domingo, 17 de fevereiro de 2013

A farinha é pouca... meu pirão primeiro


Reino e a sua JUSTIÇA

Um dos versos prediletos dos pregadores modernos é Mateus 6:33, onde Jesus ordena: “Mas buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas”.

Este verso é sistematicamente usado para convencer aos fiéis a priorizarem o Reino de Deus, que para eles, limita-se à esfera eclesiástica. Priorizar o reino de Deus é entendido como sinônimo de ser assíduo aos cultos e jamais deixar de fazer suas contribuições. Família, negócios, lazer, tudo deve ser preterido, em função da agenda da igreja local.

Mas será exatamente isso que Jesus quis dizer? O que significaria “buscar o Reino de Deus”? E mais: o que significaria buscar a justiça desse reino?

Geralmente, a ênfase recai sobre o Reino, identificando-o com a igreja. E quanto à justiça desse reino, por que é simplesmente ignorada? Afinal, a ordem de Cristo é buscar em primeiro lugar o Seu Reino e a sua justiça.

Estaria Jesus falando da justiça imputada aos pecadores, quando estes admitem seu estado pecaminoso, recorrendo à misericórdia de Deus revelada na Cruz? Estaria Ele falando da tão importante doutrina conhecida entre nós como “justificação pela fé”?

Ou estaria Ele falando da justiça como o modo de vida proposto aos cidadãos do Reino de Deus?

Se Jesus estava referindo-Se à Justiça de Deus, então é provável que Ele estivesse falando da Justificação pela Fé. Mas Se Ele estava referindo-Se à Justiça do Reino, logo, é mais plausível crer que Ele estivesse falando da Justiça como práxis, como prática, e não apenas como algo que nos é imputado. Mesmo porque, a justiça que nos é imputada pela fé, não é resultado de qualquer busca humana, mas de uma intervenção soberana de Deus. Nós não a buscamos. Ela nos encontrou, e nos foi imputada pela fé.

Creio piamente que Jesus estava falando da Justiça do Reino, que é a conseqüência prática que deve ser encontrada na vida daqueles em quem foi imputada a Justiça de Deus.

Em sua primeira epístola, João diz: “Se sabeis que ele é justo, sabeis que todo aquele que pratica a justiça é nascido dele” (1 Jo.2:29). E mais: “Quem não pratica a justiça não é de Deus, nem aquele que não ama a seu irmão”(3:10b).

De fato, somos justificados pela fé somente. Isto é, ao crermos no Filho de Deus, e na suficiência de Seu sacrifício por nós, somos declarados justos no Tribunal Celestial. Não somos inocentados, mas justificados. Ser declarado justo não é o mesmo que ser declarado inocente. O inocente é aquele que não tem qualquer culpa. Já o que foi justificado é aquele que teve sua culpa comprovada, mas sua penalidade foi devidamente aplicada. Seu débito, portanto, fora saldado. No caso, Cristo arcou com nossa penalidade na Cruz, morrendo em nosso lugar.

Uma vez declarados justos, devemos buscar viver a Justiça do Reino de Deus.

Definição bíblica de justiça

Justiça é dar a cada um o que lhe é de direito. Nas palavras de Paulo: “Dai a cada um o que deveis” (Rm.13:7a). Toda vez que privamos alguém dos seus direitos, cometemos injustiça.Paulo define o Reino de Deus como “justiça, paz e alegria no Espírito Santo”, e afirma que “quem nisto serve a Cristo, agradável é a Deus e aprovado pelos homens” (Rm.14:17b-18). Quem disse que “agradar a Deus” e ser “aprovado pelos homens” são coisas excludentes?

A igreja primitiva experimentou cada uma destas dimensões do Reino de Deus, e por isso é dito que os crentes caíam “na graça de todo o povo” (At.2:47). Eles experimentavam uma verdadeira revolução, não apenas espiritual, mas também social.

Onde quer que a mensagem do Reino era pregada, havia grande alegria, até em cidades como Samaria, onde os discípulos jamais imaginariam ser bem recebidos (At.8:8).

A perseguição sofrida pela igreja era protagonizada pelas autoridades judaicas e romanas, não pelo povo. Era justamente a popularidade daquela nova seita, conhecida como “o Caminho”, que tanto incomodava às autoridades, instigando-as ao ciúme.

Mas enquanto as autoridades se corroíam de ciúmes, a igreja caía na simpatia das camadas populares, que eram contagiadas pela alegria do Espírito.

Aos poucos, a Igreja ía se espalhando pelo mundo, semeando a mensagem subversiva e poderosa do Reino de Deus. E o resultado? Além de alegria contagiadora, Lucas diz em sua reportagem que “as igrejas em toda a Judéia, Galiléia e Samaria tinham paz. Eram fortalecidas e, edificadas pelo Espírito Santo, se multiplicavam, andando no temor do Senhor”(At.9:31). A consciência apaziguada gera relações pacíficas. Quem não tem paz com Deus, não pode estar em paz consigo mesmo, e, conseqüentemente, não consegue ter paz com o semelhante. A paz oferecida por Cristo abrange a relação entre o ser humano e Deus, entre ele e seus semelhantes, e entre ele e sua consciência. E é esta paz que oferece o solo fértil, onde a Justiça possa ser semeada.

Tiago diz: “Ora, o fruto da justiça semeia-se em paz para os que promovem a paz” (Tg.3:18). Sem paz, torna-se impossível a frutificação da justiça do Reino. A Paz produz o ambiente propício para que a justiça, uma vez semeada, possa frutificar.

Alegria, paz, e... justiça!

Os crentes primitivos buscavam e viviam a justiça do Reino de Deus, em todas as suas implicações. E por isso, “não havia entre eles necessitado algum”(At.4:34). Como Jesus havia predito, todas as coisas lhes seriam acrescentadas, se buscassem prioritariamente a Justiça do Reino.

Porém, o cumprimento desta promessa não se daria através de alguma intervenção sobrenatural, mas através da prática da Justiça. Deus não faria chover pão do céu, como fizera no deserto, durante a peregrinação do povo hebreu.

A Ressurreição e a Ascensão de Cristo nos introduziram na Era do Reino, assim como a atravessia do Jordão introduziu Israel na terra da promessa. Enquanto os filhos de Israel caminhavam no deserto, nunca lhes faltou maná. Mas tão logo foram introduzidos na Terra Prometida, “cessou o maná; os filhos de Israel não o tiveram mais, mas nesse ano comeram das novidades da terra de Canaã”(Josué 5:12). Não faria sentido Deus manter aquilo por mais tempo, uma vez que Canaã era uma terra fértil, pronta pra receber sementes e frutificar.

Uma vez introduzidos no Reino, e recebido o Espírito da Promessa, caberia aos crentes semear, e assim, terem todas as suas necessidades supridas.

Jesus não mais multiplicaria pães e peixes, como fez no deserto por duas vezes. Nem promoveria pescas maravilhosas, como fez também por duas vezes. A partir de agora, a provisão de Deus se manifestaria através de meios naturais por Ele ordenados.

Os crentes primitivos perceberam logo isso. Eles sabiam que os sinais miraculosos continuariam, mas que já não visariam promover a satisfação de suas necessidades materiais. Lucas nos informa que “muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos. Todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um”(At.2:43b-45). Os sinais realizados pelos apóstolos limitavam-se a curas, libertação de espíritos malignos, algumas ressurreições, e manifestações de dons espirituais. Entre eles, não havia nada como multiplicação de pães, ou qualquer outro sinal que visasse suprir necessidades materiais.

E quanto à promessa de que todas as demais coisas seriam acrescentadas? Isso não incluiria coisas materiais?É claro que sim. Mas o expediente usado por Deus seria outro, e não pura intervenção sobrenatural. Isso se daria através daquilo que Paulo chamou de “o caminho mais excelente”.

Seria vivendo o amor derramado pelo Espírito no coração dos crentes, que a igreja experimentaria o suprimento de todas as suas carências materiais. O Amor e a Justiça devem caminhar sempre de mãos dadas. “O que segue a justiça e o amor acha vida, prosperidade e honra” (Pv.21:21).

A intervenção sobrenatural se dava no coração dos crentes, à medida que a Palavra se multiplicava entre eles (At.12:24).

Lucas dá testemunho de que “não havia entre eles necessitado algum. Pois todos os que possuíam herdades ou casas, vendendo-as, traziam o preço do que fora vendido, e o depositavam aos pés dos apóstolos. E repartia-se a cada um, segundo a sua necessidade”(At.4:34-35).

Era assim que eles viviam a justiça do Reino de Deus. Eles tinham tudo em comum. Por isso, não havia necessitado entre eles.

E quem pensa que tal estilo de vida começa e termina nas páginas de Atos dos Apóstolos, está redondamente enganado. Já no Antigo Testamento os judeus o experimentaram ao retornarem do exílio a Jerusalém. Neemais conta que os levitas “leram no livro da lei de Deus, esclarecendo-a e explicando o sentido, de modo que o povo pudesse entender o que se lia. Então Neemias, que era o governador, e Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que ensinavam o povo disseram a todo o povo: Este dia é consagrado ao Senhor vosso Deus, pelo que não vos lamentais, nem choreis. Pois todo o povo chorava, ouvindo as palavras da lei. Disse-lhes mais: Ide, comei as gorduras, e bebei as doçuras, e enviai porções aos que não têm nada preparado para si. Este dia é consagrado ao nosso Senhor. Não vos entristeçais, pois a alegria do Senhor é a vossa força (...) Então todo o povo se foi a comer, a beber, a enviar porçÕes e a celebrar com grande alegria porque agora entendiam as palavras que lhes foram comunicadas” (Nee.8:8-10,12).

Fenômeno bem parecido ao ocorrido na igreja primitiva. Bastou que o povo entendesse a Palavra, para que brotasse em seus corações a disposição de partilhar seus pertences. Lucas relata que “os que de bom grado receberam a sua palavra foram batizados (...) E perseveraram na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações”(At.2:41a, 42). Portanto, este estilo de vida surge muito antes de Atos, e prossegue depois dele.

Paulo, apóstolo dos gentios, o endossa em suas epístolas, onde nos ordena a partilhar “com os santos nas suas necessidades” (Rm.12:13). Paulo sabia que na Era do Reino, os crentes precisariam semear, e não esperar por intervenções freqüentes dos céus. E esta semeadura se daria quando os crentes se dispusessem a compartilhar seus bens. Como um visionário, Paulo entendia que a Igreja deveria ser uma agência catalisadora e distribuidora de recursos. Através da semeadura, os bens seriam distribuídos, e assim, todos desfrutariam igualmente dos recursos enviados por Deus.

Ao ordenar que os crentes de Corinto participassem desta graça, Paulo escreve:

“Mas, não digo isto para que os outros tenham alívio, e vós aperto, mas para igualdade. Neste tempo presente, a vossa abundância supra a falta dos outros, para também a sua abundância supra a vossa falta, e haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais, e o que pouco, não teve falta”2 Coríntios 8:13-15.

Repare que Paulo usa a analogia da semeadura para estimular os crentes a partilharem uns com os outros. Ele sabia que a igreja era o Novo Israel, que deixara o novo Egito (a Jerusalém apóstata)[1], e agora havia recebido “um reino que não pode ser abalado” (Hb.12:28). Portanto, a exemplo do antigo Israel, a Igreja deveria semear na boa terra do Reino, e através disso, produzir a Justiça do Reino.

O mesmo conceito é repetido por Pedro: “Servi uns aos outros conforme o dom que cada um recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pe.4:10). O que Deus dá a uns, é para que seja usado para benefícios de outros. Deus não é injusto por dar a uns o que nega a outros. Pelo contrário: Através disso, a Justiça de Deus se manifesta, fazendo com que dependamos uns dos outros. Ninguém é auto-suficiente no Reino de Deus. A igualdade ocorre quando a abundância de uns supre a falta de outros, e vice-versa.

Respeitando o princípio da semeadura, Paulo diz que nossa semeadura deveria ser “expressão de generosidade, e não de avareza” (2 C.9:5b). E mais: “O que semeia pouco, pouco também ceifará, e o que semeia com fartura, com fartura também ceifará” (v.6).

Segundo o Apóstolo, a Deus compete prover a semente, mas a nós compete semeá-la.

“Ora, aquele que dá a semente ao que semeia, e pão para o alimento, também multiplicará a vossa sementeira, e aumentará os frutos da vossa justiça”. 2 Coríntios 9:10.

Veja, ainda dependemos de freqüentes intervenções de Deus. Ele ainda multiplica... não mais pães ou peixes, e sim a nossa sementeira. Ele dá a semente. Ele provê oportunidades de trabalho, aptidões profissionais, força física, inspiração e motivação. Mas cabe a nós usar todos estes recursos para o bem comum, e não apenas para satisfação de nossas necessidades e cobiças.

Tiago afirma em sua epístola, que o motivo porque muitos pedidos não são atendidos por Deus é que pedimos mal: “Pedis e não recebeis porque pedis mal, para o gastardes em vossos prazeres” (Tg.4:3). Pedir mal é pedir pensando somente em si. Devemos pedir que Deus multiplique nossa sementeira, para que possamos ser bênção na vida de outros.

Multiplicando nossa sementeira, Ele faz aumentar os frutos da nossa justiça. E desta maneira, Ele espalha recursos, em vez de fazê-los concentrar em algumas mãos somente. Paulo revela que o propósito de Deus é “fazer abundar em vós toda a graça, a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência, abundeis em toda boa obra. Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre”(vv.8-9).

Eis a justiça do Reino de Deus em operação. Sua meta é espalhar recursos, e distribuí-los justamente. Isso é o inverso do sistema que vemos no mundo, onde as riquezas são concentradas em poucas mãos.

[1] Em Apocalipse 11:8 lemos que a cidade onde Jesus fora crucificado é espiritualmente chamada de Egito.

O Verdadeiro Arrependimento


Por C. H. Spurgeon

“Olharão para aquele a quem traspassaram” (Zacarias 12.10).

O quebrantamento santo que faz um homem lamentar o seu pecado surge de uma operação divina. O homem caído não pode renovar seu próprio coração. O diamante pode mudar seu próprio estado para tornar-se maleável, ou o granito amolecer a si mesmo, transformando-se em argila? Somente aquele que estendeu os céus e lançou os fundamentos da terra pode formar e reformar o espírito do homem. O poder de fazer que da rocha de nossa natureza fluam rios de arrependimento não está na própria rocha. O poder jaz no onipotente Espírito de Deus... Quando Deus lida com a mente do homem, por meio de suas operações secretas e misteriosas, Ele a enche com uma nova vida, percepção e emoção. “Deus... me fez desmaiar o coração” (Jó 23.16), disse Jó. E, no melhor sentido, isso é verdade. O Espírito Santo nos torna maleáveis e nos tornamos receptíveis às suas impressões sagradas... Agora, quero abordar o âmago e a essência de nosso assunto.
O enternecimento do coração e o lamento pelo pecado são produzidos por olharmos, pela fé, para o Filho de Deus traspassado. A verdadeira tristeza pelo pecado não acontece sem o Espírito de Deus. Mas o Espírito de Deus não realiza essa tristeza sem levar-nos a olhar para Jesus crucificado. Não há verdadeiro lamento pelo pecado enquanto não vemos a Cristo... Ó alma, quando você chega a contemplar Aquele para quem todos deveriam olhar, Aquele que foi traspassado, então seus olhos começam a lamentar aquilo pelo que todos deveriam chorar — o pecado que imolou o seu Salvador!Não há arrependimento salvífico sem a contemplação da cruz... O arrependimento evangélico é o único arrependimento aceitável. E a essência desse arrependimento é olhar para Aquele que foi moído pelos pecados... Observe isto: quando o Espírito Santo realmente opera, Ele leva a alma a olhar para Cristo. Nunca uma pessoa recebeu o Espírito de Deus para a salvação, sem que tenha recebido dEle o olhar para Cristo e o lamentar por seus pecados.
A fé e o arrependimento são gerados e prosperam juntos. Ninguém deve separar o que Deus uniu! Ninguém pode arrepender-se do pecado sem crer em Jesus, nem crer em Jesus sem arrepender-se do pecado. Olhe, então, com amor para Aquele que derramou seu sangue, na cruz, por você. Por meio desse olhar, você obterá perdão e quebrantamento. Quão admirável é o fato de que todos os nossos males podem ser curados por um único remédio: “Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os limites da terra” (Is 45.22). Contudo, ninguém olhará para Cristo sem que o Espírito de Deus o incline a fazer isso. Ele não conduz uma pessoa à salvação, se ela não se rende às suas influências e não volve seu olhar para Jesus...
O olhar que nos abençoa, produzindo quebrantamento de coração, é o olhar para Jesus como Aquele que foi traspassado. Quero me demorar nisso por um momento. Não é somente o olhar para Jesus como Deus que afeta o coração, mas também olhar para este mesmo Senhor e Deus como Aquele que foi crucificado por nós. Vemos o Senhor traspassado, e, em seguida, inicia-se o traspassamento de nosso coração. Quando o Espírito Santo nos revela Jesus, os nossos pecados também começam a ser expostos...
Venham, almas queridas, vamos juntos à cruz, por um pouco, e notemos quem era Aquele que recebeu a lançada do soldado romano. Olhe para o seu lado e observe aquela terrível ferida que atingiu seu coração e desencadeou um duplo fluxo de sangue. O centurião disse: “Verdadeiramente este era Filho de Deus” (Mt 27.54). Aquele que, por natureza, é Deus e governa sobre tudo, sem o Qual “nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3), tomou sobre Si mesmo nossa natureza e se tornou homem, como nós, mas não tinha qualquer mácula de pecado. E, vivendo em forma humana, foi obediente até à morte, morte de cruz. Foi Ele quem morreu! Ele, o único que possui a imortalidade, condescendeu em morrer! Ele, que era toda a glória e poder, sim, Ele morreu! Ele, que era toda a ternura e graça, sim, Ele morreu! Infinita bondade esteve pendurada na cruz! Beleza indescritível foi traspassada com uma lança! Essa tragédia excede todas as outras! Por mais perversa que tenha sido a ingratidão do homem em outros casos, a sua mais perversa ingratidão se expressou no caso de Jesus! Por mais horrível que tenha sido o ódio do homem contra a virtude, o seu ódio mais cruel foi manifestado contra Jesus! No caso de Jesus, o inferno superou todas as suas vilezas anteriores, clamando: “Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo” (Mt 21.38).
Deus habitou entre nós, e os homens não O aceitaram. Visto que o homem foi capaz de traspassar e matar o seu Deus, ele cometeu um pecado horrível. O homem matou o Senhor Jesus Cristo e O traspassou com uma lança! Nesse ato, o homem mostrou o que fariam com o próprio Eterno, se pudesse chegar até Ele. O homem é, no coração, assassino de Deus. Ele se alegria se Deus não existisse. Ele diz em seu coração: “Não há Deus” (Sl 14.1). Se a sua mão pudesse ir tão longe quanto o seu coração, Deus não existiria nem mesmo por mais uma hora. Isto dá ao traspassamento de nosso Senhor uma forte intensidade de pecado: foi o traspassamento de Deus.
Por quê? Por que razão o bom Deus foi assim perseguido? Oh! pelo amor de nosso Senhor Jesus Cristo, pela glória de sua Pessoa, pela perfeição de seu caráter, eu lhe peço — admire-se e envergonhe-se de que Ele foi traspassado! Não foi uma morte comum. Aquele assassinato não foi um crime comum. Ó homem, Aquele que foi traspassado com a lança era o seu Deus! Na cruz, contemple o seu Criador, o seu Benfeitor, o seu melhor Amigo!
Olhe firmemente para Aquele que foi traspassado e observe o Sofredor que é descrito na palavra “traspassado”. Nosso Senhor sofreu severa e terrivelmente. Não posso, em uma mensagem, descrever a história de seus sofrimentos — as tristezas de sua vida de pobreza e perseguição; as angústias do Getsêmani e do suor de sangue; as tristezas de seu abandono, traição e negação; as tristezas no palácio de Pilatos; os golpes de chicotes, o cuspe e o escárnio; as tristezas da cruz, com sua desonra e agonia... Nosso Senhor foi feito maldição por nós. A penalidade do pecado ou o que lhe era equivalente, Ele a suportou, “carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados” (1 Pe 2.24). “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Is 53.5).
Irmãos, os sofrimentos de Jesus devem amolecer nosso coração! Nesta manhã, lamento o fato de que não me entristeço como deveria. Acuso a mim mesmo daquele endurecimento de coração que eu condeno, visto que posso contar-lhes essa história sem enternecimento de coração. Os sofrimentos de meu Senhor são indescritíveis. Examinem e verifiquem se já houve tristeza semelhante à de Jesus! A sua tristeza foi abismal e insondável... Se você considerar firmemente a Jesus traspassado por nossos pecados e tudo que isso significa, seu coração se dilatará! Mais cedo ou mais tarde, a cruz desenvolverá todo sentimento que você será capaz de produzir e lhe dará capacidade para mais. Quando o Espírito Santo põe a cruz no coração, o coração se dissolve em ternura... A dureza de coração desaparece quando, com profundo temor, contemplamos a Jesus sendo morto.
Devemos também observar quem foram os que traspassaram a Jesus. “Olharão para aquele a quem traspassaram.” Ambos os verbos se referem às mesmas pessoas. Nós matamos o Salvador, nós que olhamos para Ele e vivemos... No caso do Salvador, o pecado foi a causa de sua morte. O pecado O traspassou. O pecado de quem? Não foi o pecado dEle mesmo, pois Ele não tinha pecado, e nenhum engano se achou em seus lábios. Pilatos disse: “Não vejo neste homem crime algum” (Lc 23.4). Irmãos, o Messias foi morto, mas não por causa dEle mesmo. Nossos pecados mataram o Salvador. Ele sofreu porque não havia outra maneira de vindicar a justiça de Deus e de prover-nos um escape da condenação. A espada, que deveria cair sobre nós, foi despertada contra o Pastor do Senhor, contra o Homem que era o Companheiro de Jeová (Zc 13.7)... Se isso não quebranta nem amolece nosso coração, observemos por que Ele foi levado a uma posição em que poderia ser traspassado por nossos pecados. Foi o amor, poderoso amor, nada mais do que o amor, que O levou até à cruz. Nenhuma outra acusação Lhe pode ser atribuída, exceto esta: Ele era culpado de amor excessivo. Ele se colocou no caminho do traspassamento, porque resolvera salvar-nos... Ouviremos isso, pensaremos nisso, consideraremos isso e permaneceremos apáticos? Somos piores do que os brutos? Tudo que é humano abandonou a nossa humanidade? Se Deus, o Espírito Santo, está agindo agora, uma contemplação de Cristo derreterá o nosso coração de pedra...
Quero dizer-lhes ainda, ó amados: quanto mais olharmos para Jesus crucificado, tanto mais lamentaremos o nosso pecado. A reflexão crescente produzirá sensibilidade crescente. Desejo que olhem muito para Aquele que foi traspassado, para que odeiem cada vez mais o pecado. Livros que expõem a paixão de nosso Senhor e hinos que cantam a sua cruz sempre foram bastante queridos pelos crentes piedosos, por causa de sua influência sobre o coração e a consciência deles. Vivam no Calvário, amados, até que viver e amar se tornem a mesma coisa. Diria também: olhem para Aquele que foi traspassado, até que o coração de vocês seja traspassado.
Um antigo teólogo dizia: “Olhe para a cruz, até que tudo que está na cruz esteja em seu coração”. E acrescentou: “Olhe para Jesus, até que Ele olhe para você”. Olhem com firmeza para o sua Pessoa sofredora, até que Ele pareça estar volvendo sua cabeça e olhando para você, assim como o fez com Pedro, que saiu e chorou amargamente. Olhe para Jesus, até que você veja a si mesmo. Lamente por Ele, até que lamente por seu próprio pecado... Ele sofreu em lugar, em favor e em benefício de homens culpados. Isso é o evangelho. Não importa o que os outros preguem, “nós pregamos a Cristo crucificado” (1 Co 1.23). Sempre levaremos a cruz na vanguarda. A essência do evangelho é Cristo como substituto do pecador. Não evitamos falar sobre a doutrina do Segundo Advento, mas, antes e acima de tudo, pregamos Aquele que foi traspassado. Isso levará ao arrependimento evangélico, quando o Espírito de graça for derramado.

Eu estou indo para sempre!



Por Josemar Bessa

Em 23 de agosto de 1683 - um dia antes de morrer - John Owen (Um gigante na história da igreja)  ditou uma carta final para seu amigo Charles Fleetwood. Parte dela diz:
Eu estou indo para Ele a quem a minha alma tem amado, ou melhor, que me amou com um amor eterno, que é todo fundamento de toda minha consolação. A passagem é muito cansativa e sofrida, através de fortes dores de vários tipos que são acompanhadas de uma febre intermitente. . . Eu estou deixando o navio da igreja em uma tempestade, mas enquanto o grande piloto está nele a perda de um pobre remador será desprezível.
Apesar de ser um dos maiores nomes na história da igreja neste mundo, John Owen entendeu, como todos devemos entender, que depois de vivermos totalmente para Deus aqui, devemos partir em paz sabendo que é Deus quem edifica e guarda sua igreja e não nós. Somos apenas pobres remadores. O capitão levará o barco até o porto: “Eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não poderão vencê-la.” - Mateus 16:18 – Ele edifica e garante a entrada de cada santo, cada homem regenerado que compõe a Sua igreja, na glória: “Àquele que é poderoso para impedi-los de cair e para apresentá-los diante da sua glória sem mácula e com grande alegria, ao único Deus, nosso Salvador, sejam glória, majestade, poder e autoridade, mediante Jesus Cristo, nosso Senhor, antes de todos os tempos, agora e para todo o sempre! Amém.” - Judas 1:24-25

Somos apenas remadores, talvez não como John Owen foi, mas ainda assim remadores. Remem enquanto esse é o tempo determinado para nós fazermos isso. Depois Ele nos receberá na glória e continuará edificando Sua igreja.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

NEM MONGE NEM EXECUTIVO


Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho
É moda entre os evangélicos citar monges como modelo de espiritualidade. Apesar de permanecerem idólatras, são mostrados como exemplos para nós. Por exemplo, Philip Yancey, que exibe grande ressentimento contra tradicionais, é mestre em exaltar monges. Nesta esteira veio o livro O monge e o Executivo, de James Hunter, tido como uma “bíblia” de liderança.
Quando vi o livro de Paul Freston, Nem monge nem executivo, gostei e adquiri. Pelo título e por Freston, que combina espiritualidade e brilho intelectual. Li de uma assentada. É um livro de meditações nos evangelhos. Analisando personagens que se relacionaram com Jesus, começando por Maria, Freston mostra como suas vidas foram radicalmente modificadas. Ao invés de olhar para homens como modelos de espiritualidade, ele acena com o modelo de vida de Jesus. Não trata de liderança, mas como Jesus é um modelo de espiritualidade invertida, uma espiritualidade serviçal. Freston não combate o livro de Hunter. Nem eu. Li O monge e o executivo, aprendi com ele, e vejo valor nele. Mas Jesus é realmente fantástico. Um homem absolutamente despreocupado consigo mesmo, sem qualquer desejo de dominar. Na realidade, um antilíder, pois sua preocupação maior era de ser servo.

Jesus é o maior líder, o maior vulto da história. Escolheu doze homens sem relevância social, numa região atrasada, subdesenvolvida, e trabalhou com eles por curtos três anos. Foi traído por um deles e abandonado pelos demais. Foi morto com requintes de crueldade, sob intensa zombaria. Não deixou uma linha escrita. Mas mais livros se escreveram sobre ele que sobre qualquer outro personagem. Mais músicas se compuseram sobre ele que sobre qualquer tema. Sua maior viagem não ultrapassou 300 km. Mas marcou o mundo. Fundou um movimento que chamou de “minha igreja”, e que tem atravessado os milênios, duramente perseguida. Até mesmo por gente que diz segui-lo. Há gente na igreja que serve ao inimigo: odeia-a. Muitas vezes seus seguidores o desonraram e fizeram coisas erradas em seu nome. E ele continua como o maior homem que já existiu.

Ninguém recuperou mais vidas que ele. Ninguém reconstruiu mais lares que ele. Ninguém encheu os homens de esperança e vigor para uma vida correta mais que ele. Gosto de Beethoven, mas não morreria por ele. Gosto de Machado de Assis, mas não sofreria por ele. Não apenas eu como milhões de pessoas morreriam por Jesus, vendo isto como privilégio.

Jesus é o modelo. Um líder que não aprendeu com monges. Era menos executivo e mais office boy: sua preocupação era fazer a vontade do Pai. Nunca usou as pessoas como trampolim para seu ego, mas deu a vida por elas. Ninguém chega aos seus pés.
Sim, nem monge nem executivo. Jesus.

Caçadores de Heresias

Por J. W. McGarvey

Algumas pessoas têm idéias muito confusas sobre a caça de heresias e sobre a liberdade cristã.
Se um homem avançar e procurar propagar ensinos que eu considero muito injuriosos- insultantes, se é que não os considere totalmente destruidores, e eu retornar este ataque atacando tais ensinos com vigor, tal vigor que ele se sinta incapaz de resistir a respeito dos méritos da questão [ante a Bíblia tomada literalmente, dentro do contexto de cada texto], é comum que a ele e seus amigos só reste o truque de gritarem, "Caçador de Heresias! Caçador de Heresias!"

Se os muitos de nós forem espionar noite e dia as palavras de algum homem para encontrar algo errado, do mesmo modo como alguns cães de caça, trancados em um quintal, ficam desesperadamente latindo toda a noite até mesmo contra insetos ou inimigos imaginários... nós poderíamos ser justamente acusados de loucos "Caçadores de Heresias"; mas se aqueles cães de caça têm visto uma raposa sair da galinheiro de algum homem, ninguém objetaria se eles derem o alarme e saírem em perseguição do sanguinário animal. A raposa pôde gritar com todos seus pulmões alegando ter liberdade pessoal, e dizer, "eu tenho todo direito de ter uma galinha para jantar e você não tem nenhum direito de me denunciar tão escandalosamente, muito menos de me perseguir," não obstante, o julgamento comum da humanidade diria que isso, perseguir a raposa, afastando-a, seria um ato reto e louvável, enquanto o ato da raposa matar as galinhas é nocivo.

Longe, no Oeste, há caçadores de ursos. Eles vão rastejando furtivamente ao redor entre os montes e as rochas, tentando surpreenderem um urso e prevalecerem sobre ele. Nisto, esses caçadores são como reais "Caçadores de Heresias". Mas se um homem estiver andando ao longo da estrada pública, e encontrar-se com um urso em pé sobre suas patas traseiras, tentando despedaçá-lo com suas patas dianteiras, é certo que haverá uma luta ou uma corrida a pé; e se o homem lutar contra o urso, ninguém poderia, por causa disto, chamá-lo de um caçador de ursos. O urso pode dizer, "eu sou livre, e tenho tanto direito a essa estrada estrada quanto você tem, e tenho o direito de matá-lo", e o homem poderia responder, "eu também sou livre e tenho tanto direito a esta estrada quanto você tem, e tenho direito de resistir e não me deixar ser morto".
E se o homem dissesse também, "Você está procurando me abraçar, e você abraça todos que você pode, assim eu passarei uma bala através de você", o cidadão médio diria que o homem estava no seu direito. Assim, se uma heresia não quiser ser recebida a balas, deve manter-se bem escondidinha, e não sair de onde deveria ficar, e vir para fora, para a estrada pública, a fim de atacar todos que nela passam"

"Tolerância é uma virtude para aqueles que não têm nenhuma convicção." - Anônimo

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Livro polêmico revela “segredos sujos” sobre pastor Mike Murdock

Após sair da cadeia, ex-missionário que roubou a casa do pastor faz sérias acusações

O pastor Mike Murdock se diferencia entre a maioria deles por enfatizar justamente a necessidade de sabedoria. Ele escreveu dezenas de livros sobre o assunto e criou, inclusive, o Centro de Sabedoria, sede de seu ministério em Fort Worth, Texas.

Mas quando ele se tornou famoso, aparecendo em programas diversos e sempre comparando a busca por sabedoria com o acúmulo de riquezas, passou a chamar atenção de muita gente dentro e fora da igreja.

O jornal texano Star-Telegram fez, em 2003, uma série de reportagens investigativas sobre O Centro de Sabedoria e o ministério de Mike Murdock. A questão levantada pelos repórteres era o acúmulo de riquezas por um pastor que afirmava manter uma organização sem fins lucrativos. O jornal, dedicou um grande espaço para mostrar os jatinhos e carrões que ele possuía, além dos esplendores da imensa propriedade de 7 hectares que Murdock mantém em Argyle, Texas.

Naquela ocasião, o Star-Telegram contou com o apoio da Trinity Foundation [Fundação Trindade], que se descreve como uma organização disposta a “monitorar e investigar a fraude religiosa desde 1987”. O próprio pastor Mike contou, quando esteve no Brasil, que depois de muitas investigações do departamento de Imposto de Renda e do jornal, nada ficou provado e ele nunca foi condenado.

Em 2011, novamente Mike Murdock e seu ministério estão sendo acusado de fraudes, mas de uma maneira diferente. O ex-missionário Brian “Trey” Smith publicou um livro chamado “Thieves: A dirty TV pastor and the man who robbed him” [Ladrões: um pastor da TV desonesto e o homem que o roubou], onde descreve, com riqueza de detalhes, os bastidores do ministério de Murdock e sua obsessão, a exemplo de Salomão, por mulheres e riquezas.

Em 1998, Trey estudava no seminário Cristo para as Nações, em Dallas. Seu melhor amigo naquela época era Jason Murdock, filho único do pastor Mike. Ele diz que rapidamente passou a ficar íntimo da família e passava horas na mansão da família e conheceu uma “sala secreta”, que possuía alarmes eletrônicos e abrigava um grande forte.

Trey e Jason passavam horas naquela sala, experimentando os caros relógios Rolex, pulseiras de ouro e anéis de diamante, jogando cara ou coroa com valiosas moedas antigas e folheando uma grande coleção de revistas pornô. Eles também faziam uso de bebidas alcoólicas e drogas.

Aos poucos, Trey relata que foi ficando com raiva de ver o pastor Murdock aparecer na TV o tempo todo falando sobre Deus enquanto vivia uma vida que não condizia com suas pregações. Ele relata que o pastor Murdock mantinha um mini-zoológico, que incluía inclusive um leão de estimação, várias limusines e vivia acompanhado de prostitutas de luxo.

Em seu livro ele descreve a situação assim:

“Considerava a sala secreta de Mike uma conta pessoal, onde podia fazer saques pequenos enquanto, em troca, mantinha minha boca fechada. É um fardo viver em uma bolha cristã, sem nunca poder falar sobre o paraíso escondido do pregador, com prostitutas siliconadas, brinquedos sexuais, pornografia pesada, e tudo que o dinheiro podia comprar… Em minha mente, era tudo um comércio, um arranjo sórdido…

Naquela época, eu entrava no closet do pai do meu melhor amigo como o cara que descobriu a tumba do faraó. Havia caixas e caixas de anéis, braceletes e colares de ouro, moedas raras e uma desorganizada coleção de selos muito valiosos… Mas nada se comparava ao que imaginávamos haver dentro do grande cofre, que ficava no meio do quarto. Nunca conseguimos abri-lo, mas passei a deseja-lo. Sonhava com isso, fantasiava como seria… Não queria apenas roubar o seu dinheiro… Mais do que isso, eu tinha realmente aprendido a odiar aquele homem e tudo que ele representa.

Odiava as mentiras, o engano, a ganância, os acordos de bastidores, os segredos, o sexo e toda a dor que ele causava aos cristãos falando sobre a necessidade de eles terem fé no “deus dólar”. Para mim, dentre os televangelistas, Mike Murdock era o pior. Enquanto o mundo estava assistindo-o pregar de terno, gravata e Bíblia aberta em suas telas de televisão, eu conhecia os lugares que ele nunca mostraria perante as câmeras.

Eu sentia que todos seus mantenedores tinham sido injustiçado. Iria apenas consertar as coisas. Eu sabia que praticamente nada daquele dinheiro era destinado para o que Murdock chamava de “instituições de caridade.”Eram apenas uma fachada que ajudavam a manter seu desejo por ter ouvintes obedientes, posses terrenas, contas bancárias de grande porte, mulheres bonitas, escapadas sexuais e sede de poder. Por todas estas razões, eu não me sentia nem um pouco mal por tomar até o último centavo que ele tinha. Eu não era herói. Eu tinha me tornado um canalha sujo e podre como todos eles.”

Trey acabou usando seus conhecimentos e familiaridade com a mansão para roubar o cofre de Murdock enquanto ele estava em sua viagem anual a Israel em 1999. Sabendo a combinação dos alarmes, entrou na sala secreta e fugiu para o México. No relatório para a polícia, Murdock afirmou que no cofre havia 125 mil dólares, nos vídeos disponíveis na internet ele diz que foram milhões. Trey afirma que foi tudo uma armação, o pastor teria colocado pilhas de papel cortadas do tamanhão de notas verdadeiras e escrito um bilhete dizendo que jamais perdia, que sua fortuna estava a salvo no banco e que iria atrás do ladrão. Com medo do que podia acontecer, Trey fugiu para o México sem dinheiro e com mais raiva ainda do pastor.

Depois de extensa investigação nos Estados Unidos, provas contra Trey foram reunidas, mas ele estava fora do alcance da lei americana. Murdock então contratou investigadores particulares que o rastrearam quando ele voltou para os Estados Unidos.

Ele respondeu por esse roubo e outras acusações e cumpriu pena numa penitenciária durante quase uma década. Enquanto estava preso, escreveu boa parte seu livro, onde diz relatar com detalhes muitos outros segredos do ministério de Murdock e também de outros pastores conhecidos.

Trey Smith agora se diz arrependido e livre das drogas, e que deseja mostrar ao mundo que está mudado. Afirma ter se reconciliado com Deus, mas continua disposto a mostrar quem realmente é o pastor Mike Murdock. Além de publicar Thieves de maneira independente em forma impressa e como ebook, Trey mantém o site godinanutshell.com que oferece várias informações sobre seu passado e traz “provas” de seu roubo e de todas as acusações que faz.

A revista texana D Magazine publicou o primeiro capítulo do livro e tentou ouvir o pastor Murdock ou alguém que pudesse falar em nome do Centro de Sabedoria. Não teve resposta.

O Estado é ministro de Deus?


Por Pr Marcello de Oliveira em parceria com Julio Severo
 
A função de autoridade governamental constituída é trabalhar como ministro de Deus para o bem, isto é, para a segurança, ordem e a paz da sociedade (Rm 13:3,4). Esse serviço ou ministério estatal para o nosso bem deve, de acordo com o Apóstolo Paulo, ser implementado de duas maneiras importantes e fundamentais:

1) Castigar o mal (13:3,4). 
 O Estado recebe de Deus uma responsabilidade e uma função explicitamente proibidas às igrejas cristãs (Rm 12:17-19). As igrejas cristãs não têm chamado e autoridade para multar, prender, castigar ou executar criminosos, assassinos e estupradores. Mas o que Deus proíbe às igrejas ele ordena ao Estado fazê-lo. Os governantes (presidente, comandantes militares, prefeitos, delegados de polícia, etc.) devem ser austeros no combate ao mal, pois liberdade sem restrição resulta em anarquia. O governo não pode ser complacente com os crimes, com o mal, com a anarquia, com as forças desintegradoras que tentam anarquizar a sociedade. O governo não pode agir com frouxidão no castigo dos crimes. Ele precisa punir exemplarmente os promotores do mal. Tem de reagir com rigor e firmeza contra toda forma de violência, crime e suborno (Gn 9:6; Pv 17:11,15; 20:8,26; 24:24; Rm 13:4).

2) Elogiar os cidadãos que fazem boas obras (Rm 13:3,4).  
O objetivo do governo não é substituir a família e a igreja nos seus papéis importantes de bem-estar social, nem substituir os cidadãos em sua liberdade e chamado divino de amar o próximo. O papel do governo é elogiar aqueles que fazem o bem.
Como diz Mary Pride em seu livro De Volta Ao Lar: “O versículo não diz absolutamente nada sobre o governante fazendo o bem, nem nas próprias palavras nem no contexto. O versículo anterior nos diz que o governante nos elogiará se nós fizermos o que é bom. Por que? Porque ele é servo de Deus para nós em favor do bem. A responsabilidade do governante é estabelecer uma atmosfera na qual as boas obras de cada pessoa sejam incentivadas e as más ações sejam reprimidas. Obviamente, se o governante começar a sentir que é dever dele fazer todas as boas ações, ele não vai querer elogiar as boas ações dos cidadãos. Além disso, ele fará tudo o que puder para reprimi-las, já que as boas ações dos cidadãos estarão rivalizando com os planos do governo e usurpando sua autoridade. Essa sempre foi a situação dos países socialistas [como a ex-União Soviética], cujas leis proibiam as instituições de caridade particulares. A afirmação de que o governante é servo de Deus para nos fazer o bem, através das entidades de assistência social do governo, não tem base bíblica, pois esse tipo de raciocínio contradiz tanto o texto quanto o contexto de Romanos 13:4”.
Quando o governo muda o foco e quer ser o Supremo Benfeitor, ele tira mais impostos dos cidadãos, que ficam com muito menos de seu próprio dinheiro para fazerem caridade e ajudarem os necessitados. A enorme e exagerada carga de impostos, cobrada sob a desculpa de ajudar os pobres, provoca um grande sangramento dos recursos das famílias, escoando em grande parte para os bolsos, cuecas e cofres de governantes corruptos. Enquanto isso, a função fundamental de o Estado dar segurança à sociedade fica à deriva.
No caso específico do governo brasileiro, como é que ele conseguirá enfrentar a macabra pena de morte aplicada anualmente pelos criminosos em mais de 50 mil vítimas brasileiras? Não pode, pois ele está ocupado demais competindo com as famílias e igrejas na oferta de caridade. Governo brasileiro como terror para os bandidos? Nem sonhando.
O desempenho do governo brasileiro está bem distante da responsabilidade que o Apóstolo Paulo aponta no Novo Testamento: “Visto que a autoridade é ministro de Deus (ênfase nossa) para seu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada (ênfase nossa); pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal (ênfase nossa). É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência”. (Rm 13:4,5).
A palavra grega para espada, μάχαιραν (machaira), é usada por Paulo aqui como símbolo de punição capital, que é a pena mais elevada e compatível com o crime mais elevado, que é tirar injustificadamente uma vida humana inocente.
Tal postura nada tinha a ver com legalismo, pois Paulo não estava falando sobre espada nas mãos da igreja, mas nas mãos de quem competia: o Estado. Como o melhor intérprete da missão, vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, Paulo sabia perfeitamente separar o papel da igreja (oferecer a compaixão e misericórdia de Deus, que é parte integral do caráter amoroso de Deus) e o papel do Estado (aplicar punições, que é parte integral do caráter justo de Deus).
Ele combatia o legalismo dentro da igreja como nenhum outro apóstolo, de modo que se algum novo ensino instruísse que era missão da igreja aplicar multas, prisão, castigos ou pena capital em criminosos, ele o refutaria como legalismo, pois a igreja jamais pode usurpar ou substituir o Estado em sua missão.
De forma semelhante, ele jamais aceitaria um ensino que defendesse o Estado usurpando ou substituindo a igreja em sua missão e ministério de misericórdia e transformação (também chamada de “reabilitação”) de pecadores.
Portanto, como profundo conhecedor dos Evangelhos, o que Paulo faz em Romanos 13 não é oferecer sua opinião pessoal, mas descrever o rigoroso chamado anticriminal do governo tal qual deve ser, de acordo com a vontade de Deus. Seja qual for o país — Império Romano, Israel, Brasil, EUA, etc. —, todo governo tem ordens divinas de impor punição e retribuição à altura dos crimes cometidos, usando inclusive a aplicação de força e meios letais.
Em sua função, o papel do Estado é ser, nas palavras do Apóstolo Paulo, terror para as más ações: assassinatos, estupros, sequestros, pedofilia, etc. Assim como Deus não tolera o mal, também as autoridades devem ter pulso forte para combatê-lo.

 Quando o Estado impõe aos malfeitores punições de acordo com o merecimento de seus crimes, está agindo como servo de Deus, executando sobre eles a ira divina (Rm 13:4).
A diferença é clara. A igreja é chamada para mostrar a misericórdia, o amor e a compaixão de Jesus Cristo a toda a sociedade, inclusive ministrando cura e libertação. O chamado da igreja também inclui a importante responsabilidade de dar educação às suas congregações.
Mas o Estado é chamado a mostrar a ira de Deus sobre os malfeitores e elogiar os que fazem o bem. Portanto, grande é a distância de atuação entre esses dois diferentes ministros de Deus, embora misericórdia e justiça sejam componentes completamente unidos no caráter de Deus.
O que o Estado não pode fazer, a igreja deve fazer. O que a igreja não pode fazer, o Estado deve fazer.
Ao falar sobre o Estado e seu direito de executar malfeitores culpados de cometerem o mais elevado ato de violência contra a inviolabilidade, valor e sacralidade da vida humana, Paulo não estava se referindo a um Israel teocrático, que nem existia mais na época. Evidentemente, ele estava falando do Império Romano, um governo que aplicava amplamente a pena de morte. Suas palavras confirmavam e corrigiam o papel do Estado. Confirmavam o papel do Estado como executor de assassinos e outros indivíduos de igual periculosidade. E corrigiam mostrando que a execução não é um direito ilimitável, isto é, o Estado não tem autorização de Deus para executar toda e qualquer pessoa. Apenas criminosos de alta periculosidade.
Tal compreensão hoje é importante, quando vemos governos comunistas e islâmicos executando homens e mulheres pelo “crime” de se converterem a Cristo. Já na Europa, que se orgulha de não mais aplicar a pena capital em assassinos e outros criminosos perigosos, há uma ampla aplicação dessa pena em inocentes, mediante práticas de aborto, infanticídio e eutanásia. São literalmente milhões de vidas inocentes perecendo sob o peso de uma pena capital 100% injusta imposta pelo Estado.
No Brasil, que se orgulha igualmente de não ter pena capital para criminosos assassinos, o governo não só tolera que mais de 50 mil brasileiros inocentes sofram a pena de morte, muitas vezes sob tortura e crueldade, nas mãos de criminosos, mas também está trabalhando para seguir o padrão europeu de aplicação dessa pena em bebês em gestação, doentes, deficientes e idosos, mediante a aprovação de leis de aborto e eutanásia.
O que fazer nesse cenário onde o Estado mostra misericórdia para quem deveria punir e mata quem precisa de proteção e misericórdia? Como servos de Deus, devemos orar pelos governantes (1Tm 2.1,2), para que cumpram sua missão. Devemos honrá-los, obedecer-lhes e pagar-lhes impostos para sustentá-los em seu papel de dar segurança contra os malfeitores. Mas devemos também confrontá-los se eles se desviarem de seu chamado fundamental, pois quer saibam ou não, eles governam debaixo do próprio governo de Deus e o representam.
Servos de Deus como o Apóstolo Paulo são a consciência do Estado e seus governantes, alertando-os sempre que perderem o rumo da sua caminhada.

O culto deve ser divertido?

Por Bob Kauflin
Hebreus 10.24,25 – “E consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês vêem que se aproxima o Dia.”

Mais de uma vez ouvi cristãos afirmando que o culto deve ser divertido, ou agirem como se eles tivessem uma responsabilidade de provar que os cristãos sabiam como “curtir” na igreja. Sempre me senti desconfortável com essa conexão, então comecei a pensar sobre o lugar da “diversão” no culto, e se isso realmente existe. Gostaria de tratar a questão respondendo como eu a fiz, e então considerando duas maneiras pelas quais ela pode ser reescrita.

O culto deve ser divertido? Se tomarmos o testemunho exaustivo da Escritura, a resposta poderia ser um ressoante NÃO. “Diversão” não parece caracterizar muitas das cenas onde o povo encontra Deus na Bíblia. Somos ensinados a adorar a Deus com reverência e respeito, pois ele é fogo consumidor (Hb 12.28-29). Ter “diversão” nunca deveria ser nosso motivo principal quando nos reunimos. Nosso alvo é lembrar a grandeza de Deus, apresentar nossas petições diante dele, e agradecê-lo por suas misericórdias abundantes em Jesus Cristo. Celebração certamente deve ser incluída nisso, mas existem também momentos em que adorar a Deus produz temor, lágrimas de arrependimento, e um profundo silêncio.

Mas, deixe-me refazer a questão. O culto pode ser divertido? Depende de como definimos “diversão”. Eu sei que alguns de vocês não acreditam que eu esteja realmente levando em consideração essa ideia. E é possível que ganhe alguns comentários a esse respeito. Mas acredite: não estou tentando ser leviano. De fato, estou, no momento, na conferência de pastores de John Piper e, na última noite, ouvi uma mensagem de R.C. Sproul sobre a santidade de Deus em Isaías 6. Foi poderosa, convincente e sóbria. Adoramos a um Deus santo.

Se “diversão” for definida como uma atividade leve, sem propósito ou significado, estritamente a fim de entreter, então a resposta a “o culto pode ser divertido” deve certamente ser não. Quando adoramos a Deus juntos, não estamos procurando ser meramente entretidos ou momentaneamente distraídos dos cuidados deste mundo. Recreação não é o mesmo que adoração. Nossa alegria e prazer devem estar sempre fundamentados e formados pelos atos, natureza e atributos de Deus.

Entretanto, quando procuro por “diversão” em meu dicionário, o primeiro significado é “agradável”. Se estamos perguntando “adorar a Deus pode ser agradável?” então certamente a resposta deve ser sim. Isaías 6 não é o único capítulo da Escritura que descreve como nos relacionamos com Deus. Houve inúmeras vezes em que estive liderando o culto ou cantando como parte da congregação e pensei “eu amo fazer isso!”. O prazer inundou minha alma, e eu pude legitimamente dizer que eu estava tendo “diversão”!

Talvez isso seja semelhante ao que os israelitas experimentaram em 2 Crônicas 30. Eles estavam gostando tanto de celebrar a Festa dos Pães Asmos por sete dias que Ezequias e o povo espontaneamente decidiram manter a festa por mais sete dias (2 Cr 30.22,23)! Deve ter sido uma bela celebração! Em outra ocasião, Esdras e os sacerdotes disseram ao povo para que não se entristecessem ou chorassem porque aquele dia era “consagrado ao Senhor”, e que a alegria do Senhor era a força deles (Ne 8.9,10). Santidade e alegria não são necessariamente exclusivas.

Quando meus filhos estavam crescendo, eu queria que eles desejassem cantar músicas de louvor, e não vissem o relacionamento com Deus como algo que era apenas sério, sóbrio e solene. Afinal de contas, cantar ao Senhor deveria ser prazeroso (Sl 135.3; Sl 147.1). Davi dançou na presença do Senhor com toda sua força enquanto trazia a arca de volta a Jerusalém (2 Sm 6.12-15). O Salmista alegrou-se quando lhe disseram: “Vamos à casa do Senhor!” (Sl 122.1). Então, sim, quando definido como prazer, e não visto como o único aspecto do culto, adorar a Deus pode ser muito “divertido”. As pessoas não deveriam achar nossas reuniões sombrias ou sem vida. Sorrisos e mesmo risadas deveriam fluir enquanto consideramos quão bom, misericordioso e gracioso Deus tem sido a nós (Sl 126.2)!

Mas, deixe-me reescrever a questão mais uma vez, para expandir a aplicação. “Nossa diversão deveria ser um culto”? Bem, agora a resposta deve ser certamente “sim”. Somos ensinados em 1 Co 10.31 que quer comamos ou bebamos ou façamos qualquer coisa, façamos tudo para a glória de Deus. Ao invés de enfocar ou fazer a nossa adoração corporativa divertida, deveríamos dedicar mais tempo tendo certeza de que nossa “diversão” é adoração.
Aqui estão algumas questões que podem nos levar nessa direção:

Eu escolho uma atividade divertida porque não há nada mais para fazer ou porque eu creio que de alguma forma ela levará ao crescimento do meu amor pelo Senhor?

Quando eu jogo algo, participo de esportes ou me dedico a um hobby, minha atitude demonstra o fruto do Espírito?

Quando eu saio com um grupo de amigos, estou apenas procurando divertir-me, ou glorificar a Deus através de encorajamento, luta contra o pecado e serviço a eles?

As atividades que eu considero “divertidas” aumentam minhas afeições pelo Senhor ou a diluem?

Eu enxergo meu tempo livre como pertencente a mim ou ao Senhor?
A diversão que o mundo oferece é insatisfatória, enganosa e temporária. Não vamos idolatrá-la ou cair por causa dela. Como cristãos, podemos desfrutar de atividades divertidas sem acreditar que elas são as raízes de nossa alegria. A diversão, alegria, prazer e celebração que experimentamos quando adoramos a Deus é maior que o mundo poderá conhecer, porque a raiz dela é saber que somos completamente perdoados através do sacrifício substitutivo de Jesus Cristo. Nossa alegria está no próprio Deus. Seríamos tolos de procurá-la em outro lugar.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Comunhão e União com Deus - Há diferença?




Por Josemar Bessa

Quando eu ainda era um adolescente aprendi uma lição fundamental para minha vida espiritual com John Owen (1616-1683 – um dos maiores, senão o maior teólogo Puritano).

John Owen nos mostra uma distinção essencial entre união e comunhão com Deus. Como isso foi importante em minha vida. Como é fundamental entendermos isto. Nós, homens regenerados, somos unidos a Cristo no Pai pelo Espírito Santo. Esta união, é fundamental entendermos, é uma ação unilateral de Deus, na qual aqueles que estavam mortos em delitos e pecados, são feitos vivos, os que era trevas se tornam luz, os que eram escravos do pecado são libertos para amar a santidade, se deleitar nela...

Quando a Bíblia fala em “união”, deve ficar claro para nós, que o homem é meramente receptivo, sendo tão somente o objeto da ação graciosa e soberana de Deus. Este é o estado e condição de todos os homens que de fato foram regenerados, de todos os que foram feitos santos em Cristo por seus méritos infinitos.

Comunhão, é diferente – comunhão com Deus é distinta da união. Todos aqueles que estão assim em Cristo – unidos desta forma – são chamados a responder ao abraço amoroso de Deus. Enquanto a união com Cristo é algo definido e definitivo, a experiência da comunhão com Cristo pode flutuar, variar em intensidade.

Por que é essencial perceber isso? Essa é uma distinção teológica e experiencial nevrálgica, pois protege – e em nossa época de conhecimento bíblico tão raso, como temos perdido essa distinção – ela protege a verdade bíblica de que somos salvos pela soberana, radical e livre graça divina.
 
Essa distinção mostrada por John Owen é fundamental também porque ela protege a verdade bíblica de que os verdadeiros filhos de Deus tem uma relação com o seu Senhor, e como um relacionamento, há coisas que podem ajudar ou atrapalhar o mesmo.

Não dá espaço como se conviver com o pecado baseado na união, pois esta difere da comunhão. Quando um crente se sente confortável com o pecado ( por comissão – fazendo o que não deve fazer, ou por omissão – deixando de fazer o que é ordenado ), este inexoravelmente afeta o nível de intimidade dessa pessoa com Deus. A comunhão está sendo quebrada.

Não é que o amor do Pai cresce ou diminui para com seus filhos (adotados em Cristo) de acordo com suas ações, pois seu amor é inabalável e cumprirá o seu propósito – que não é simplesmente levar ao céu – mas depois de justificar, santificar até a glorificação, operando novos desejos, dando novas capacitações... transformando de “glória em glória” na mesma imagem de Cristo – mas o pecado tende a isolar o crente, fazendo-o sentir-se distante de Deus – o que será uma flecha cravada num coração se este for regenerado. Então junto com isso virá as acusações, tanto de Satanás quando da consciência, o que pode levá-lo a se preocupar de estar de novo sob a ira de Deus. Na verdade, porém, a comunhão foi quebrada – e precisa ser restaurada – mas a união está lá – os santos não estão sob a ira, mas na sombra segura da cruz.

Mas devemos lembrar que o propósito da união e levar a comunhão cada vez mais profunda – esse é o objetivo – Embora a consistência e vida comprometida de um santo em oração, adoração, meditação bíblica... não sejam as coisas que fazem Deus o amar mais ou menos, essas atividades – que manifestam o pulsar da nova vida – promovem a bela experiência de comunhão crescente com Deus, o que todo coração regenerado deseja ardentemente.

A negligência dessas coisas ameaçam a comunhão, mas não a união. E é exatamente isso, essa união eterna, que estimula o verdadeiro filho de Deus a abandonar o pecado contra Deus, que sempre é rápido em perdoar por amor a Cristo, e sempre abundante em compaixão misericordiosa, e fiel em seu amor sem fim por aqueles que estão em Cristo.

Obediência é fundamental – que possamos entender quão fundamental é o ponto no qual John Owen quer que nos fixemos. Obediência cristã é fundamental, mas sempre como o resultado desta união da qual o homem é, como dissemos, meramente receptivo, e não o terreno para que ela seja possível. A união, na qual somos apenas receptivos e o único caminho – e é inexorável em seu resultado – para a comunhão. Deve ficar claro para nós, homens regenerados, que desta realidade pessoal da união com Cristo e do Espírito Santo, flui naturalmente ativa comunhão – pois esse é o propósito da união, levar inexoravelmente a uma vida de santidade na qual somos dia a dia transformados na imagem de Cristo nos deleitando em tudo que Deus é para nós em Cristo. Novos corações que amam tudo que Deus é, são novos corações que amam a santidade sem limites, pois ela nada mais é que a expressão do caráter do Deus que é santo, santo, santo. Em comunhão nós adoramos a Deus na única maneira possível: na “beleza da Sua santidade” – Salmos 96.9

Veja aqui a Declaração de renúncia do Papa Bento XVI

 
"Pope Benedict XVI to resign: His announcement"

Tradução de João Cruzué

"Caros Irmãos,
Eu os convoquei para este Consistório, não apenas para as três canonizações, mas também para comunica-los uma decisão de grande importância para a vida  da Igreja. Depois de ter repetidamente examinado minha consciência diante de Deus, eu cheguei à certeza de que minhas forças, devido a uma idade avançada, não são mais adequadas para o exercício do ministério pedrino.
Eu estou bem consciente que este ministério, devido  sua natureza ser  essencialmente espiritual,  deve ser levado avante  não apenas com palavras e feitos, senão com orações e sofrimento.  Entretanto, no mundo atual, sujeito a tantas e rápidas mudanças e  sacudido por questões de profunda relevância para  a vida e fé, para governar a  barca de São Pedro e proclamar o Evangelho,  tanto as forças da  mente e do corpo  são necessárias, mas nestes últimos  meses elas têm se deteriorado em mim  ao ponto de  reconhecer minha incapacidade para cumprir adequadamente  o ministério a mim confiado.
Por esta razão, e bem ciente da seriedade deste ato, com  toda liberdade eu declaro que  renuncio ao ministério do Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, outorgado a mim em 19 de abril de 2005 pelos Cardeais, e  deixo a Santa Sé em Roma, a Sé de São Pedro, em 28 de fevereiro de 2013 que ficará vacante, e um conclave terá que ser convocado por aqueles que são competentes para isto,  para eleger o novo Supremo Pontífice.
Caros Irmãos, eu os agradeço sinceramente por todo amor e trabalho com os quais suportaram  a mim e ao meu ministério e eu peço perdão por todos os meus defeitos. E agora,  vamos deixar à Santa Igreja aos cuidados do  nosso Supremo Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo, e imploro a sua Mãe Maria, para que possa assistir ao Conselho de Cardeais com sua maternal solicitude, em eleger o novo Supremo Pontífice.  Com relação a mim, eu desejo ainda devotadamente servir à Santa Igreja de Deus no futuro através de uma vida dedicada à oração.
Do Vaticano, em 10 de fevereiro de 2013. BENEDICTUS PP XVI