedicação e compromisso dos levitas da Bíblia Sagrada.

O valor das doutrinas


Por Charles Colson e Anne Morse
Quando paramos de levar a sério as verdades históricas da igreja, enfraquecemos nosso testemunho, geralmente com grandes consequências.
“Nós caímos em um abismo no qual a reafirmação do óbvio é o primeiro dever do homem inteligente”. Escritas em 1939, as palavras de George Orwell parecem ser endereçadas aos líderes da igreja biblicamente iletrada de hoje.
A coisa mais óbvia a ser dita sobre o Cristianismo é que ele se apóia em fatos históricos: a Criação, a Encarnação, e a Ressurreição. Desde que nossas doutrinas sejam uma reivindicação da verdade, elas não podem ser meros simbolismos. É importante lembrar a forma como celebramos a Ressurreição, que geralmente é ofuscada pelo esplendor da Páscoa.
Para mim, é evidente que a doutrina é importante. Há alguns anos, eu visitei o Sri Lanka, logo depois de o bispo anglicano David Jenkins ter rejeitado a doutrina da Ressurreição como uma “brincadeira mágica com os ossos” (mais tarde foi revelado que ele havia citado um texto erroneamente). O líder do nosso ministério, que me acompanha palas prisões do país, disse que a notícia custou muitas conversões, porque budistas e hindus usaram isso para convencer as pessoas de que o Cristianismo é baseado em uma simples travessura.
Claramente, quando nós paramos de levar a sério as verdades históricas da igreja, nós enfraquecemos nosso testemunho, geralmente com grandes consequências. Por exemplo, grupos de estudantes islâmicos fazem proselitismo afirmando que os cristãos adoram três Deuses: Pai, Mãe, e Filho. De onde eles tiraram essa ideia? Dos cristãos egípcios do século VII, que abandonaram a Bíblia e abraçaram essa heresia.
Um estudo do Pew Forum on Religion and Public Life, feito a alguns anos,revelou uma excessiva ignorância doutrinária entre os cristãos americanos. 57% das pessoas acreditam que pessoas que seguem outras religiões poderão usufruir a vida eterna. O resultado foi tão inesperado que o fórum repetiu o estudo, perguntando questões mais específicas. As respostas permaneceram inalteradas. Surpreendentemente, cerca da metade disse que qualquer um, inclusive ateus, irão para o céu. Céu para o ateu? Essa é a antiga heresia do universalismo.
A indiferença às verdades do evangelho é percebida em outras esferas também, como entre as pessoas que é defendem os “fatos, e não a crença”, e na infinita discussão sobre as novas formas de “entender” ou “fazer” teologia. Alguns aderem à antigas heresias, que dizem que as doutrinas devem ser extraídas de experiências íntimas, de sentimentos pessoais. Isso é uma versão do Gnosticismo.
Há aqueles que querem adaptar o Cristianismo a era pós-moderna, ou desenvolver sua teologia publicamente com não-cristãos, ajudando a formular o resultado. Sim, nós precisamos contextualizar a mensagem para que as pessoas do nosso tempo e cultura entendam a verdade que nós proclamamos. Mas isso é radicalmente diferente de mudar a verdade cristã que os pais da igreja definiram em seus concílios.
Como um repórter noticiou, mesmo quando os cristãos conhecem as doutrinas verdadeiras, eles temem dizer a verdade com receio de ofender os outros. Por quê eu deveria impor minha verdade aos outros? É um pensamento que define muitos de nossos crentes.
É por isso que J. I. Packer, no seu octogésimo aniversário, disse que o grande desafio dos evangélicos é recatequizar nossas igrejas. Mais do que nunca, os cristãos precisam ter a capacidade de falar corajosamente sobre a esperança que eles escondem dentro de si.
É claro que a fé pessoal é importante, mas não é suficiente. E sim, a doutrina tem sido ensinada de forma seca e insatisfatória. Mas como Dorothy Sayers notou, uma vez que nós entendemos o que as doutrinas cristãs ensinam, “O dogma é o drama”.
A determinação de restaurar a fé ortodoxa – a fé que “de uma vez por todas foi entregue” (Jd 1.3) – nos leva a Reforma, de quem nós somos herdeiros. Uma nova ênfase na doutrina ortodoxa poderia, também, transformar a igreja e a cultura atual.
Há alguns anos eu visitei Atenas e escalei uma rocha chamada Monte de Marte. Eu fiquei no lugar onde eu imaginava que Paulo tinha se confrontado no Areópago, o sábio homem no centro cultural do mundo. Paulo desafiou os atenienses referindo-se à sua própria cultura e seus falsos altares, e depois pregou o evangelho, proclamando que Deus havia ressuscitado Jesus dentre os mortos.
É a mesma mensagem que eu prego nas prisões hoje em dia. Eu penso que é bem mais divertido permanecer em uma crença que dura dois mil anos do que pular de uma para outra.
Poucas pessoas aceitaram o convite que Paulo fez naquele dia para seguirem Cristo. Mas bilhões seguiram Paulo desde aquela época porque Cristo tem um poder inevitável. Ele tem o poder de impedir que Satanás controle nossas almas e de transformar alegremente nossas vidas.
Orwell estava certo: em uma crise, nós geralmente temos o dever de reafirmar o óbvio. E a Páscoa é um bom momento para os cristãos reverem sua confusão doutrinária, irmã das verdades óbvias do Cristianismo.
O maior desafio dos cristãos atuais é não reinventar o Cristianismo, mas descobrir seus ensinamentos mais importantes.

A alegria que vem de Deus

Maquiagem correta pode ajudar a destacar o sorriso na correria cotidiana

Por Maurício Zágari

Alegria é uma das virtudes que somos capazes de vivenciar quando o Espírito Santo manifesta em nós o seu fruto (Gl 5.22-23). A princípio, quando tomamos conhecimento desse fato, temos a sensação de que seguir Cristo significa, naturalmente, ser constantemente alegre. Só que tem um porém: Jesus jamais prometeu que seríamos. Não seremos, e, se alguém lhe garante uma alegria interminável nesta vida, pode ter certeza: é uma promessa que não se cumprirá. Abraçar o evangelho implica em negar a si mesmo, tomar a sua cruz diariamente e seguir Cristo (Lc 9.23). Isso fala de dificuldades, de esforço, de sofrimento. Todos os salvos sofrerão. Todos os salvos terão momentos de agonia, lamento, dor, luto… tristeza. Isso é líquido e certo. É um fato bíblico e um fato da vida. Bem, diante disso, é possível explicar essa aparente contradição? Temos o Espírito de Deus em nós, ele manifesta seu fruto em nossa vida, seu fruto inclui alegria, mas, estranhamente… vivemos muitos momentos de profunda tristeza. Isso tem explicação? Creio que sim, e te convido a pensar junto comigo.

Jesus não foi alegre o tempo todo. Pedro não foi alegre o tempo todo. João não foi alegre o tempo todo. Paulo não foi alegre o tempo todo. Nenhum dos apóstolos foi alegre o tempo todo. Os mártires da Igreja primitiva não foram alegres o tempo todo. Agostinho não foi alegre o tempo todo. Lutero não foi alegre o tempo todo. Calvino não foi alegre o tempo todo. Eu não sou alegre o tempo todo. Você não é alegre o tempo todo. Ninguém é alegre o tempo todo. Bem, o que tudo isso tem em comum?

“O tempo todo”.

Esse é o xis da questão. O fruto do Espírito inclui virtudes como paz, paciência e domínio próprio, por exemplo, mas ninguém tem paz o tempo todo, nem é paciente o tempo todo, tampouco domina-se o tempo todo. Assim, o grande problema é associar a crença em Jesus à manifestação constante e ininterrupta dessas virtudes. Elas se manifestarão, mas não… o tempo todo.

Só que nós vivemos em uma sociedade hedonista, que prega que nossa vida tem obrigatoriamente de ser uma felicidade que não acaba. Basta olhar as redes sociais - ou qualquer outra forma de exposição da pseudovida privada – dos seus amigos. Você não tem a impressão, por aquilo que eles dizem e, principalmente, pelas fotos que postam, de que todos vivem uma existência espetacular, recheada de beleza, emoções, viagens, aventuras, celebrações, alegrias inacabáveis? Acredite: não vivem. Mas, inconscientemente, sentem-se obrigados socialmente a expor ao mundo como são alegres o tempo inteiro, caso contrário seriam considerados fracassados, incompetentes, amaldiçoados ou qualquer coisa do gênero. Não quero que ninguém descubra que eu não vivo uma vida espetacularmente alegre, logo, a forma que tenho de fazer isso é postar onde todos possam ver meu sorriso constante, inapagável, feliz e contente. E, muitas vezes, artificial. Fazemos isso praticamente sem pensar, sem maldade, no automático, simplesmente porque nos ensinaram a vida inteira que viver é estar 24 horas por dia encharcado de endorfinas, desfrutando cada segundo numa ascendente de emoção, realização, euforia, gozo, júbilo. Assim, uma vida bem vivida seria como estar de domingo a domingo em um parque de diversões: exultante, feliz, alegre!

Só que não é assim que acontece.

Toda e qualquer pessoa vive em altos e baixos. Tem picos de humor. Momentos de tristeza. Quedas nos níveis de adrenalina. Problemas. Tribulações. Falta de alegria. Isso é normal. Não é agradável, mas é normal e previsível. Só que todos nos dizem que temos de estar sempre, sempre e sempre alegres! Não tem como não entrar numa crise existencial diante disso. “Todos dizem que uma vida plena é marcada por uma alegria sem fim, mas isso não acontece comigo; logo, minha vida é uma droga e minha fé, um fracasso”.

Errado.

Se você vive uma vida marcada pela alternância de momentos alegres e tristes, parabéns: você é humano como qualquer outro. E é aí que entra a alegria que é fruto do Espírito.

Pense bem. Você acha de fato que a alegria que Paulo descreve como resultado de uma vida de intimidade com o Espírito Santo é aquela que se manifesta numa montanha russa, numa festa, numa viagem a um local paradisíaco, num jantar com amigos recheado de piadas, ao assistir a um filme de comédia? Essa é a alegria natural, inerente ao ser humano. Tanto que qualquer indivíduo, cristão ou não cristão, sente esse tipo de alegria. Seria como dizer que a paz que sentimos deitados numa rede, pegando um ventinho e tomando água de coco é sobrenatural. Não é. É natural e humana. Creio que o fruto do Espírito se manifesta sobrenaturalmente quando precisamos de uma injeção de algo que vai além de nossas forças. É quando não tenho domínio próprio e estou quase caindo em tentação que Deus me dá uma temperança que parece ir além do que eu conseguiria. É quando estou atribulado que sinto a paz espiritual, fruto da presença divina. É quando quero matar meu inimigo aos chutes e pontapés que o Espírito manifesta em mim amor e, só com essa infusão sobrenatural, consigo fazer-lhe o bem.

Assim, creio que a alegria que é fruto do Espírito é aquela que vem quando temos tudo para estar tristes. É sobrenatural. Como isso é possível? Porque ela brota da certeza de que no mundo teremos aflições mas Jesus venceu o mundo (Jo 16.33). De saber que ele está conosco todos os dias, mesmo nos mais terríveis, até a consumação do século (Mt 28.20), e que não está alheio a absolutamente nada do que estamos passando. De ter a certeza de que “Se subo aos céus, lá estás; se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também; se tomo as asas da alvorada e me detenho nos confins dos mares, ainda lá me haverá de guiar a tua mão, e a tua destra me susterá” (Sl 139.8-10). É alegrar-se como resultado de sermos galhos enxertados na videira verdadeira. A certeza da presença de Cristo em nós, junto com a certeza de que ele jamais remove seus olhos de nossa vida… eis a razão de nossa alegria. E alegria eterna, que independe das circunstâncias da vida.

Por isso, mesmo nos momentos de mais desesperante tristeza, essa alegria que flui do Espírito de Deus para nós estará presente. Parece contraditório? Acredite, não é. É uma alegria não eufórica, mas pacífica. Calma. Amena. É uma brisa, não um vendaval. Não é sair saltando de júbilo como qualquer pessoa numa balada, aos gritos de euforia, é… um suave sorriso. Aquela alegria que nos faz suspirar em meio às lágrimas. A alegria humana é inerente ao homem e se manifesta naturalmente quando é óbvio que estaremos alegres. A alegria espiritual é inerente ao Espírito e se manifesta sobrenaturalmente em momentos inesperados.

E, acima de tudo, a alegria que é fruto do Espírito é aquela que vem de saber que, como estamos em Cristo, temos a vida eterna. Ouça as palavras dos lábios de Jesus: “Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus” (Lc 10.20). Está sofrendo? Alegre-se, você tem a vida eterna. Está com dor? Alegre-se, você tem a vida eterna. Está triste? Alegre-se, você tem a vida eterna. Tá tudo ruim? Alegre-se, você tem a vida eterna! É uma alegria que existe em meio à tristeza, como uma flor que brota no solo seco do sertão.

A vida na terra é difícil, muito difícil. Numerosos momentos ruins estão pela frente. Situações de enorme aflição virão. Nessas horas você ficará triste. Mas, olha… tenha bom ânimo. Jesus venceu. E a vitória dele te dá a vida eterna. Aí vem o Espírito Santo e manifesta o fruto dele na tua vida. É quando você se lembra que Jesus está com os olhos postos em ti e que ele tem morada preparada no céu, com teu nome na porta. Seria isso motivo de alegria?

Não busque a alegria segundo o mundo, essa é vaidade e correr atrás do vento. Alegria segundo o mundo é aquela que demonstramos em fotografias posadas e com sorrisos ensaiados. A alegria que é fruto do Espírito é aquela que não fotografamos, pois ela é muito maior do que uma lente pode captar. E, em geral, se manifesta nas horas em que não estamos acostumados a fotografar: no hospital, no orfanato, no desemprego, no susto, na dor, na crise matrimonial, no velório, na casa de recuperação, na depressão, no sofrimento. Pois é nas horas mais terríveis que Jesus sussurra em nosso ouvido: “Alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando” (1Pe 4.13).

Você ainda terá muita alegria. Mas não o tempo todo. A tristeza dará as caras com frequência. Mas o Espírito Santo te alegrará muitas vezes, frutificando em tua lembrança que Jesus é contigo e te dá a vida eterna. Afinal, “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.17).

A alegria humana passa. A alegria divina dura para sempre. E ela está ao teu alcance – basta viver dia após dia aos pés de Jesus.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,
Maurício

terça-feira, 12 de novembro de 2013

10 verdades que pregamos sobre 10 mentiras que praticamos


Por Alessandro Mendonça

Certo pastor estava buscando levar a igreja à prática da comunhão e da devoção experimentadas pela igreja primitiva (conforme descrita em Atos dos Apóstolos). Logo recebeu um comunicado de seus superiores: “Estamos preocupados com a forma como você vem conduzindo seu trabalho ministerial. Você foi designado para tomar conta dessa igreja e a fez retroceder, pelo menos, uns 40 anos! O quê está acontecendo?”. O pastor respondeu: “40 anos? Pois então lamento muitíssimo! Minha intenção era fazê-la retroceder uns 2.000!”.
Atualmente temos acompanhado um retrocesso da vivência e prática cristãs. Mas, infelizmente, não é um retrocesso como o da introdução acima. Algumas das verdades cristãs têm sido negadas na prática. Como diz Caio Fábio, muitos de nós somos “crentes teóricos, entretanto, ateus práticos”. Segue-se uma pequena lista dos top 10 das verdades que pregamos (na teoria) acerca das mentiras que vivemos (na prática):
I - “SÓ JESUS SALVA” é o que dizemos crer. Mas o que ouvimos dizer é que só é salvo, salvo mesmo, quem é freqüente à igreja, quem dá o dízimo direitinho, quem toma a santa ceia, quem ganha almas para Jesus, quem fala língua estranha, quem tem unção, quem tem poder, quem é batizado, quem se livrou de todo vício, quem está com a vida no altar (seja lá o que isso signifique), quem fez o Encontro, etc e etc. Resumindo: em nosso conceito de salvação, só é salvo aquele que não me escandaliza.
II - “DIANTE DE DEUS, TODOS OS PECADOS SÃO IGUAIS” é o que dizemos crer. Mas, diante da igreja, o único pecado é fazer sexo fora do casamento. Quando um irmão é pego em adultério, é comum ouvirmos o comentário: “O irmão fulano caiu...”. Ou seja, adultério é visto como uma “queda”. Mas a fofoca que leva a notícia do adultério de ouvido a ouvido é permitida (embora, na Bíblia haja mais referências ao mexeriqueiro do que ao adúltero). Estar com o nome ‘sujo’ no SPC é permitido, embora a Bíblia condene o endividamento. Ser glutão é permitido, a ‘panelinha’ é permitida, sonegar imposto de renda é permitido (embora seja mentira e roubo), comprar produto pirata é permitido (embora seja crime) construir igreja em terreno público é permitido (embora seja invasão).
III - “AUTOFLAGELAÇÃO É SACRIFÍCIO DE TOLO”, é o que dizemos crer. Condenamos o sujeito que faz procissão de joelhos, que sobe escadarias para pagar promessas. Ainda assim praticamos um masoquismo espiritual que se expõe em frases do tipo: “Chora que Deus responde”; “a hora em que seu estômago está doendo mais é a hora em que Deus está recebendo seu jejum”; “quando for orar de madrugada, tem que sair da cama quentinha e ir para o chão gelado”; “tem que pagar o preço”.
IV - “ESPÍRITO DE ADIVINHAÇÃO É DIABÓLICO” é o que dizemos crer, mas vivemos praticando isso nas igrejas, dentro dos templos e durante os cultos! - Olha só a cara do pastor. Deve ter brigado com a esposa. - A irmã Fulana não tomou a ceia. Deve estar em pecado. - Olha o irmão no boteco. Deve estar bebendo... - Olha só o jeito que a irmã ora. É só para se amostrar... - Olha a irmã lá pegando carona no carro do irmão. Hum, aí tem...
V - “DEUS USA QUEM ELE QUER” é o que dizemos. Mas também dizemos: Deus não pode usar quem está em pecado; Deus não usa ‘vaso sujo’; “Como é que Deus vai usar uma pessoa cheia de maquiagem, parecendo uma prostituta?”.
VI - “DEUS ABOMINA A IDOLATRIA” dizemos. Mas esquecemos que idolatria é tudo o que se torna o objeto principal de nossa preocupação, lealdade, serviço ou prazer. Como renda, bens, futebol, sexo ou qualquer outra coisa. A questão é: quem ou o quê regula o meu comportamento? Deus ou um substituto? Há até muitas esposas, por exemplo, que oram pela conversão do marido ao ponto disso tornoar-se numa obsessão idolátrica: “Tenho que servir bem a Deus, para ele converter meu marido”; “Não posso deixar de ir a igreja senão Deus não salva meu marido”; “Preciso orar pelo meu marido, jejuar pelo meu marido, fazer campanhas pelo meu marido, deixar de pecar pelo meu marido”. Ou seja, a conversão do marido tornou-se o objetivo final e Deus apenas o meio para alcançar esse objetivo. E isso também é idolatria.
VII - A BÍBLIA É A ÚNICA REGRA DE FÉ E PRÁTICA CRISTÃS ...Eu sei que a Bíblia diz, mas o Estatuto da Igreja rege... ... Eu sei que a Bíblia diz, mas nossa denominação não entende assim ... Eu sei que a Bíblia diz, mas a profeta revelou que é assim que tem que ser ... Eu sei que a Bíblia diz, mas o homem de Deus teve um sonho... ...Eu sei que a Bíblia diz, mas isso é coisa do passado...
VIII - DEUS ME DEU ESTA BENÇÃO! ...mas eu paguei o preço. ...mas eu fiz por onde merece-la. ...mas não posso dividir com você porque posso estar interferindo na vontade de Deus. Vai que Ele não quer que você tenha... Se você quiser, pague o preço como eu paguei.
IX - NÃO SE DEVE JULGAR PELAS APARENCIAS. AS APARENCIAS ENGANAM – mas frequentemente nos deixamos levar por elas para emitirmos nossos juízos acerca dos outros. Julgamos pela roupa, pelo corte de cabelo, pelo tamanho da saia, pelo tipo de maquiagem (ou a falta dela), pelo jeito de andar, de falar, pelo aperto de mão, pela procedência. Frequentemente, repito: frequentemente falamos ou ouvimos alguém falar: “Nossa! Como você é diferente do que eu imaginava. Minha primeira impressão era de que você era outro tipo de pessoa”.
X - A SANTIFICAÇÃO É UM PROCESSO DE DENTRO PARA FORA (é o que dizemos) – na prática não basta ser santo, tem que parecer santo. Se a tal ‘santificação’ não se manifestar logo em um comportamento pré-estabelecido, num jeito de falar, andar, vestir e de se comportar é porque o sujeito não se ‘converteu de verdade’

Visão, Lugar e a Presença de Deus


Por R. C. Sproul

Há grande debate e controvérsia em nossos dias sobre qual é a adoração correta diante de Deus. Como eu tenho lutado com essa questão, continuo voltando ao Antigo Testamento. Eu sei que essa é uma prática perigosa, porque agora vivemos na era do Novo Testamento, mas o Antigo Testamento nos dá instruções detalhadas e específicas sobre a adoração, enquanto o Novo Testamento é quase que silencioso a respeito desta conduta. No Antigo Testamento, eu encontro um refúgio da especulação, da opinião do homem e dos caprichos do gosto e da preferência humana, porque lá eu encontro o próprio Deus exigindo explicitamente que certas coisas aconteçam na adoração. Eu acredito que é possível e correto extrair princípios para a adoração do Antigo Testamento, pois os livros do Antigo Testamento continuam fazendo parte do cânon das Escrituras e, mesmo que haja certa descontinuidade entre o Antigo e o Novo Testamento, há também uma continuidade que não devemos desconsiderar.
Um dos princípios que aprendi do Antigo Testamento é esse: a pessoa deve ser envolvida por inteiro na experiência da adoração. Certamente, as mentes, os corações e as almas dos adoradores devem estar envolvidos, mas quando vamos ao culto no domingo pela manhã, não chegamos com as mentes, os corações ou as almas desencarnados. Nenhuma das nossas experiências é puramente intelectual, emocional ou espiritual. A experiência da vida humana também envolve aspectos físicos. Isso significa que todos os cinco sentidos estão envolvidos na experiência da vida. Somos criaturas que vivem a vida não apenas com as nossas mentes, corações e almas, mas com os nossos sentidos de visão, audição, olfato, paladar e tato.
Eu não tenho espaço suficiente neste breve artigo para abordar como os cinco sentidos estão envolvidos na adoração, ou mesmo para explorar todas as dimensões de apenas um desses sentidos. Então, quero considerar apenas uma forma pela qual o sentido visual pode ser impactado, para que os nossos corações sejam movidos a adorar.
Pesquisas rotineiramente nos dizem que as duas razões principais pelas quais as pessoas ficam longe da igreja são porque elas acham o culto chato e a igreja irrelevante. Essas razões, especialmente a primeira, me deixam surpreso. Eu sempre disse que, se o próprio Deus anunciasse que ele apareceria na minha igreja num domingo de manhã, às 11 horas, pessoas compareceriam a ponto de algumas ficarem em pé somente nessa hora marcada do culto. Tenho certeza de que ninguém que viesse a esse culto e testemunhasse a chegada de Deus iria embora depois, dizendo: “Eu fiquei entediado”. Quando lemos os relatos bíblicos de encontros de pessoas com Deus, podemos ver todas as gamas de emoções humanas. Algumas pessoas choram, algumas clamam de medo, algumas tremem, algumas desmaiam. No entanto, nunca lemos sobre alguém que tenha ficado entediado na presença de Deus.
Então, visto que a adoração é, em seu sentido mais básico, um encontro com Deus, como podemos explicar as pesquisas que nos dizem que as pessoas saem entediadas da igreja? Devo concluir que elas não estão experimentando a presença de Deus em nenhum sentido. Isso é trágico, porque se as pessoas não sentem a presença de Deus, elas não podem ser movidas a adorar e a glorificar a Deus.
Um dos elementos que ajudam as pessoas a sentir a presença real de Deus é a forma do ambiente de culto. Eu gostava de perguntar aos meus alunos do seminário, que eram protestantes, se eles já haviam estado em uma das grandes catedrais góticas católicas romanas. Muitos haviam estado, por isso eu lhes pedia para compartilhar suas profundas reações ao andarem por uma catedral. A maioria dizia: “Tive uma sensação de temor” ou “Eu senti a transcendência de Deus”. Isso me dava a oportunidade de mostrar como a arquitetura das catedrais, o formato do ambiente de culto nessas construções, colocava meus alunos no “clima” para a adoração, por assim dizer. É claro, as catedrais foram projetadas para despertar essa exata reação. Grande cuidado e reflexão foram empenhados no projeto das catedrais. Os projetistas queriam um formato que estimulasse nas pessoas uma sensação da sublimidade de Deus, da alteridade de Deus. Eu me entristeço ao ver que os protestantes não costumam ter o mesmo cuidado no projeto das igrejas. Nossos ambientes de culto são muitas vezes práticos. Os templos são projetados de acordo com o design de cinemas ou estúdios de televisão. Tais ambientes não têm nada de errado, mas muitas pessoas testemunhariam que esses ambientes não as inspiram à adorarem da mesma forma que o interior das igrejas tradicionais fazem.
Cabe a nós, penso eu, observar o grande cuidado com o qual Deus deu ao seu povo os planos para o tabernáculo, o primeiro ambiente de adoração. Como o templo que veio em seguida, o tabernáculo era um lugar de beleza, glória e transcendência. Era como nenhum outro lugar na vida do povo de Deus. Precisamos entender que a arquitetura da nossa igreja comunica algo aos nossos sentidos visuais e, portanto, essa arquitetura pode favorecer ou dificultar a nossa percepção da presença de Deus.