quarta-feira, 13 de março de 2013

A Fé que Salva

 


Por Solano Portela

O movimento histórico conhecido como a Reforma do Século 16 ocorreu há quase 500 anos, iniciado quando Martinho Lutero, em 31 de outubro de 1517, pregou 95 teses, ou declarações, na porta da catedral de Wittenberg, que pastoreava. Lutero foi um homem que atravessou uma profunda experiência de conversão, pela qual teve os olhos abertos à simplicidade dos ensinamentos contidos na Bíblia. Comparando esses ensinamentos com o que era pregado e praticado na igreja dos seus dias, Lutero encontrou diferenças marcantes. Ele verificou como, ao longo do tempo, distorções haviam sido introduzidas, de tal forma que o povo era conservado em ignorância espiritual, privado das verdades reveladas na Palavra de Deus que podem levar à salvação. Os reformadores (Lutero e os que se seguiram a ele) procuraram resgatar a mensagem que salva e que pode levar os homens de volta ao seu destino original, reconciliando pecadores com o Deus santo que rege os céus e a terra.
Os historiadores têm, normalmente, identificado quatro pilares da Reforma do Século 16. Quatro temas principais que dominaram os escritos e ensinamentos dos reformadores, por serem essenciais à propagação da sã doutrina. Esses “pilares” são normalmente identificados por palavras latinas, não tão difíceis de compreender: Sola Scriptura, Sola Gratia, Sola Fide e Solus Christus. Vamos identificar esses significados e ver a relação deles, um para com os outros, bem como a razão da Reforma ter se concentrado nesses temas.

Sola Scriptura, significando que somente as Escrituras providenciam a fonte do nosso conhecimento religioso, das coisas espirituais cujo conhecimento é essencial à compreensão da vida. Essa era uma ênfase necessária, pois a igreja havia incorporado muitas doutrinas que não procediam da Bíblia, mas meramente de tradições humanas. Questões tais como culto às imagens, a existência do purgatório, etc., faziam parte das doutrinas ensinadas ao povo. Os reformadores, investigaram e deram um sonoro “não” a esse ensino e à consideração da “tradição” como fonte de autoridade igual ou superior à Palavra de Deus. Eles consideraram, corretamente, que isso era mortal para a saúde espiritual de qualquer um e da própria igreja.
Sola Gratia, significando que somente a Graça de Deus é a origem da nossa salvação. Na época da reforma, e mesmo nos nossos dias a tendência humana é a de exaltar a habilidade humana de salvar-se a si mesmo. Os reformadores apontaram que a Bíblia indica sem sombra de dúvidas que somente a graça de Deus, o favor não merecido da parte dele, origina um meio de salvação. Estamos todos mortos em delitos e pecados e, conseqüentemente, nada podemos fazer para nossa própria salvação. A iniciativa, de providenciar um plano de salvação, é de Deus e dele procedem todas as providências, nesse sentido.
Sola Fide, significando que somente a Fé é o meio pelo qual nos apropriamos da salvação efetivada por Cristo Jesus para o seu povo. Se a iniciativa da salvação é a graça de Deus, a Fé representa a resposta a essa iniciativa. Essa ênfase, extraída da Bíblia, era muito necessária, pois enfatizava-se as ações humanas como forma de se adquirir a salvação. Vendiam-se indulgências – pedaços de papel que, segundo os vendedores, representavam uma espécie de passaporte para o céu. Quanto mais se contribuía, mais certeza se obtinha, diziam eles, do perdão de pecados – do próprio comprador ou de parentes ou amigos que desejava beneficiar. Lutero e os demais reformadores, não encontraram qualquer base para esses ensinamentos nas Escrituras. Eles identificaram a Fé como sendo a resposta humana, provocada pelo toque regenerador do Espírito Santo de Deus, no processo de salvação.
Solus Christus, significando que somente Cristo é a base da nossa salvação. Somos salvos somente pelos méritos e pelo sacrifício de Cristo e não com base em qualquer outra situação ou ação humana. Cristo é o nosso único intermediário – assim a Bíblia especifica – e isso contrasta com tudo o que se ensinava, e ainda se ensina, relacionado com a intermediação de Maria e de outros “santos”.

Além dos “quatro pilares”, acima explicados, adiciona-se normalmente mais um: Soli Deo Gloria– Glória a Deus somente, significando o propósito da existência de nossas pessoas e de tudo o que temos ao nosso redor. Essa ênfase, igualmente bíblica, foi surgindo com o trabalho dos reformadores que se seguiram a Lutero, especialmente com o de João Calvino, que ensinou a doutrina da vocação – o chamado de Deus para que nos envolvamos em todos os aspectos da vida, sempre centralizando nossas ações na glória que é devida a Deus. Deus fez todas as coisas para sua própria glória e nos enquadramos em nossa finalidade e encontramos a felicidade quando abraçamos esse ensino em nossas vidas.

No meio desses pontos cardeais, dessas ênfases centrais nas doutrinas bíblicas, é interessante notarmos que Martinho Lutero considerava a questão da fé: Sola Fide – Somente a Fé, como sendo aquela ênfase crucial, que devia ser propagada e defendida a qualquer custo. Obviamente que, para ele, todas as demais eram importantes, mas com a questão da fé – como único e exclusivo meio pelo qual nos apropriamos da salvação – ele tinha um cuidado todo especial. Possivelmente isso ocorreu porque foi estudando a doutrina da fé que ele foi atingido pela contundência da mensagem divina de salvação. Lutero, atribulado porque estava acostumado a ouvir a pregação das indulgências, ou a validade de relíquias e amuletos, como meios de se tornar agradável a Deus, identificou-se como “um pecador perante Deus com a consciência atribulada”. Ele estudava a carta de Paulo aos Romanos, mais especificamente o capítulo 3, quando se deparou com a declaração: “o justo viverá pela fé”, no verso 28. Lutero escreveu o seguinte: “...então eu compreendi que a justiça de Deus é o fundamento de direito pelo qual, pela graça e pela misericórdia, ele nos justifica através da fé. Imediatamente eu me senti como se tivesse atravessado uma porta aberta e penetrado no paraíso”.

Assim, a justificação pela fé passou a ser uma das doutrinas centrais dos que abraçaram a fé reformada, que ficaram historicamente conhecidos como “protestantes”. Lutero escreveu, ainda: “esta doutrina é a principal e a angular. Somente ela gera, nutre, constrói, preserva e defende a igreja de Deus; sem ela a igreja de Deus não sobreviverá por uma hora”. O ensinamento bíblico, principalmente contido no terceiro capítulo de Romanos, sobre a justificação pela fé, não significa que nós somos considerados justos com base na fé. A base de nossa justificação é Cristo e o seu sacrifício na cruz, com a subseqüente vitória da morte, obtida em sua ressurreição. Somos salvos, portanto, pela Graça de Deus, por meio da fé, com base no trabalho de Cristo. Explicando o que é justificação, João Calvino nos ensina que ela “consiste no perdão dos pecados e na imputação da justiça de Cristo”. Uma das expressões que ele utiliza, é a de que os cristãos são “inseridos na justiça de Cristo”. Ou seja, não temos justiça própria, mas recebemos a justiça de Cristo sobre nós.

Na carta de Paulo aos Efésios (capítulo 2, versos 8 a 10), lemos: “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas”. A fé, aqui mencionada, é essa fé que salva. Aprendemos, nestes versos, que somos salvos somente pela graça proveniente de um Deus soberano. A fé, é o meio – “mediante a fé”. Mas note que não temos qualquer razão ou motivo de nos orgulharmos de termos exercitados fé. Nem temos qualquer prerrogativa ou direitos perante Deus. Somente exercemos a fé, porque ela é dom de Deus. Ele é que nos concede esse meio de resposta ao seu toque salvador. Aprendemos, também, que a salvação não vem das obras – não podemos nos orgulhar, ou nos gloriar, das nossas ações, pois elas não levam à salvação. No entanto, somos instruídos sobre o verdadeiro relacionamento entre graça, fé e obras (ações). Não existe graça verdadeira, sem a respectiva fé que salva. Não existe fé salvadora, sem as evidências dessa salvação, dessa transformação de vida – as obras, as ações de mérito, representadas pelo cumprimento dos mandamentos e das diretrizes divinas contidas nas Escrituras e que existem “para que andemos nelas”.

Essa é a fé que salva. A fé que não é simplesmente uma manifestação mística em algumas coisas. Muitos têm fé sincera em objetos que não podem salvar – em ídolos, em ritos de umbanda, em espíritos desencarnados. Mesmo em sinceridade, essa fé leva à perdição. Somente a fé em Cristo Jesus é fé salvadora (Atos 4.12: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos”). A fé que salva é conseqüência natural da graça. A fé que salva não é incompatível com as obras, mas as obras são uma conseqüência necessária a essa fé. Há quase 500 anos os reformadores entenderam isso e resgataram essa doutrina que não estava sendo ensinada e se encontrava velada debaixo do entulho de tradição humana que a havia soterrado. Você entende que essa fé é o único meio para a sua salvação?

Pela Fé Somente

Por

Um assunto que geralmente passa batido em meio às nossas discussões teológicas é a questão da salvação individual. Parece que assumimos tacitamente que todos os que se declaram cristãos concordam sobre o que é a salvação eterna e como ela é obtida - ou dada. Ao meu ver, este ponto é da mais alta importância para todos. Foi ele o ponto central da Reforma protestante do séc. XVI. A Reforma obviamente teve aspectos políticos, econômicos e culturais, mas, ao final, foi um movimento essencialmente religioso deflagrado por esta questão no coração de Lutero, "o que faço para ser salvo?"

A resposta de Lutero, seguida por Calvino, Zuínglio e todos os reformados até o dia de hoje, foi que o pecador é salvo pela graça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo somente, e não por seus méritos pessoais ou pela mediação da Igreja. A reação da Igreja Católica veio no Concílio de Trento, que consolidou a contra-Reforma católica, realizado sob a liderança do papa Paulo III em 13 de janeiro de 1547. Nos cânones aprovados neste Concílio, que salvo melhor juízo nunca foram revogados pela Igreja Católica de hoje, temos um que trata do assunto:
Cânone 9 - Se alguém disser que o pecador é justificado pela fé somente, significando que nada mais é requerido para cooperar com o objetivo de se obter a graça da justificação, e que não é necessário de forma alguma que ele seja preparado e disposto pela ação de sua própria vontade, que seja anátema. (meu destaque)
LUTERO
Este cânone foi intencionalmente elaborado contra a doutrina protestante. Se ele continua mantido hoje, significa que a Igreja Católica defende que aqueles que acreditam na salvação pela graça mediante a fé somente são "anátema," que na terminologia católica significa exclusão definitiva da Igreja e, portanto, condenação eterna. Isto inclui todos os protestantes evangélicos que pensam, como Lutero, que a salvação é pela fé somente.

Eu sou um deles. O que segue abaixo é o que entendo ser o pensamento padrão reformado sobre o assunto. Lembro ainda que não estou querendo ser exaustivo (e nem poderia!) e que só destaquei aqueles pontos que acredito são mais relevantes para nosso cenário.

1. Todas as pessoas são carentes de salvação, pois todas elas, sem qualquer exceção, são pecadoras. Isto significa que elas, em maior ou menor grau, quebraram a lei de Deus e se tornaram culpadas diante dele. Esta lei está gravada na consciência de todos, disposta nas coisas criadas e reveladas claramente nas Escrituras - a Bíblia. Ninguém consegue viver consistentemente nem com seu próprio conceito de moralidade, quanto mais diante dos padrões de Deus. Como Criador, Deus tem o direito de legislar e determinar o que é certo e errado e de julgar a cada um de acordo com isto.

2. Ninguém é bom o suficiente diante de Deus para obter sua própria salvação ou de fazer boas obras que o qualifiquem para tal. O pecado de tal maneira afetou a natureza do ser humano que sua vontade é inclinada ao mal, seu entendimento é obscurecido quanto às coisas de Deus e sua fé não consegue se firmar em Deus somente. Sem ajuda externa - a qual só pode vir do próprio Deus - pessoa alguma pode obter ou receber a salvação da condenação e do castigo que seus próprios pecados merecem.

3. Deus enviou Seu Filho Jesus Cristo ao mundo para morrer por pecadores, de forma que eles pudessem obter esta salvação a qual, de outra forma, seria inalcançável. Jesus Cristo, por determinação e desígnio de Deus, morreu na cruz como sacrifício completo, perfeito, único, suficiente e eficaz pelos pecados. Ele ressuscitou física e literalmente de entre os mortos ao terceiro dia, vencendo a morte e o inferno, e subiu aos céus. Assim, somente em Jesus Cristo as pessoas podem encontrar a salvação da culpa e condenação de seus pecados. E fora dele, não há qualquer possibilidade de salvação, diante dos pontos 1 e 2 expostos acima.

4. As pessoas tomam conhecimento da pessoa e da obra de Cristo mediante o Evangelho, o qual é pregado ao mundo todo. Sem o conhecimento do Evangelho, é impossível para as pessoas se salvarem. Cristo é a luz do mundo, o caminho, a verdade e a vida, e ninguém pode ir ao Pai senão por ele. Este Evangelho está claramente exposto na Bíblia, e é por ouvir a Palavra que vem a fé em Jesus Cristo. Com respeito àqueles que nunca ouviram falar de Cristo, o Deus justo haverá de tratá-los sem cometer injustiça e em conformidade com a luz que receberam, quer da sua própria consciência, quer da natureza. Todavia, não poderão alegar desconhecer a lei de Deus.

5. Mediante a fé em Jesus Cristo, como seu único e suficiente Salvador, as pessoas, quem quer que sejam, de qualquer país ou cultura, sem distinção alguma de raça, sexo, posição social ou educação, são perdoadas completamente de seus pecados, aceitas por Deus como filhos e recebem o Espírito de Deus como selo e penhor desta salvação, iniciando assim uma nova vida neste mundo. Nesta nova vida, elas demonstram arrependimento pelas obras más cometidas, humildade e constante penitência diante de Deus, aliadas a uma grande alegria e gratidão a Ele por tão grande e completa salvação. A certeza que eles têm aqui nesta vida de terem sido salvos da condenação eterna não decorre de seus méritos ou obras - os quais eles não possuem - mas da graça e do favor de Deus. Por isto falam desta salvação não em termos arrogantes, mas humildemente, como pessoas que foram misericordiosamente salvas do justo castigo que mereciam.

6. A fé salvadora não é uma força emocional mística. Antes, é a confiança que parte de um coração regenerado por Deus em todas as suas promessas, principalmente aquela de vida eterna na pessoa de Jesus Cristo, Seu Filho. Esta confiança envolve uma compreensão básica do que o Evangelho nos diz sobre Cristo e sua morte e ressurreição e um assentimento intelectual a estes fatos. Como nem esta compreensão e nem mesmo a fé têm origem na capacidade humana, afetada como está pelo pecado, segue-se que a salvação, tendo custado um alto preço que foi a morte de Cristo, é dada gratuitamente por Deus. Ela não depende de obras, mérito, esforço ou qualquer outra coisa que tenha origem no ser humano. É puramente pela graça, mediante a fé.

É claro que estou falando somente da salvação da culpa e da condenação merecidas por nossos pecados. A obra de Cristo inclui muito mais, desde a santificação até a ressurreição dos mortos e a glorificação - que poderão ser assuntos de outros posts. Na verdade, o que Cristo fez e o que Ele é impactam todas as áreas da vida. Mas isto é assunto para mais adiante.

A igreja deve dar às pessoas o que elas querem ou o que elas necessitam?

 


 
Qual é afinal de contas a finalidade da Igreja? Para que estamos aqui? Qual a mensagem que o Senhor quer que preguemos? Devemos dar as pessoas o que elas querem ou lhes dar o que elas na verdade necessitam? Mas do que elas necessitam?
Muitas vezes por falta de discernimento a Igreja inverte os valores do Reino e passa a agir segundo os ditames do mundo e não segundo a vontade de Deus. Para exemplificar o que quero abordar aqui, eu gostaria de analisar o texto de Atos 3.1-8:
”Quando Pedro e João sobem ao templo para o momento de oração. Diz assim o texto: “Pedro e João subiam ao templo para a oração da hora nona. Era levado um homem, coxo de nascença, o qual punham diariamente à porta do templo chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam. Vendo ele a Pedro e João, que iam entrar no templo, implorava que lhe dessem uma esmola. Pedro, fitando-o, juntamente com João, disse: Olha para nós. Ele os olhava atentamente, esperando receber alguma coisa. Pedro, porém, lhe disse: Não possuo nem prata nem ouro, mas o que tenho, isso te dou: em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, anda! E, tomando-o pela mão direita, o levantou; imediatamente, os seus pés e tornozelos se firmaram; de um salto se pôs em pé, passou a andar e entrou com eles no templo, saltando e louvando a Deus”.
Ao analisarmos esse texto nós encontramos as respostas para esses questionamentos. Vejamos o que podemos aprender aqui.
 
Em primeiro lugar o texto nos diz que Pedro e João estavam indo ao templo para orar. Mesmos depois da decida do Espírito Santo a igreja e principalmente os apóstolos mantiveram esse hábito de estarem no templo orando, pois isso já fazia parte da tradição religiosa deles como também eles aprenderam muito com Jesus a esse respeito.
 
Segunda coisa que nós observamos é que diariamente era posto ali um coxo de nascença em uma das entradas do templo. Se esse coxo era colocado ali diariamente na entrada do templo, certamente Jesus e seus discípulos já haviam passado por ele várias vezes, no entanto ele nunca alcançou a cura. Eu entendo aqui a soberania de Deus, se aquele coxo durante todo o ministério de Jesus nunca fora confrontado para ser curado era porque não era o tempo de Deus manifestar em sua vida esse milagre. Eu aprendo aqui que nem sempre por onde Jesus passa tem que haver necessariamente algum milagre extraordinário. O tempo de Deus não é o nosso tempo, e nem Jesus cura todo mundo a torto que é direito. Ele faz o que Ele quer, quando quer e do jeito que Ele quer e quando há um propósito para isso.
 
Terceira coisa que eu observo aqui é que quando aquele mendigo olha para os apóstolos ele esperava receber alguma coisa deles. O texto nos diz que ele implorava que lhe desse uma esmola. Não sabemos se esse homem havia alguma vez recebido alguma esmola deles ou de algum outro discípulo, mas uma coisa é certa, naquele dia ele desejava receber alguma ajuda deles. No entanto Pedro e João dizem para ele: “Olha para nós”. Quando o mundo olha para nós o que ele precisa receber? O que eles querem ou o que temos para dar? Será que temos alguma coisa para dar?
Aqui entra o meu questionamento. Esses apóstolos representavam a Igreja do Senhor Jesus. Como Igreja o que eles deveriam fazer? Amados, por falta de discernimento a igreja muitas vezes tem metido os pés pelas mãos. O que os apóstolos deveriam fazer? Dar a esmola que aquele homem tanto desejava ou lhe dar o que ele realmente precisava?
Eu tenho visto a igreja hoje dando as pessoas que as frequenta não o que o eles necessitam, mas o que o povo quer. Observe as campanhas de muitas igrejas por aí. Geralmente essas campanhas vão de cura e libertação a tomar posse das riquezas dos ímpios. As pessoas não vão a igreja adorar ao Senhor, mas vão buscar uma bênção, e o pior é que muitos vão buscar um milagre não importando de onde proceda se de Deus ou do diabo, o negócio é ver o milagre. As pessoas querem ver, sentir, serem reveladas, ouvir profetadas e vai por aí a fora. Isso sem contar a macumba gospel onde “deus” passa para os objetos “ungidos” o seu poder milagroso.
Se Pedro e João tivessem dado aquele coxo o que ele queria ele certamente chegaria ao fim de seus dias aleijado. Mas os apóstolos não tinham o que ele queria, mas tinha algo muito melhor. A igreja tem a mensagem certa para a ocasião certa e para as pessoas certas, mas está faltando em muitas igrejas o que havia naqueles dois homens discernimento de espírito (detectar o problema e não aplicar um paliativo). Eu não tenho nada contra igrejas que fazem campanhas de arrecadação de alimentos, distribuem cestas básicas e outras coisas nessa área, mas eu não creio que a igreja foi levantada com esse propósito. Quando modificamos a mensagem do evangelho nós deixamos de ver o extraordinário de Deus acontecer na vida de muitas pessoas. É o caso daquela viúva pobre que procurou o profeta Eliseu para tentar resolver o seu problema, pois credor queria levar os seus dois filhos como escravos para ser quitada a dívida que seu marida havia deixado para ela. Se Eliseu metesse a mão no bolso e pagasse a dívida dela ela certamente não vivenciaria o milagre que vivenciou. Discernimento é o que a igreja precisa.
Voltando a questão dos apóstolos. Eles olham para aquele homem e lhe dizem que não possuíam nem ouro e nem prata, mas o que possuíam isso eles lhe dariam, em nome de Jesus anda. Aqui entra o meu questionamento, quantas vezes a igreja tem dado ao povo o que o povo quer (pão e circo), mas não lhes tem lhe dado o que o Senhor quer fazer na vida das pessoas. Aquele mendigo não precisava de esmola, ele precisava era de um milagre. E digo mais, ele recebeu o que o seu coração tanto deseja alcançar que nenhuma esmola poderia comprar. Eu imagino aquele homem desde a infância sendo colocado ali na entrada dom templo e nunca poder entrar naquele lugar, estar a porta, mas não adentrar os seus lugares de culto. Vivendo à custa da misericórdia do povo. No entanto, o Senhor se voltou para ele e ele agora está vivendo o milagre de Deus em sua vida. Essa é a mensagem da Igreja ao homem perdido, Jesus quer operar o verdadeiro milagre. O milagre é a Palavra dele em nossas vidas nos levantado e tirando de uma vida de mendicância podendo adentrar os seus átrios o adorando em Espírito e em Verdade.
 
A Igreja precisa de discernimento e poder através da Palavra para que não venhamos satisfazer a vontade das pessoas e não lhes dando o que o Senhor tem para elas. Espero vivenciar em minha vida o que está escrito em Mc 16. 20: “E eles, tendo partido, pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor e confirmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam”.

terça-feira, 12 de março de 2013

Você acredita mesmo na existência do céu?

 


"A nossa cidade está nos céus, de onde também
esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo".

Por Pr. Geremias do Couto

Tenho um
privilégio do qual procuro desfrutar o máximo possível. São as belezas naturais da cidade onde moro com a família. Elas encantam turistas e atraem forasteiros que aqui chegam e não mais querem retornar.
Das janelas de minha casa, no alto da colina, avisto ao longe as montanhas, entre as quais se destaca o dedo de Deus pelo qual Teresópolis é conhecida em todo o mundo. A magnífica visão enternece a minha alma de poeta e libera o espírito para voar nas asas líricas das palavras que constroem poemas e revestem de concretude a realidade materialmente intangível das coisas eternas.

Foi assim dia desses já há alguns anos. Após ficar horas a fio contemplando este quadro, meus olhos se elevaram um pouco mais e alcançaram a dimensão etérea descrita nos dois últimos capítulos do Apocalipse. O cenário das ruas de ouro, dos muros adornados de pedras preciosas, da glória de Deus que ilumina as mais distantes extremidades, povoou a minha mente. Ao mesmo tempo, fui tomado pelas questões existenciais que, vez ou outra, escapam dos precipícios do subconsciente e vêm digladiar-se na explosão dos raciocínios que percorrem o cérebro. “E se não existir céu?”, gritou lá do fundo um intruso existencialista.

Nessas horas, todavia, quando se mantém um relacionamento constante e proveitoso com a Palavra de Deus, um dos papéis do Espírito Santo é pôr ordem na casa e trazer à memória os argumentos que destroem a mais arguta dúvida existencial. Não foi diferente comigo. Ele usou a própria visão panorâmica que se espraiava diante de meus olhos para reafirmar a certeza da fé: “Tem de existir céu!”

Foi aí que pensei: “Não é possível que a criatividade de Deus se restrinja apenas a esses vales e montanhas, rios e mares, cachoeiras e maciços que vicejam na Terra”. Fui um pouco mais além: “É inadmissível acreditar que a imensidão criativa do Altíssimo se restrinja ao nosso sistema solar e aos astros que compõem a nossa Via Láctea, bem como às demais galáxias que preenchem o Universo. Deus seria pequeno”. O espaço em que vivemos e a dimensão sideral, onde se voa a anos-luz, testemunham à nossa consciência que em algum lugar acima das estrelas há lugares preparados para os que foram alcançados pela graça.

Veio também ao meu coração outra realidade. Somos acostumados a olhar o céu como escapismo para o duro dia a dia dos sofrimentos terrenos. É óbvio que a expectativa de deixar para trás as angústias que cercam a existência se inclui entre os fatores que constituem o ideal de todo o cristão. É bíblico que as lágrimas não mais existirão na cidade santa. Mas a esperança no amanhã com Deus deve ser, também, analisada sob outro ângulo. O da qualidade de vida desfrutada no planeta Terra e a que será vivida em toda a sua dimensão no céu.

Em que pesem as agruras provocadas pelo pecado, ainda assim não há como negar que é bom demais desfrutar das riquezas que a natureza oferece. Pelo menos, eu gosto. Quem não aprecia, por exemplo, passar horas e horas ao sol, sentindo escorrer pelo corpo as águas frias e cristalinas de uma cachoeira? Ou subir as montanhas e aguçar o olfato para sentir o aroma silvestre das matas? Quem não se sente bem em caminhar pelas praias e ouvir o bulício das ondas que batem nos pés? Mesmo Jesus, 100% humano, experimentou com certeza esta sensação nas areias do mar Mediterrâneo e do mar da Galiléia. E acredito que, por não ser apenas semelhante, mas como um de nós, tenha gostado muito. Eu gostei, quando ali estive com minha esposa, conduzindo grupos de peregrinos brasileiros algumas vezes. Quem não se contagia ao contemplar a infinidade de peixes de variados matizes colorindo o fundo dos oceanos, como no Observatório Submarino de Eilat, no mar Vermelho, no extremo sul de Israel? Ou acompanhar ao longe a alegre sinfonia dos pássaros nas florestas? E o que mais poderia eu acrescentar? A lista é infindável.

Pois bem. Tais possibilidades reais que, hoje, dão sentido a expectativa de cada um são apenas vislumbres esmaecidos da qualidade de vida que os redimidos desfrutarão na presença de Deus. Com uma vantagem: sem os sofrimentos que marcam a trajetória terrena, os quais podem ser vencidos por causa d'Aquele que os venceu na própria carne. Portanto, ao invés de ser olhado como escapismo, o céu é a plena realização dos propósitos divinos para o homem em seu estado original, no jardim do Éden. É a concretização última da esperança do cristão, que, enquanto na Terra, desfruta em escala ínfima das boas coisas que Deus preparou para o ser humano. Apesar do pecado.
Enquanto continuava a contemplar as montanhas que cercam a cidade, e as flores que adornam o jardim em frente à casa, o Espírito Santo trouxe à tona outros argumentos. Entre eles o da tendência inata ao ser humano de desejar a todo custo a imortalidade. A morte contraria, sob todos os aspectos, a lógica da vida. Aquela implica na cessação desta, segundo a visão equivocada existencialista. Todavia, esta tendência inata atua de tal modo que tudo se faz para adiar a morte. Que o digam os modernos equipamentos de diagnose, capazes de rastrear uma doença grave em seu início e criar todas as condições médicas para erradicá-la.

Passei por esta experiência em 2009, quando fui diagnosticado com câncer de próstata em fase inicial. Ao informar-me dos resultados, o médico disse que alguns pacientes preferiam "rezar" e simplesmente fazer o acompanhamento, enquanto outros preferiam a solução radical: cirurgia imediata. Respondi-lhe então que faria as duas coisas: "rezaria", e se houvesse a intervenção sobrenatural, esta teria vindo "de lá"; se fosse através de cirurgia, também, de igual modo, a recuperação viria "de lá". E se o resultado fosse diferente do desejado, sob o nosso ponto de vista, eu iria "para lá". Qualquer que fosse o desfecho, para mim não faria diferença. porque, vivendo ou morrendo, seria em razão daquele que "está lá". A verdade é que aqui estou, mais de um ano e três meses depois da cirurgia, plenamente recuperado, mas com a consciência ainda mais vívida e convicta de que algum dia o Senhor me chamará para, em definitivo, morar "com ele lá".
No entanto, esta característica inata de não "desejar" a morte, peculiar a cada mortal, é a confirmação, do lado humano, não só do que a Bíblia diz acerca da existência da vida após a morte, mas também da realidade do céu. E do inferno. Pois justos e injustos terão destinos diferentes. Assim sendo, mesmo como cristãos, quando lutamos para preservar a vida, empregando todos os recursos da medicina ao nosso dispor, há um testemunho implícito de que o homem foi criado para viver eternamente e desfrutar do plano original de Deus agora restaurado no céu. Para chegar lá, todavia, dependerá de sua atitude ante à obra redentora de Cristo - 100% humano - realizada no Calvário. É aqui onde se realiza a travessia entre a Terra e a cidade celestial.


Meu coração, naquele dia, não suportou o peso da convicção espiritual. Bastou para que as dúvidas existenciais evaporassem da minha mente. Elas desejarão dar o ar de sua graça outras vezes, mas, como agora, encontrarão o chão da minha confiança no Altíssimo irrigado pela Palavra. “Tem de existir céu!”, bradei no silêncio da tarde. Lágrimas começaram a rolar pela face. Enquanto contemplava ao longe o dedo de Deus apontando para cima, e apreciava o sol esconder-se atrás das montanhas, concluí, glorificando a Deus: “Se aqui já podemos experimentar por antecipação as glórias do céu, que diremos daquele dia, quando tomaremos posse de toda a sua concretude?” E listei os seguintes pontos:
1. Não pretendo ir para o céu como fuga da realidade presente, mas por ser o ápice do propósito de Deus para a realização do homem.
2. Enquanto vida física tiver, pretendo desfrutar ao máximo as coisas boas que Deus criou, pois elas revelam em menor instância o que me aguarda no porvir.
3. A esperança do céu não me torna alienado na Terra. Pelo contrário, exige pleno comprometimento com o evangelho, que garante as bênçãos futuras, mas tudo faz para minorar o sofrimento presente e antecipar, aqui e agora, uma excelente qualidade de vida em Cristo.
4. Enquanto este dia não chega, seja através da morte, seja através do encontro pessoal com Cristo em sua vinda, é meu dever preservar a vida, cuidando exemplarmente de minha saúde, pois este desejo inato que me proporciona viver aponta para a realidade futura do céu.
5. Devo viver todos os dias na expectativa de que minha entrada no céu pode estar tão perto quanto eu estou de minhas atividades diárias. Em razão disso, vivendo ou morrendo, procuro, agora, mais do que nunca, fazê-lo pelo Senhor.
PS. Artigo publicado originalmente na revista Seara e atualizado para o blog.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Quando o meu deus sou eu

Por Maurício Zágari
Sempre que lemos a passagem do bezerro de ouro em Êxodo 32 temos um sentimento ruim com relação ao povo de Israel. Deus o tinha livrado do Egito, fez aquele incrível milagre da abertura do Mar Vermelho (você consegue imaginar a experiência de ter visto e vivido aquilo?) e ainda assim aquelas pessoas tomaram as rédeas de sua vontade, passaram por cima da vontade do Senhor e fizeram o que lhes parecia mais conveniente. Dá para entender a decepção de Moisés ao ver aquilo, traduzida numa fúria que o fez quebrar as tábuas com os mandamentos. Sim, aquelas pessoas foram de uma falta de fé, de um imediatismo e de um egoísmo atroz. Mas... por que as condenamos? Já parou para pensar que se estivesse entre eles você faria parte da multidão idólatra? E a explicação é simples: faz parte da má natureza humana não ter paciência de esperar em Deus  e resolver tomar as rédeas de seu destino, sem aguardar por aquilo que o Senhor planejou fazer. Israel erigiu o bezerro de ouro simplesmente porque não teve fé suficiente para esperar o tempo de Deus. Só que o tempo chegou e Moisés desceu do monte. O resultado você sabe.

Nas palavras de Deus, quem não tem fé para esperar por Sua ação e erra pela autossuficiência é "corrupto" e "desviado". Ouça o que Ele diz a Moisés:  "Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste sair do Egito, se corrompeu e depressa se desviou do caminho que lhe havia eu ordenado".  O desagrado do Todo-Poderoso é claro. A partir do versículo 9, Ele deixa claro que não há como abençoar quem assim o faz: "Disse mais o Senhor a Moisés: Tenho visto este povo, e eis que é povo de dura cerviz. Agora, pois, deixa-me, para que se acenda contra eles o meu furor, e eu os consuma".

Duro. Uma leitura superficial nos leva a crer que a ira do Pai se acende apenas pela idolatria. Mas se formos fundo nessa passagem veremos o que havia no coração do povo, a origem dessa idolatria. Em Êxodo 1, as causas de todo o problema ficam bem claras: "Mas, vendo o povo que Moisés tardava em descer do monte, acercou-se de Arão e lhe disse: Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós". Aí está. O povo queria respostas rápidas. Não soube esperar. Queria que Moisés já tivesse descido. Estava impaciente. Não teve fé de que a demora tinha uma razão divina. Como quem esperava "tardou", o povo decidiu resolver da sua forma, à sua maneira, com suas próprias mãos. Pecado. Aquele povo sem fé, sem paciência e sem esperança estava tão ávido por resolver logo as coisas - da sua maneira - que veja a hora em que a Bíblia revela que começaram a adorar o bezerro: "No dia seguinte, madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se". Repare a pressa: eles madrugaram.

A avidez daqueles que eram chamados de "povo de Deus" fez com que acordassem de madrugada para cometer seu pecado, tão impacientes que estavam. Se Deus não resolve, vamos nós mesmos tomar a frente! E logo! Esperar o sol nascer para quê?

A partir do versículo 21, temos a explicação ainda mais profunda da falta de fé, impaciência, autossuficiência e consequente idolatria do povo de Deus: "Perguntou Moisés a Arão: Que te fez este povo, que trouxeste sobre ele tamanho pecado? Respondeu-lhe Arão: Não se acenda a ira do meu senhor; tu sabes que o povo é propenso para o mal". Eis aí, meu irmão, minha irmã. O mal que carregamos em nosso coração é o grande culpado. Somos maus e por isso não acreditamos que Deus pode fazer o melhor para nós se apenas esperarmos mais um pouco. Somos maus e por isso nos guiamos por vista e não por fé. Somos maus e por isso tomamos das mãos de Deus a solução para nossas dúvidas e questões. Somos maus e por isso praticamos a idolatria: seja a de um bezerro de ouro, seja a de nós mesmos, quando nos pomos no lugar de Deus, o atropelamos e dizemos "seja feita a MINHA vontade".

Tomamos as decisões no tempo que achamos conveniente de forma "desenfreada", como diz o versículo 25. Isto é, sem freios, sem nada que nos faça parar: a razão, conselhos, pregações, testemunhos, exortações, nada. Nada nos freia. Nada nos para. Queremos e por isso fazemos, mesmo que saibamos que deveríamos esperar o tempo de Deus. Moisés era a pessoa certa. Era por Moisés que deviam esperar. Mas, pela impaciência e falta de fé de que Moisés chegaria, o povo pegou um substituto, Arão, e com ele fez o bezerro de ouro. Pobres miseráveis.

A Bíblia nos revela o desfecho daquele pecado: desgraça.  Três mil homens foram mortos a espada. E mais: "Feriu, pois, o Senhor ao povo". Falta de fé. Impaciência. Autossuficiência. Idolatria. Pecado. Uma coisa leva à outra. A última etapa dessa sequência é morte e sofrimento.

Meu irmão, minha irmã. Se você deseja algo de Deus, não deixe que as aparências o enganem. Não se deixe conduzir pelas circunstâncias ou pelo que humanamente falando parece ser. Deus não trabalha segundo padrões humanos. Deus não age no tempo do homem. A lógica de Deus não é a nossa lógica. Deus cria situações aparentemente sem solução, verdadeiros becos sem saída, apenas para saber até onde vai a sua fé nEle. Você confia ou não? Crê no que parece impossível ou não? Na maioria das vezes o mal que há em nós nos leva a esquecer nossa fé e agir de modo que possamos "ver", "controlar". Mas sem fé é impossível agradar a Deus. E aí não esperamos Moisés. Pegamos um Arão qualquer e dizemos: "Você serve. Pois você estamos vendo e com você à vista temos como controlar nossas vidas. Agora faça o bezerro de ouro". Pronto. A desgraça está feita.

Tenha fé. Tenha paciência. Tenha confiança. Jesus não é só alguém em quem fingimos confiar quando cantamos "Rompendo em fé" nos cultos. Isso é mole de fazer. Cantar e não fazer é facílimo. Facílimo e mentiroso. Pois na hora que precisamos romper em fé mesmo... será que o fazemos? Ou assumimos o controle da situação, nos aliançamos com Arão e pecamos?
Deus não se interessa por um povo que não confia nele. Os que não souberam esperar acabaram mortos ou feridos. É assim que você quer acabar?

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Esse cara sou eu?

 
Por Josemar Bessa
 
Fim de ano e muitas listas dos melhores do ano começam a pipocar na mídia. Mas isso não acontece apenas na grande mídia, mas nas coisas menores como – melhor blog, mais acessado, melhor canal do youtube, mais visualização, Twitter com mais seguidores, Facebook mais curtido, compartilhado...

As listas humanas tem como objetivo nosso orgulho. Queremos ser maiores. Queremos ser melhores. Queremos poder olhar para o lado e julgarmos segundo a nossa lista...

O nosso mundo é assim, cheio de listas. Já olhou o último jornal? Livro...? Listas por toda parte. A página de esportes está cheia delas. O melhor jogador de futebol, tênis,...

Todo ano olhamos a lista dos vencedores do Oscar. Ah! lista dos concursos de beleza. Prêmio Esso para a imprensa no Brasil, Pulitzer nos Estados Unidos...

O mundo editorial tem sua relação de livros em suas categorias - best-sellers. As listas do mundo da música com seus discos de platina, ouro, Grammy... várias premiações no Brasil e no mundo. As listas do mundo financeiro, sua lista de maiores empresas... A lista da Forbes - as pessoas mais ricas... As listas e prêmios do teatro..,

Pôxa! isso não te cansa?

O mundo religioso agora tem sua lista de superigrejas, as mais confortáveis, maiores centros de adoração, as que mais crescem, as que tem mais membros, as que tem mais artistas, as que tem mais deputados, as mais ricas...

As listas do "não olhes, não toques,..." - O objetivo de todas essas listas é o mesmos. A glória humana. Infelizmente na igreja e no mundo.

Depois de examinar cuidadosamente todas essas listas, me pergunto: Quem realmente se importa? Duvido que Deus alguma vez tenha se impressionado com o tamanho de qualquer coisa.

Seu Livro certamente coloca a qualidade acima da quantidade.

Seu Livro também subverte a idéia do que é grande: "Quem quiser tomar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva " - Estranho né? (ver Mt 20.20-28).

O contexto indica, nesse ensino de Cristo que nada há de errado no "desejo" de ser grande, desde que

(1) busquemos o tipo certo de grandeza;
(2) deixemos que Deus decida o que è grandeza;
(3) estejamos prontos a pagar o preço total que a grandeza segundo Deus exige, e (isso é fundamental!)
(4) nos contentemos em esperar pelo juízo de Deus para resolver toda a questão de quem é grande afinal.

Contudo, é vitalmente importante saber o que Cristo quis dizer quando empregou a palavra grande com relação aos homens, e o que Ele tinha em mente não se pode achar no léxico ou dicionário.

Só é bem compreendido quando visto em seu amplo cenário teológico. Ninguém cujo coração teve uma visão de Deus; por mais curta e imperfeita que essa visão possa ter sido, jamais se permitirá pensar de si ou de outrem como sendo grande. Ver Deus, quando Ele se manifesta em temível majestade aos espantados olhos da alma, fará o adorador cair de joelhos com temor e júbilo, e o encherá de tão dominante senso de grandeza divina, que só terá de clamar espontaneamente: "Só Deus é grande!"

Então vemos que obviamente há duas espécies de grandezas reconhecidas nas Escrituras - a grandeza incriada e absoluta pertencente só a Deus, e a grandeza finita e relativa conseguida ou recebida por certos amigos de Deus, que pela obediência e renúncia própria, procuraram tornar-se tão semelhante a Deus quanto possível. É essa última espécie de grandeza que devíamos estar buscando.

A essência do ensino de Cristo é que a verdadeira grandeza está no caráter, caráter esse que deve ser uma expressão da beleza infinita de Cristo,  não na capacidade ou posição. Em sua cegueira, os homens (no mundo e na "igreja ") - sempre pensaram que os talentos superiores tornam grande um homem, e é isto que a vasta maioria acredita hoje. Cristo ensinou, e por sua vida demonstrou, que a grandeza está em maiores profundidades.

Depois de Cristo ter servido (e Seu serviço incluiu a morte) "Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome". Cristo achou fácil servir porque não tinha pecado. Nada nEle se rebelava contra as mais modestas ministrações.

Todo ensino de Deus vai contra tudo que Adão é em nós. É necessário um genuíno amor a Deus para vencer essa realidade em nós. Cristo sabia onde estava a verdadeira grandeza, e nós não o sabemos.

Tentamos galgar alta posição quando Deus ordenou que fôssemos para baixo: "Quem quiser ser o primeiro entre vós, será vosso servo".
Parece, de fato, que Deus se alegra em nos fazer lembrar que coisas grandes não o impressionam. Que Sua maior glória está em alcançar a vitória apesar das dificuldades, como no caso de Davi com Golias, dos hebreus contra os egípcios no mar Vermelho, dos poucos de Gideão e do pequeno grupo de discípulos de Jesus. Mas quando estou pronto a sugerir que ignoremos as listas, encontro uma nas Escrituras; na verdade, uma porção delas!

Deus, por exemplo, não apenas faz a lista dos Dez Mandamentos, que descrevem seu caráter santo, como lista também das coisas que detesta encontrar em suas criaturas. Lembra algumas? "Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que planeja projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre ' irmãos" (Pv 6.16-19).

Paulo nos ajuda fazendo uma lista do "fruto do Espírito" (Gl 5 22,23) –
“Mas o fruto do Espírito é: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança. Contra estas coisas não há lei.”

Pedro relaciona as qualidades do cristão a caminho do amadurecimento (2Pe 1.5-8),

“E vós também, pondo nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à vossa fé a virtude, e à virtude a ciência, E à ciência a temperança, e à temperança a paciência, e à paciência a piedade, E à piedade o amor fraternal, e ao amor fraternal a caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo.”

e João, um rol das igrejas do primeiro século que eram exemplos dignos de atenção (Ap 2:1-3.22). Há listas de qualificações para o presbítero e também para o diácono... Listas, listas e mais listas! Desde que sejam de autoria do Deus vivo, faríamos bem em ler e obedecer cada uma delas.

Apesar de Mahatma Gandhi não ter tido uma vida centrada em Cristo, nosso Senhor, sua lista, na forma de contrastes, sobre os "sete pecados capitais" merece atenção: “Riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem caráter, comércio sem moral ciência sem humanidade, adoração sem sacrificio, política sem princípios” Muito bom! Mas essa é uma lista apenas para ser lida! Se fixe nas listas do teu Deus!

Lembrei de uma essencial - Leia com atenção e devagar (Miquéias 6.8) - Notem o aprofundamento dos conceitos. Andar com Deus. Andar humildemente com Deus. Andar humildemente com teu Deus. Miquéias explicita os princípios absolutos ''exigidos" pelo Senhor. Sopre a poeira sobre a lista de Miquéias: "Praticar a justiça, amar a misericórdia, andar humildemente com teu Deus".
E aí, esse cara sou eu? Esse cara é você?

Miserável homem que sou

Miseravel1 
Por Maurício Zágari
Qual é o momento mais importante da nossa caminhada de fé? Para uns, é o instante da conversão. Para outros, é o dia do batismo. Há também os que consideram o momento mais importante a hora da morte, quando finalmente darão o glorioso passo de entrada na casa do Pai. Cada pessoa elege aquele ponto da trajetória com o Senhor que mais marcou sua vida. Tenho também o meu. Claro que sei que todos esses momentos são fundamentais e memoráveis, mas entendo que a conversão e a morte, por exemplo, são os momentos mais importantes de nossa vida. Mas em se tratando da caminhada de fé, ou seja, do bom combate, da nossa trajetória de vida com Jesus, há um dia em que tudo muda e, por isso, o tenho guardado num lugar especial do coração. É quando cai a ficha e você, como Paulo, exclama: "Miserável homem que sou!".

Naturalmente, na hora da conversão existe uma dose dessa percepção. É quando, pela ação do Espírito Santo, nos enxergamos como condenados ao inferno e dissociados de Deus e, assim, somos rendidos ao Evangelho da graça. Mas há uma diferença entre se perceber um pecador perdido e se perceber um cristão miserável. Pois muitos são convertidos a Cristo, ganham a cidadania do Reino dos Céus, são adotados como filhos de Deus e, a partir daí, deveriam passar a viver de acordo com a natureza de Jesus, sendo mansos e humildes. Mas a realidade nos mostra que muitos e muitos são os que começam a se considerar quase super-heróis. Mais que vencedores. Vitoriosos. Filhos do Rei. Tanques blindados. Bombas atômicas a serviço dos céus, prontos para arrebentar com os ímpios e com os "menos espirituais". Vestem uma capa de grandeza e passam a considerar o resto da humanidade parte de um segundo escalão de pessoas. É como se manifesta um pecado muito comum a nós, cristãos: a soberba espiritual.

Já vi muitos assim. Arrogantes. Impiedosos. Cujo maior prazer é apontar o cisco no olho do outro. E confesso: eu mesmo já fui assim. Pois não entendia que todo homem de Deus é, antes de tudo, também um homem. Humano. E, como tal, cheio de falhas, crenças equivocadas, arrogância, vaidade e montes e montes e montes de defeitos. Se você é um cristão sincero, olhará para dentro de si e verá o quão problemático e falho é. Mas eu me via como "o eleito", "o escolhido". Algo à parte dos demais, tão espiritualmente certo em tudo e muito superior aos cristãos "menos santos". Falava dos que cometiam pecados (diferentes dos meus, pois eu também sempre pecava) como fracos, frios, fariseus, lobos em pele de ovelha, crentes em quem não se pode confiar. Eu era o tal. Eles eram o joio. Que tremendo bobo eu era, só rindo de mim.

Miseravel2Porque um dia a realidade despencou na minha cabeça como uma bigorna. E foi quando as escamas caíram de meus olhos e enxerguei que, mesmo sendo cristão há muitos anos, continuava sendo um miserável. Que não era melhor do que ninguém. Que meus dons, talentos, ministérios, qualidades, santidade e tudo o mais que havia em mim não era mérito meu, mas do Pai das luzes. Ele me concedeu como empréstimo, não sou dono de nada e posso perdê-los a qualquer hora. Por outro lado, o pecado que cometo é sim mérito (ou demérito) meu. Ou seja: no dia em que você, como cristão, vê claramente que tudo o que tem de bom vem de Deus e o que tem de mau vem de si... aí exclama: "Miserável homem que eu sou!".

Passei a amar muito mais o apóstolo Paulo quando compreendi como nunca antes o que ele diz em Romanos 7.14ss: "Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado".

Prestou muita atenção ao que leu agora? Paulo - o grande apóstolo Paulo, o homem que foi arrebatado e viu o Céu ainda em vida - vivenciou esse magnífico momento: como cristão, mesmo já com anos de convertido, enxergou o que tantos e tantos em nossas igrejas ainda nãos viram: que nós...

1. Somos carnais
2. Somos vendidos à escravidão do pecado
3. Agimos de modo incompreensível aos nossos próprios olhos
4. Fazemos o que detestamos e não o que preferiríamos
5. Somos habitação do pecado (que percepção assustadora, pois sabemos que também somos habitação do Espírito Santo)
6. Somos fantoches do pecado, que nos leva a agir contrariando o que cremos e o que queremos viver
7. Temos membros obedientes a uma lei que guerreia contra a lei da nossa mente
8. Somos prisioneiros da lei do pecado que está em nossos membros
9. Mesmo salvos, somos miseráveis - pois vivemos dominados pelo pecado

Em outras palavras, mesmo cristãos nós somos miseráveis, pois vivemos o tempo todo sob a sombra de nossa própria pecaminosidade. O dicionário revela o que "miserável" significa: desprezível, torpe, vil, insignificante, reles, ínfimo, desgraçado, infeliz, mísero. Uau. Que soco na boca do estômago de nossa soberba espiritual.

A percepção dessa realidade é extremamente humilhante, nos põe em nosso devido lugar e nos conduz a um ambiente espiritual de profunda submissão a Deus e desapego de nós mesmos. Paulo teve essa percepção: mesmo sendo cristão era um miservável pecador. Alguém que o Senhor precisava permitir ser afligido por um mensageiro de Satanás esbofeteador para que não se exaltasse pela grandeza das revelações que recebeu. Um mero humano, como eu e você.

Miseravel3Honestamente? Quanto mais leio as epístolas paulinas, mais admiro Paulo. E mais me apiedo dos crentes que se apresentam como anjos de santidade. Pois não chegaram ainda ao sublime ponto de admitir que são miseráveis. Vejo muitos que são assim. E isso gera em mim um sentimento misto de pena com tristeza, confesso. Creio ser muito mais digno, bíblico e honesto reconhecer com a boca no megafone: sou cristão, salvo somente pela graça imerecida de Deus, mas ao mesmo tempo carrego o corpo dessa morte amarrado nas costas - o que faz de mim um miserável pecador. Que depende única e exclusivamente da misericórdia do Senhor para continuar respirando, quanto mais entrar no Céu. Pois sei o mal que há em mim e como meu lado sombrio é feio, disforme e animalesco. Como você se enxerga, meu irmão, minha irmã? Você se orgulha da sua santidade ou se abate pela sua natureza humana pecadora?

Chega a ser muito entristecedor ver os "crentes sem mácula" metendo dedos na cara "dos que pecam", sendo que carregam na alma lodo do pior tipo. Isso é um dos pecados mais falados e criticados por Jesus: a hipocrisia. Já vivi nesse mundo, sei de perto o que é. E reconheço esse meu pecado com temor diante do PaiMiseravel4: pequei por me achar menos pecador do que os demais pecadores. Miserável homem que sou. Ah, que bendito dia em que o Espírito Santo me fez reproduzir essas palavras do apóstolo Paulo! Dia em que enxerguei que não é porque aceitei Jesus que virei um ser angelical, mas que continuo sendo um pecador compulsivo e incorrigivel, totalmente dependente da graça. A diferença é que, sabendo da miserabilidade que existe em mim, consigo chegar com humildade aos pés do Senhor, banhá-los em lágrimas e enxugá-los com meus cabelos. No passado, o crentão que eu era ficaria de pé, nariz levantado, peito estufado,  ao lado do Rei dos Reis, e diria: "E aí, Paizão, tamos numa boa, né? Sou teu eleito, meu chapa, gente boa igual a mim não há. E vamos lá mandar esses crentes carnais pro inferno, julguemos juntos, eu e o Senhor, os meus irmãos, pois estou a fim de ver sangue!".

Sim, aquele foi o dia mais importante. Pois na conversão eu fui salvo, mas me sentia o tal por isso. No batismo saí das águas me achando o puro, o imaculado. Mas no dia em que caí em mim, vi que mesmo salvo continuo pecando sem parar, caí de joelhos, tremi e murmurei: miserável... homem... que... sou...

Gosto de pensar que após a morte irei para o Céu. Não por mim, que não valho nada, mas pela Cruz. Só pela Cruz. Pela graça. Pelo amor. Pelo perdão. Por Jesus. E, ao chegar lá, pode ser que eu ouça "bem-vindo, servo bom e fiel". Mas acredito muito mais que vou ouvir: "Bem-vindo, miserável pecador. Você não tem mérito algum, mas por causa do sacrifício de meu Filho eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!".

Paulo estava certo: somos miseráveis. Eu, você, todos os cristãos. E bendito seja o Senhor, que pela graça um dia nos chamou para sua maravilhosa luz e tempos depois iluminou a nossa realidade de cristãos pecadores. Não é o seu caso? Então clame a Deus, na esperança de que Ele te mostre o quão miserável você é. Acredite: é uma das maiores bênçãos para a alma que você poderá receber ao longo de toda a sua vida.

Paz a todos vocês que estão em Cristo,

Será que eu sou joio?


Por Maurício Zágari
No evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus, no capítulo 13, o Mestre conta uma parábola:
O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente no seu campo; mas, enquanto os homens dormiam, veio o inimigo dele, semeou o joio no meio do trigo e retirou-se. E, quando a erva cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio. Então, vindo os servos do dono da casa, lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde vem, pois, o joio? Ele, porém, lhes respondeu: Um inimigo fez isso. Mas os servos lhe perguntaram: Queres que vamos e arranquemos o joio? Não! Replicou ele, para que, ao separar o joio, não arranqueis também com ele o trigo. Deixai-os crescer juntos até à colheita, e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros: ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado; mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro
Jesus é claríssimo nessa parábola. Ele diz que ao longo da História da Igreja os verdadeiramente salvos conviveriam diariamente com pessoas postas ali “pelo inimigo” mas que por razões as mais variadas convivem com os santos na assembleia como se fossem santos. Conviverão, cantarão juntos no louvor, muitos terão cargos na igreja e até se tornarão pastores. Mas foram postos ali pelo inimigo e, como tal, estão ali para fazer o que é característico do inimigo: roubar, matar e destruir.
Cem por cento das vezes nós nos consideramos trigo.
Eu nunca vi ninguém chegar e dizer “olha, vou te contar uma coisa, eu sou joio”. Todo mundo se acha trigo. Até mesmo o joio, se você for reparar. Porque, como diz a parábola, o joio é tão parecido com o trigo que imagino que deve ser difícil até mesmo ele se distinguir. É como o patinho feio, que achava que era pato até crescer e descobrir que era cisne. E como o joio foi “semeado” (repare, o texto não diz que foi “plantado”, mas sim “semeado”) isso significa que foi posto entre o trigo ainda em seus estágios inicias de desenvolvimento. Só aos poucos é que o joio vai crescendo e fazendo o que lhe é natural: prejudicar o trigo.
A grande questão aqui é: já parou pra pensar que o joio pode ser você?
O joio pode ser você
“Ai, Zágari, essa doeu! Que acusação forte! Tá dizendo que eu não sou salvo, mas que fui posto pelo diabo no meio da Igreja pra atrapalhar?” Bom… lamento informar, mas pela parábola de Jesus há uma grande possibilidade de ser isso mesmo. E para você não dizer que estou te julgando, deixa eu fazer uma confissão: eu mesmo já me fiz essa pergunta. “Será mesmo que eu sou trigo?”.
A Biblia diz que pelos frutos conhecereis as arvores. E Gálatas 5.22,23 revela o fruto que dá aquele que tem o Espirito: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Então se eu tenho o Espirito em mim, ou seja, se eu sou trigo, tenho de manifestar essas virtudes. E a verdade é que muitas e muitas vezes não manifesto. Peco desbragadamente pela falta de amor, choro pela falta de alegria, tenho tão pouca paz em meu coração que preciso tomar rivotril, sou absolutamente impaciente com as pessoas. Também em muitos momentos não sou amável e muito menos bondoso. Minha fidelidade a Deus frequentemente é posta à prova, tenho surtos de raiva que de mansidão passam longe e… dominio próprio… ah, sobre esse eu até tenho vergonha de falar. Parece que em muitos e muitos momentos em não tenho domínio sobre nada: quem me vence é minha concupiscência. Então, diante desse quadro todo, vejo essa como uma pergunta bastante legitima: será que eu sou joio?
Eu sei: não é um pensamento agradável, especialmente pela parte que diz “atai-o em feixes para ser queimado”.
E aí, o que fazer?
Mas e aí, o que fazer? Bem, aqui entra a minha reflexão. Deus é capaz de transformar água em vinho. Ou cinco pães e dois peixes em alimento para uma multidão. Ou um olho morto e cego em um órgão funcional. Jesus consegue fazer a pele pútrida e decaída de um leproso ficar limpa, lisa e nova. Jesus pega um vazio disforme e dele esculpe o universo Então a verdade bíblica é que Jesus tem todo o poder para transformar qualquer coisa em qualquer coisa.
Diante disso, será que Jesus pode transformar um joio posto pelo diabo no meio dos santos em trigo? De cara, a tentação é afirmar categoricamente: sim! Mas essa é uma pergunta com grandes implicações teológicas. Pois elegerá Deus os não-eleitos? Vamos a Romanos 9.22: “Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição”. Se os vasos de ira foram “preparados para a perdição” o que fará o Senhor? Os despreparará? Voltará atrás?
Sim, Deus é onipotente. Mas algumas coisas Ele não faz, para manter sua coerência. Por isso creio que, embora o Todo-Poderoso tenha todo poder dos céus e da terra para transmutar um joio em trigo Ele não o faz simplesmente porque isso contrariaria seus propósitos eternos. A verdade é dolorosa, triste e horrível, mas cumpre a justiça divina: bilhões de pessoas vão para o inferno. Dessas, muitas faziam parte daquele grupo que se intitulava “cristão” pelo simples motivo de frequentar uma igreja. Só que muitos dos que se intitulam “cristãos”… são joio. Não estou inventando, está na Biblia. Acredito que esses serão aqueles que no grande e terrível dia do juízo dirão ao Criador: “Senhor, Senhor”. Pois um hindu não diria isso de Jesus. Um muçulmano também não. Mas um suposto cristão diria. Viraria para o Rei dos Reis e o chamaria de “Senhor”. Só que a resposta será devastadora para esses supostos cristãos: “Nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade” (Mateus 7.23).
Por isso temo pelo joio. Pois estão entre nós. Cantam no coral. Produzem CDs gospel. Apresentam programa de TV evangélicos. Cantam louvores nas rádios. Passam salvas na igreja. Estão nos conselhos. Recepcionam visitantes. Pregam. Possuem blogs cristãos na internet. Têm cara de trigo, cheiro de trigo, linguajar de trigo, roupas e adereços de trigo, Bíblias de estudo embaixo do braço, terno e gravata… mas um dia ouvirão “Nunca vos conheci”. Que perspectiva terrível.
Deus poderia transformar joio em trigo? Lógico que poderia. Ele pode pegar qualquer coisa que o diabo faça e tornar santo. Mas no que tange à salvação, Deus já sabe quem são os vasos preparados para a perdição.
Eu espero não ser um deles. Muitas das minhas atitudes me fazem por vezes pensar que sou. Mas eu tenho uma esperança, que está cravada numa cruz sanguinolenta. A esperança de que, pela graça de um carpinteiro que morreu torturado e humilhado, mediante a fé que Deus plantou em meu coração, eu seja um trigo meio torto, meio esgarçado, meio ressecado…mas um trigo. Porque, meu irmão, minha irmã, por mais que um trigo esteja debulhado, meio capenga e mal-ajambrado, ele herdará o Céu – pois o Todo-Poderoso decretou: “Recolhei-o no meu celeiro”
Paz a todos vocês que estão em Cristo.