quarta-feira, 29 de maio de 2013

Nossos olhos estão secos!



Por  Josemar Bessa
 
Nenhuma outra geração teve uma visão tão superficial do pecado como a nossa. Leia essas palavras do Puritano William Beveridge (1637–1708), e veja a diferença para os nossos dias:

“Eu não posso orar como convém, mas eu peco. Eu não posso ouvir ou pregar um sermão de forma perfeita, mas eu peco. Eu não posso dar ofertas ou receber o sacramento de forma totalmente pura, mas eu peco. Não, eu não posso confessar sequer os meus pecados perfeitamente, mas as minhas próprias confissões ainda são agravos deles. Meu arrependimento precisa se arrepender, minhas lágrimas precisam ser lavadas, e a própria lavagem das minhas lágrimas ainda precisam ser lavadas mais uma vez com o sangue do meu Redentor. "

William Beveridge, "Private Thoughts" -  (Londres, 1720).

Somos uma geração que não chora: Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados. - Mateus 5:04

Nossa tragédia está em nossos olhos secos.

Martinho Lutero escreveu em 1521:

“Nós fomos chamados a uma vida de arrependimento.
Esta vida, por isso,
não é justiça,
mas o crescimento em justiça,
não é saúde perfeita,
mas a cura,
não sendo,
mas tornando-se,
Não descanso,
mas o exercício.
Nós não somos ainda o que havemos de ser,
mas estamos crescendo em direção a isso inexoravelmente (Santificação).
O processo ainda não está terminado,
mas está acontecendo.
Este não é o fim,
mas é a estrada.
De forma plena ainda não brilhamos  em glória,
mas tudo está sendo purificado.”

Lutero está afirmando que o arrependimento é a única forma de progresso diário na vida cristã.

Mas em nossa superficialidade nossa geração acredita que o culto deve ser um momento leve, descontraído, de boas dicas para a vida, auto-ajuda... Que ao fim todos devem ter experimentado sentimentos doces e agradáveis apenas, devem se sentir leves... Nada desagradável deve fazer parte do culto... fazer as pessoas se sentirem bem é o propósito. Com isso, o verdadeiro arrependimento foi banido do culto, e sem ele, não temos um verdadeiro culto:

“Agora, porém, me alegro, não porque vocês foram entristecidos, mas porque a tristeza os levou ao arrependimento. Pois vocês se entristeceram como Deus desejava, e de forma alguma foram prejudicados por nossa causa. A tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte”. 2 Coríntios 7:8-9

Achamos algo duro e pesado: “Chorai! Quebre seus corações!” – Pregação bíblica equilibrada em cada tema é a necessidade da hora. O estado da igreja, o estado de cada membro individual, de forma geral, na igreja de nossos dias, pede um ministério de grande despertamento sobre o arrependimento.

Um grande pregador ao ouvir Whitefield pregar disse: “Eu senti que em todo o meu ministério eu dei conforto muito cedo” – Se um pregador acha que a coisa mais importante na pregação é ter um sermão aceito e admirado por quem ouve, necessariamente irá tirar qualquer “ofensa”, desconforto, algo que leve a tristeza... deles.

O arrependimento não é produzido por corações bons em detrimento aos corações maus, o arrependimento bíblico é um dom de Deus. A natureza humana o bombeia sempre para fora de seu coração de pedra. Um sermão que move congregações ao arrependimento sob a convicção do Espírito, é um ouro fino, um artigo precioso e raro na terra em nossos dias. Assim toda a pregação se tornou fraca e isso é agravado por três fatores.

1)  O apelo do evangelismo moderno não tem sido focado em arrependimento, mas no alistamento. Mas um para o grupo...

2)  Igrejas inteiras tornaram-se simplesmente sem vontade e incapazes de aceitar a realidade da culpa pessoal ( com todo suporte que a psicologia humanista dá para isso ) e, portanto, incapazes de reconhecer sua necessidade desesperadora de arrependimento verdadeiro e bíblico.

3)   “Pecado” – é uma palavra cada vez mais raramente ouvida em nossa sociedade, exceto em caso de crimes.... As próprias igrejas não tem noção, ou negam, a união do homem com Adão, que todos nós estamos envolvidos em sua rebelião, culpa, depravação e maldição, que cada ser humano já nasce assim. Os valores humanistas corromperam os púlpitos.  O elemento central de arrependimento foi banido. O elemento central foi banido da Grande Comissão – que diz: “e que em seu nome seria pregado o arrependimento para perdão de pecados a todas as nações, começando por Jerusalém”. - Lucas 24:47

A mensagem apostólica ao mundo é um testemunho de “arrependimento para com Deus e de fé em nosso Senhor Jesus Cristo” ( Atos 20.21). Qual foi a mensagem em Atenas, para os gregos sofisticados? “No passado Deus não levou em conta essa ignorância, mas agora ordena que todos, em todo lugar, se arrependam. Pois estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio do homem que designou. E deu provas disso a todos, ressuscitando-o dentre os mortos" - Atos 17:30-31

Assim, o arrependimento é algo que muda a mente, mudando valores, metas, propósitos, visão do pecado, horror ao pecado e não simplesmente a alguns pecados particulares... A mudança é radical, tanto interna como externamente – mente, julgamento, vontade, comportamento, estilo de vida, motivos, propósitos... tudo está envolvido. Leva o homem a ir numa direção nova e viver uma nova vida.

Considere esta definição bíblica de arrependimento feita no século XVII, quando a Verdade foi vista mais claramente que em nossos dias sombrios e a preocupação de agradar e para com a honra de Deus transcendia qualquer desejo de agradar a uma congregação ou aos homens:

Movido pelo reconhecimento e sentimento, não só do perigo, mas também da impureza e odiosidade do pecado como contrários à santa natureza e justa lei de Deus; apreendendo a misericórdia divina manifestada em Cristo aos que são penitentes, o pecador pelo arrependimento, de tal maneira sente e aborrece os seus pecados, que, deixando-os, se volta para Deus, tencionando e procurando andar com ele em todos os caminhos dos seus mandamentos - Ezeq. 18:30-31 e 34:31; Sal.51:4; Jer. 31:18-19; II Cor.7:11; Sal. 119:6, 59, 106; Mat. 21:28-29.

Ainda que não devemos confiar no arrependimento como sendo de algum modo uma satisfação pelo pecado ou em qualquer sentido a causa do perdão dele, o que é ato da livre graça de Deus em Cristo, contudo, ele é de tal modo necessário aos pecadores, que sem ele ninguém poderá esperar o perdão - Ez. 36:31-32 e 16:63; Os. 14:2, 4; Rom. 3:24; Ef. 1: 7; Luc. 13:3, S; At. 17:30,31.

Como não há pecado tão pequeno que não mereça a condenação, assim também não há pecado tão grande que possa trazer a condenação sobre os que se arrependem verdadeiramente - Rom. 6:23; Mat. 12:36; Isa. 55: 7; Rom. 8:1; Isa. 1: 18.,

Os homens não devem se contentar com um arrependimento geral, mas é dever de todos procurar arrepender-se particularmente de cada um dos seus pecados - Sal. 19:13; Luc. 19:8; I Tim. 1:13, 15.

Isso é o que a Bíblia ensina, esse é o arrependimento que desejamos, e é isso que nós desejamos que todos amem, acreditem e preguem a partir de seus corações.
 

terça-feira, 28 de maio de 2013

Deus Controla a História


Arthur W. Pink
"Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém." Romanos 11:36
Até agora temos visto que Deus controla tudo, incluindo a salvação das pessoas que Ele tem escolhido. Deus o Pai escolheu certas pessoas para serem salvas; Deus o Filho morreu para salvá-las, e Deus o Espírito Santo lhes outorga a vida espiritual. Mas, está Deus controlando tudo conforme um plano determinado ou está continuamente mudando este plano? Neste capítulo veremos que Deus está controlando tudo de acordo a um plano fixo e predeterminado.
Muita gente ficaria de acordo com que Deus sabe de antemão o que acontecerá no futuro. Assim sendo, se Deus sabe o que sucederá, isto só pode significar que no passado Ele decidiu o que devia acontecer; já que se Deus não tivesse decidido o que sucederia, não poderia ter conhecido com plena certeza o que haveria de acontecer. A presciência (pré-conhecimento) de Deus não faz que as coisas aconteçam,; elas acontecem devido a que Ele já tinha decidido que sucedessem. Em Atos 15:18 diz que Deus conhecia o que ia acontecer desde antes que o mundo começasse: "Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras". Isto significa que Deus tem um plano fixo e que não o muda.
Vejamos qual foi o plano de Deus quando fez o mundo e todas as pessoas que o habitam. A Bíblia nos diz em Provérbios 16:4 que Deus fez todas as coisas para Si mesmo. Em Apocalipse 4:11 diz que Deus criou todas as coisas para Seu próprio prazer. Quando criou o mundo e especialmente quando criou o homem, tinha a intenção de manifestar sua própria glória. No obstante, Deus sabia perfeitamente, antes de criar o homem, que ele cairia. Portanto, antes que o mundo fosse feito, Deus decidiu salvar a muitas pessoas por meio do Senhor Jesus Cristo. Assim sendo, a salvação de muitos pecadores através de Cristo Jesus fez parte do plano de Deus antes que o mundo fosse feito. Deus planejou manifestar a sua bondade através da salvação de muitas pessoas pecadoras. E sendo que Deus sempre tem controlado o mundo desde a criação, Ele é perfeitamente capaz de executar seu plano de salvar a muitos pecadores dos seus pecados.
Num capítulo anterior vimos que Deus controla as coisas inanimadas e os animais. Também vimos que Deus tem usado tanto as coisas inanimadas como os animais para proteger, cuidar e ainda advertir o seu povo escolhido. Assim sendo, tanto as coisas inanimadas como os animais são utilizados por Deus em seu plano. Mas, como controla Deus os homens para efetuar seu plano de salvar seu povo de seus pecados? Primeiro consideraremos como Deus opera na vida dos seus, aqueles que têm sido escolhidos para serem salvos.
Em primeiro lugar, Deus vivifica espiritualmente seu povo escolhido.
Em si mesmas, estas pessoas não são diferentes das outras; ou seja, não desejam obedecer a Deus, assim como os outros também não o desejam. Porém Deus muda a natureza das pessoas que Ele tem escolhido a fim de que eles desejem realmente ser santos e obedecê-Lo. Esta mudança é tão grande que a Bíblia a define como "um novo nascimento". Ser vivificados espiritualmente não é meramente uma mudança temporal de opinião, senão um câmbio completo, o qual alcança a pessoa completa (sua mente, suas emoções e sua vontade). Esta mudança dura para sempre e é operada em conformidade com o plano de Deus.
Em segundo lugar, Deus dá fortaleza e poder a seu povo.
Mediante este poder os crentes são capacitados para realizar o que Ele lhes ordena. Eles são capacitados para mostrar em suas vidas os frutos do Espírito: o amor, o gozo, a paz, a paciência, a fé, a mansidão e a temperança.
Em terceiro lugar, Deus guia as pessoas escolhidas a fim de que voluntariamente realizem as coisas que Lhe agradam.
Em quarto lugar, Deus cuida de seu povo para que nesta vida possam continuar amando-O e servindo-O, cumprindo assim o Seu plano.
Em todas estas formas Deus efetua seu propósito de salvar a muitas pessoas de seus pecados. Mas também Deus efetua seus propósitos controlando a muitas pessoas malvadas. Vejamos como é Seu controle sobre este tipo de pessoas.
Em primeiro lugar, às vezes Deus evita que a gente má realize coisas malvadas. Em Números 23 a Bíblia nos fala de um homem chamado Balaão, quem tinha sido contratado para amaldiçoar o povo de Deus (os israelitas). Balaão mesmo queria amaldiçoá-los, porém Deus o deteve. Em vez de amaldiçoá-los, Deus fez com que ele os abençoasse. Assim, pois, Deus às vezes detém as pessoas malvadas de realizarem coisas perversas.
Em segundo lugar, às vezes Deus muda o pensamento das pessoas más a fim de que façam a Sua vontade. Por exemplo, quando os israelitas, o povo de Deus, foi cativo dos persas, Deus fez que o rei da Pérsia (Ciro) emitisse um decreto para a reconstrução do templo em Jerusalém.
O rei Ciro era um homem muito malvado, mas a sua mente foi mudada de modo que ele fizesse a vontade de Deus.
Em terceiro lugar, às vezes Deus faz com que surja o bem das más ações das pessoas perversas. Isto se manifesta especialmente na crucifixão do Senhor Jesus Cristo. Apesar de que os homens maus simplesmente queriam matá-lo, foi por meio de Sua morte na cruz que Cristo salvou de seus pecados a todo seu povo escolhido.
Em quarto lugar, às vezes Deus faz que as pessoas más se tornem piores. (Assim o diz Romanos 9:18: "…e endurece a quem quer"). Deus faz com que sejam incapazes de ver o bom e o verdadeiro. Assim aconteceu com Faraó, o rei dos egípcios, de tal maneira que ele chegou a ser cada vez mais cruel com os israelitas. Para nós é difícil compreender por que Deus realiza tais coisas, mas podemos estar seguros de que o Juiz Justo de toda a terra não pode cometer injustiça, e que Ele manifesta a Sua grandeza e Sua soberania quando age assim.
Então, Deus tem um propósito definido ao controlar o mundo e os seus habitantes. (Isto significa que Deus controla a história e seus acontecimentos). O plano de Deus é salvar a uma grande multidão de pessoas dos seus pecados. Ele dá ao seu povo eleito vida espiritual, poder, guia e proteção. Ele também impede, debilita, dirige ou incomoda o que a gente má faz. Assim sendo, todas as coisas são controladas por Deus e Ele efetua perfeitamente seu plano de salvar seu povo dos seus pecados. Que maravilhosa sabedoria e glória pertencem a Deus! não deve maravilhar-nos que os crentes O louvem pelo que Ele é e pelo que Ele tem feito.
TEXTOS BÍBLICOS:
Salmo 147:15-18: "O que envia o seu mandamento à terra; a sua palavra corre velozmente. O que dá a neve como lã; esparge a geada como cinza; o que lança o seu gelo em pedaços; quem pode resistir ao seu frio? Manda a sua palavra, e os faz derreter; faz soprar o vento, e correm as águas".
Isaias 14:27: "Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?"
Isaias 46:9-10: "Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade".
Provérbios 21:1: "Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer".
Provérbios 19:21: "Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho do SENHOR permanecerá".
_____________________________ Nota do tradutor: Quando a Bíblia fala de que Deus se arrepende, por exemplo, em Gênesis 6:6, não devemos entender a palavra "arrependimento" como se tivesse acontecido uma mudança em Deus. Também não devemos concluir que isso signifique o surgimento de algo não previsto por Deus em seu pano eterno. Temos que interpretar o arrependimento de Deus à luz de outras escrituras e à luz da natureza e dos atributos do próprio Deus.
Por exemplo, temos que levar em conta os seguintes versículos para poder entender o que significa o arrependimento de Deus: 1 Samuel 15:29 declara o seguinte: "E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa". Tiago 1:17 afirma que "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação." ["variação" significa "mudança"].
O salmista disse: "Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou" (Salmo 115:3). Isaias proclamou: "Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?" (Isaias 14:27). Nabucodonosor, ao voltar a si, afirmou: "E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?" (Daniel 4:35).
Jeová diz por boca de Isaias: "Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade" (Isaias 46:9-10). Outra vez o salmista escreve: "O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos do seu coração de geração em geração" (Salmo 33:11). Por fim, o apóstolo Paulo no Novo Testamento: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém" (Romanos 11:36).
Estes versículos nos conduzem a afirmar que a única interpretação correta do arrependimento de Deus é que se trata do uso de um antropomorfismo. Ou seja, que Deus digna-se falar-nos como se fosse um homem, utilizando uma linguajem humana, como se Deus experimentasse uma mudança. Mas em realidade a mudança está nos homens e na maneira como Ele trata com eles, e não na natureza de Deus.

Deus Controla a História


"Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém."
Romanos 11:36
Por A. W. Pink

Até agora temos visto que Deus controla tudo, incluindo a salvação das pessoas que Ele tem escolhido. Deus o Pai escolheu certas pessoas para serem salvas; Deus o Filho morreu para salvá-las, e Deus o Espírito Santo lhes outorga a vida espiritual. Mas, está Deus controlando tudo conforme um plano determinado ou está continuamente mudando este plano? Neste capítulo veremos que Deus está controlando tudo de acordo a um plano fixo e predeterminado.

Muita gente ficaria de acordo com que Deus sabe de antemão o que acontecerá no futuro. Assim sendo, se Deus sabe o que sucederá, isto só pode significar que no passado Ele decidiu o que devia acontecer; já que se Deus não tivesse decidido o que sucederia, não poderia ter conhecido com plena certeza o que haveria de acontecer. A presciência (pré-conhecimento) de Deus não faz que as coisas aconteçam,; elas acontecem devido a que Ele já tinha decidido que sucedessem. Em Atos 15:18 diz que Deus conhecia o que ia acontecer desde antes que o mundo começasse: "Conhecidas são a Deus, desde o princípio do mundo, todas as suas obras". Isto significa que Deus tem um plano fixo e que não o muda. (NOTA DO TRADUTOR: quando a Bíblia fala de que Deus se arrepende, por exemplo, em Gênesis 6:6, não devemos entender a palavra "arrependimento" como se tivesse acontecido uma mudança em Deus. Também não devemos concluir que isso signifique o surgimento de algo não previsto por Deus em seu pano eterno. Temos que interpretar o arrependimento de Deus à luz de outras escrituras e à luz da natureza e dos atributos do próprio Deus. Por exemplo, temos que levar em conta os seguintes versículos para poder entender o que significa o arrependimento de Deus: 1 Samuel 15:29 declara o seguinte: "E também aquele que é a Força de Israel não mente nem se arrepende; porquanto não é um homem para que se arrependa". Tiago 1:17 afirma que "Toda a boa dádiva e todo o dom perfeito vem do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não há mudança nem sombra de variação." ["variação" significa "mudança"]. O salmista disse: "Mas o nosso Deus está nos céus; fez tudo o que lhe agradou" (Salmo 115:3). Isaias proclamou: "Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?" (Isaias 14:27). Nabucodonosor, ao voltar a si, afirmou: "E todos os moradores da terra são reputados em nada, e segundo a sua vontade ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem possa estorvar a sua mão, e lhe diga: Que fazes?" (Daniel 4:35). Jeová diz por boca de Isaias: "Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade" (Isaias 46:9-10). Outra vez o salmista escreve: "O conselho do SENHOR permanece para sempre; os intentos do seu coração de geração em geração" (Salmo 33:11). Por fim, o apóstolo Paulo no Novo Testamento: "Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém" (Romanos 11:36). Estes versículos nos conduzem a afirmar que a única interpretação correta do arrependimento de Deus é que se trata do uso de um antropomorfismo. Ou seja, que Deus digna-se falar-nos como se fosse um homem, utilizando uma linguajem humana, como se Deus experimentasse uma mudança. Mas em realidade a mudança está nos homens e na maneira como Ele trata com eles, e não na natureza de Deus.)

Vejamos qual foi o plano de Deus quando fez o mundo e todas as pessoas que o habitam. A Bíblia nos diz em Provérbios 16:4 que Deus fez todas as coisas para Si mesmo. Em Apocalipse 4:11 diz que Deus criou todas as coisas para Seu próprio prazer. Quando criou o mundo e especialmente quando criou o homem, tinha a intenção de manifestar sua própria glória. No obstante, Deus sabia perfeitamente, antes de criar o homem, que ele cairia. Portanto, antes que o mundo fosse feito, Deus decidiu salvar a muitas pessoas por meio do Senhor Jesus Cristo. Assim sendo, a salvação de muitos pecadores através de Cristo Jesus fez parte do plano de Deus antes que o mundo fosse feito. Deus planejou manifestar a sua bondade através da salvação de muitas pessoas pecadoras. E sendo que Deus sempre tem controlado o mundo desde a criação, Ele é perfeitamente capaz de executar seu plano de salvar a muitos pecadores dos seus pecados.

Num capítulo anterior vimos que Deus controla as coisas inanimadas e os animais. Também vimos que Deus tem usado tanto as coisas inanimadas como os animais para proteger, cuidar e ainda advertir o seu povo escolhido. Assim sendo, tanto as coisas inanimadas como os animais são utilizados por Deus em seu plano. Mas, como controla Deus os homens para efetuar seu plano de salvar seu povo de seus pecados? Primeiro consideraremos como Deus opera na vida dos seus, aqueles que têm sido escolhidos para serem salvos.

Em primeiro lugar, Deus vivifica espiritualmente seu povo escolhido.

Em si mesmas, estas pessoas não são diferentes das outras; ou seja, não desejam obedecer a Deus, assim como os outros também não o desejam. Porém Deus muda a natureza das pessoas que Ele tem escolhido a fim de que eles desejem realmente ser santos e obedecê-Lo. Esta mudança é tão grande que a Bíblia a define como "um novo nascimento". Ser vivificados espiritualmente não é meramente uma mudança temporal de opinião, senão um câmbio completo, o qual alcança a pessoa completa (sua mente, suas emoções e sua vontade). Esta mudança dura para sempre e é operada em conformidade com o plano de Deus.

Em segundo lugar, Deus dá fortaleza e poder a seu povo. Mediante este poder os crentes são capacitados para realizar o que Ele lhes ordena. Eles são capacitados para mostrar em suas vidas os frutos do Espírito: o amor, o gozo, a paz, a paciência, a fé, a mansidão e a temperança.

Em terceiro lugar, Deus guia as pessoas escolhidas a fim de que voluntariamente realizem as coisas que Lhe agradam. Em quarto lugar, Deus cuida de seu povo para que nesta vida possam continuar amando-O e servindo-O, cumprindo assim o Seu plano.

Em todas estas formas Deus efetua seu propósito de salvar a muitas pessoas de seus pecados. Mas também Deus efetua seus propósitos controlando a muitas pessoas malvadas. Vejamos como é Seu controle sobre este tipo de pessoas.

Em primeiro lugar, às vezes Deus evita que a gente má realize coisas malvadas. Em Números 23 a Bíblia nos fala de um homem chamado Balaão, quem tinha sido contratado para amaldiçoar o povo de Deus (os israelitas). Balaão mesmo queria amaldiçoá-los, porém Deus o deteve. Em vez de amaldiçoá-los, Deus fez com que ele os abençoasse. Assim, pois, Deus às vezes detém as pessoas malvadas de realizarem coisas perversas.

Em segundo lugar, às vezes Deus muda o pensamento das pessoas más a fim de que façam a Sua vontade. Por exemplo, quando os israelitas, o povo de Deus, foi cativo dos persas, Deus fez que o rei da Pérsia (Ciro) emitisse um decreto para a reconstrução do templo em Jerusalém.

O rei Ciro era um homem muito malvado, mas a sua mente foi mudada de modo que ele fizesse a vontade de Deus. Em terceiro lugar, às vezes Deus faz com que surja o bem das más ações das pessoas perversas. Isto se manifesta especialmente na crucifixão do Senhor Jesus Cristo. Apesar de que os homens maus simplesmente queriam matá-lo, foi por meio de Sua morte na cruz que Cristo salvou de seus pecados a todo seu povo escolhido.

Em quarto lugar, às vezes Deus faz que as pessoas más se tornem piores. (Assim o diz Romanos 9:18: "…e endurece a quem quer"). Deus faz com que sejam incapazes de ver o bom e o verdadeiro. Assim aconteceu com Faraó, o rei dos egípcios, de tal maneira que ele chegou a ser cada vez mais cruel com os israelitas. Para nós é difícil compreender por que Deus realiza tais coisas, mas podemos estar seguros de que o Juiz Justo de toda a terra não pode cometer injustiça, e que Ele manifesta a Sua grandeza e Sua soberania quando age assim. Então, Deus tem um propósito definido ao controlar o mundo e os seus habitantes. (Isto significa que Deus controla a história e seus acontecimentos). O plano de Deus é salvar a uma grande multidão de pessoas dos seus pecados. Ele dá ao seu povo eleito vida espiritual, poder, guia e proteção. Ele também impede, debilita, dirige ou incomoda o que a gente má faz. Assim sendo, todas as coisas são controladas por Deus e Ele efetua perfeitamente seu plano de salvar seu povo dos seus pecados. Que maravilhosa sabedoria e glória pertencem a Deus! não deve maravilhar-nos que os crentes O louvem pelo que Ele é e pelo que Ele tem feito.

TEXTOS BÍBLICOS:

Salmo 147:15-18: "O que envia o seu mandamento à terra; a sua palavra corre velozmente. O que dá a neve como lã; esparge a geada como cinza; o que lança o seu gelo em pedaços; quem pode resistir ao seu frio? Manda a sua palavra, e os faz derreter; faz soprar o vento, e correm as águas".

Isaias 14:27: "Porque o SENHOR dos Exércitos o determinou; quem o invalidará? E a sua mão está estendida; quem, pois, a fará voltar atrás?"

Isaias 46:9-10: "Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade; que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim. Que anuncio o fim desde o princípio, e desde a antiguidade as coisas que ainda não sucederam; que digo: O meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade".

Provérbios 21:1: "Como ribeiros de águas assim é o coração do rei na mão do SENHOR, que o inclina a todo o seu querer".

Provérbios 19:21: "Muitos propósitos há no coração do homem, porém o conselho do SENHOR permanecerá".

Falsos Profetas, Falsa Paz -




Por D. M. Lloyd-Jones

- Os falsos profetas clamavam "Paz, paz"; mas não havia paz. Quando aprenderemos que não há paz permanente neste mundo e deixaremos de dar atenção aos falsos profetas? O fato de ser necessário salientar esse ponto, numa época como a nossa, quando acabamos de experimentar duas devastadoras guerras mundiais, ambas neste século, é prova, por si mesmo, da cegueira que aflige esse otimismo fatal que atinge a humanidade em sua natureza. Mas, devido à nossa cegueira, esse é um particular que deve ser salientado e repetido interminavelmente, se quisermos ser salvos.

Temos de enfrentar, portanto, questões como as seguintes: Por quanto tempo ainda teremos de esperar, antes que esse movimento ascendente e essa tendência, na humanidade, evolua a um estado de final e completa perfeição? Haverá alguma esperança para nós, ou teremos apenas de sonhar acerca de tal esperança, porquanto só se concretizará após muitas e muitas outras eras de tempo? Haverá qualquer evidência real da existência de tal avanço? Uma vez mais precisamos considerar se o mundo está se tornando mais feliz, melhor e mais gentil; se os problemas da vida estão diminuindo gradualmente em número e decrescendo em complexidade; se a desumanidade do homem contra o homem é menos evidente hoje em dia do que era antes. No entanto, todos esses problemas exigem resposta: Há provas do incremento de virtudes positi­vas? E o que dizer sobre a idéia de que tudo o quanto necessitamos é aplicar nossa capacidade cerebral, desenvolver nosso intelecto e expandir nosso conheci­mento? As pessoas dotadas de habilidade estão isentas desses problemas? O intelecto garante uma vida de felicidade perfeita? O homem que adquiriu conheci­mento e cultura, necessariamente é um modelo de todas as virtudes? Está tal homem imune a todas as enfermi­dades e dificuldades das quais a carne é herdeira? Aplica ele, invariavelmente, o seu conhecimento e os seus poderes de raciocínio, quando atraído por aquilo que sabe ser errado ou prejudicial, mas que, não obstante, lhe é atrativo e que lhe satisfaz?

Se quisermos as respostas, teremos apenas de ler as obras dos grandes escritores do mundo. Tais homens, algumas vezes, se acham entre os maiores sofredores do mundo e, com freqüência, têm suportado agonias mentais e espirituais mais pungentes do que qualquer outro tipo de pessoa. De fato, no terreno de suas rela­ções pessoais, com freqüência têm fracassado da maneira mais trágica. A filosofia de Bacon, a qual diz que "conhecimento é poder", tornou-se um popular "slogan" moderno. Mas a história, as biografias e os registros dos tribunais de justiça, bem como as colunas dos jornais, relatam uma realidade inteiramente diversa. À parte de tudo isso, entretanto, se a nossa salvação jaz no intelecto e no conhecimento, que esperança pode haver para aqueles que não foram dotados de grande intelecto, os quais, portanto, não podem ter a esperança de aprender? Uma salvação que pode salvar apenas alguns é uma zombaria e uma imitação burlesca da palavra.

Do mesmo modo, podemos ver que uma simples mudança de condições não tem possibilidade de solu­cionar o problema. São felizes todos quantos são suficientemente abastados? A possessão de coisas, casas e bens soluciona, na realidade, todos os problemas? Quem, geralmente, é mais feliz, o rico ou o pobre, o habitante da cidade ou o do campo? Em qual classe se verifica o maior número de tragédias, ou em qual delas se experimenta uma maior profundidade de miséria e desolação? A resposta, naturalmente, é que, em última análise, as condições fazem bem pouca diferença em nossa felicidade ou no caráter de nossa vida. Pelo menos, se fazem diferença, então é que estamos tendo uma modalidade de vida das mais precárias. As coisas que determinam o nosso tipo de vida são muito mais profundas — o amor ou o ódio, a inveja ou a generosi­dade de espírito, o egoísmo ou a disposição de ajudar a outros, bem como todas as várias outras qualidades de caráter que contribuem para determinar as relações humanas. Os nossos problemas e tribulações originam-se em nós mesmos e naquilo que somos.

Não queremos negar o valor da educação ou das condições econômicas. Todas as criaturas humanas têm direito a certa medida de vida decente no mundo presente e deveriam exigi-la como algo que lhes cabe; mas dizer que isso basta, e que tais coisas solucionam, sozinhas, todos os nossos problemas, é exibir um ponto de vista inteiramente falso acerca da vida. Realmente, tudo isso nos faz lembrar crescentemente daquelas palavras de Shakespeare:

A falha, querido Bruto, não se acha em nossas estrelas,

Mas em nós mesmos, que somos subalternos.

Aqueles que clamam, "Paz, paz", alicerçados sobre base tão superficial, são falsos profetas, para quem os fatos da vida replicam clamorosa e tragica­mente: "Não há paz".

Antes que possam ser solucionados os problemas da vida e dos homens, precisamos primeiramente entender a verdadeira natureza do problema. Visando esse fim, precisamos lançar fora todos os nossos preconceitos e deixar de ser governados pelos nossos desejos. Devemos estar preparados para pensar com honestidade, fazendo um exame e uma análise completos, o que nos sondará em profundidade, perscrutando tanto os nossos motivos como as nossas ações.

Fé & Sinais


Por Jorge Fernandes Isah

Algo evidente, e por demais evidente no evangelicalismo atual, são os sinais, ou melhor, a necessidade deles para se crer, para se ter fé. O pragmatismo tem-se difundido tanto em nosso meio que tudo o que não se pode ver, tocar, apropriar-se e exibir não funciona, logo deve ser descartado. Vivemos a época em que o material dita o espiritual, de tal forma que a vida neste mundo tem de ser uma prévia do sucesso a ser alcançado na eternidade. O imediato vira infinito; o temporal, eterno; o carnal, espiritual; assim como a dúvida se torna certeza; a tolice, sabedoria; o não-bíblico ganha contornos bíblicos, nem que seja na marra! Porém, fica a pergunta: isso é o Evangelho ou não passa de uma distorção do Evangelho, o contra-evangelho? A mensagem cristã travestida, corrompida, distorcida e rotulada pela mente humanista e seus valores decaídos?

Um rápido "passeio" pelas igrejas e ficará evidenciado o culto utilitarista; cuja motivação está fincada, estabelecida, nas ações, ou melhor, na eficácia delas, no sentido prático em que a fé resultará em benefícios objetivos, em ações visíveis pelas quais se conhecerá a verdade. Em outras palavras, a verdade é conhecida somente se for útil naquele momento ao indivíduo; a verdade somente pode ser conhecida pela experiência, sem a qual, não há o menor sentido [empirismo]. A coisa funciona mais ou menos assim: o indivíduo vai à igreja para buscar duas coisas: a primeira, que Deus satisfaça os seus desejos; a segunda, que seja rápido em satisfazê-los. O seu valor supremo resume-se na capacidade de Deus suprir e proporcionar prazer ao homem, e de evitar que ele sofra. Sempre tendo como ponto de partida a fé do homem, aquela em que o vitorioso a exibirá como um troféu, uma medalha pendurada no pescoço, a refletir os seus feitos. Nada a ver com a fé que nos foi entregue por Deus [Ef 2.8], e que foi uma vez dada aos santos [Jd 3].

Mas, o que vem a ser fé?

Segundo o Priberam: (latim fides, -ei) s. f. 1. Adesão absoluta do espírito àquilo que se considera verdadeiro. 2. Fidelidade 3. Prova. 4. Crença.

Segundo o Michaelis: sf (lat fide) 1 Crença, crédito; convicção da existência de algum fato ou da veracidade de alguma asserção. 2 Crença nas doutrinas da religião cristã. 3 A primeira das três virtudes teologais. 4 Fidelidade a compromissos e promessas; confiança.

E, segundo a Bíblia? "Ora, a fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem" [Hb 11.1].

As três definições não parecem harmônicas entre si? Paulo não está, de certa forma, corroborando a definição semântica que os lingüistas atribuem à palavra fé? E de que ela tem um valor pragmático-utilitarista? Implicando na legitimidade dos cultos e da vida cristã praticados atualmente pelos evangélicos? Será? O mesmo Paulo diz: "Não atentando nós nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas" [2Co 4.18]. E agora, o que lhe parece? Ele continua: "(Porque andamos por fé, e não por vista)" [2Co 5.7].

A questão é que muitos usam "e a prova das coisas que se não vêem" como a necessidade da fé produzir resultados, de tal forma que se eles não aparecem, não há fé. Mas, o que Paulo está a dizer é: a fé é a prova das coisas que não se vêem, porque andamos pela fé, não por vista. A fé é a prova, o testemunho da vida cristã, e a vida cristã é a prova da nossa fé; porque "todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as, abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra... em esperança fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança; porque o que alguém vê como o esperará? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos" [Hb 11.13; Rm 8.24-25].

Pois bem, o ponto é: tenho fé para ver, ou tenho fé para não ver? Se não ver, não tenho fé, ou mesmo não vendo, mantenho intacta a minha fé? Há uma velha onda que diz: posso tudo naquele que me fortalece, distorcendo a mensagem bíblica a fim de atender aos interesses escusos do coração. Com isso, querem dizer que, se tenho fé suficiente, posso tudo [e há de se definir o que venha a ser fé suficiente; e muitos dirão que ela será suficiente dependendo daquilo que se quer e se alcança, ou seja, o tamanho do objeto e consegui-lo é que definirá o tamanho da fé]. Mas vejamos o verso em que se baseiam: "Posso todas as coisas em Cristo que me fortalece" [Fp 4.13]. Parece uma carta-branca dada por Deus para se ter o que quiser. Bastando escrever o que mais for aprazível, agradável. Porém, o que nos fala Paulo um pouco antes? "Sei estar abatido, e sei também ter abundância; em toda a maneira, e em todas as coisas estou instruído, tanto a ter fartura, como a ter fome; tanto a ter abundância, como a padecer necessidade... todavia fizestes bem, em tomar parte na minha aflição" [Fp 4.12, 14]. Alguém se candidata a subir no púlpito e defender que posso todas as coisas em Cristo, mesmo que seja na fome e a padecer necessidade? Ou a estar abatido? Ou a participar da aflição alheia? Se pode-se todas as coisas, elas não estarão restritas apenas ao que se considera benéfico dentro do padrão humano. Riqueza, posses, poder... a solução de todos os problemas imediáticos [1] não são os únicos itens abarcados por "todas as coisas", mas também o sofrimento, a tristeza, a dor, a injustiça, a pobreza e tantos outros males. Paulo afirma claramente que Deus o sustentará em todas as situações, e de que ele viverá a fé cristã mesmo nas vissicitudes e reveses da vida.

Mais do que isso, ele chega a se gloriar em suas fraquezas, porque o poder de Deus se aperfeiçoa nela, a fim de que habite nele o poder de Cristo [2Co 12.9]. O que para muitos é sinal de fracasso, para Paulo é êxito, e assim deve ser para nós também. Devemos banir de nossas mentes o falso ensino de que a fé está atrelada ao sucesso, à riqueza, à cura, à prosperidade. Com isso, não quero dizer que pessoas de sucesso, ricas, saudáveis e prósperas não têm fé; mas de que o padrão bíblico de fé está muito além daquilo que temos, tocamos ou somos. Ele está no próprio Deus, o qual nos capacita a ter a fé verdadeira; não uma crença tola; não uma certeza no que é tangível apenas; não em reverter materialmente, numa contrapartida, o que cremos. Isso faz de Deus um negociante, e da fé uma mercadoria. Ao contrário, a fé sempre será uma relação de confiança em Deus por intermédio de Cristo, mas, sobretudo, uma relação de dependência, de submissão, de reverência, de temor a Deus; de reconhecimento da nossa frágil condição, de nossa miserabilidade e pecaminosidade diante dEle, o Deus santo e perfeito; da necessidade da sua graça e misericórdia, sem a qual sequer viveríamos, mas seríamos consumidos [Lm 3.22].

Portanto, não estou falando da fé como um conjunto de crenças; nem no assentimento intelectual puramente, como uma idéia ou conceito decorrente do estudo ou cultura; nem como a possibilidade do conhecimento divino a partir de evidências ou experiências emocionais e místicas; muito menos como a causa de resultados, ainda que proveitosos. A fé bíblica é a única capaz de fazer com que o homem reconheça o testemunho de Deus através das Escrituras, como o auto-testamento divino; nas certezas que somente podem ser vistas e entendidas por aqueles a quem Deus abrir os olhos para verem, e os ouvidos para ouvirem, e a dar-lhes entendimento para que creiam, se convertam e sejam salvos [Jo 12.40]. A fé é autenticada pelo próprio Deus, reveladas pelo seu Espírito, que no-la-deu para que pudéssemos conhecer o que nos é entregue gratuitamente por Ele [1Co 2.10-13]. Logo Cristo é o autor e consumador da nossa fé [Hb 12.2].

Alguém pode dizer: Precisamos dos sinais para crer, assim como Cristo deu sinais para que o povo cresse. Sim. Isso é verdade, o Senhor fez muitos sinais para que acreditassem ser ele o Cristo; "porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome" [Jo 20.31]. Sem que houvesse sinais, o Evangelho não seria escrito. Sem o Evangelho, como crer? Sem a palavra, seria possível conhecer a Deus e ter vida? Há de se entender que a nossa dispensação é outra. Não mais Deus fala diretamente com o povo através dos profetas. Nem os milagres são necessários para que creiamos. O Espírito é que nos ensina, instrui e convence a partir do que está escrito: a Bíblia; porque "nós temos a mente de Cristo" [1Co 2.16]. Nada mais é preciso, ainda que Deus esteja agindo, curando, santificando, salvando, segundo a sua providência, como sempre agiu na história, governando o universo. Precisamos da Palavra, do Espírito e da mente de Cristo. Mais nada, para que a nossa fé seja autêntica.

Após a ressurreição, Cristo apareceu aos apóstolos, menos um, Tomé. Diante do relato dos demais, que viram o Senhor, ele proferiu: "Se eu não vir o sinal dos cravos em suas mãos, e não puser o meu dedo no lugar dos cravos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma o crerei" [Jo 20.25]. Novamente, o Senhor encontrou os seus, e Tomé estava entre eles. Cristo lhe disse: "Põe aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; e chega a tua mão, e põe-na no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente. E Tomé, respondeu, e disse-lhe: Senhor meu, e Deus meu! Disse-lhe Jesus: Porque me viste, Tomé, creste; bem-aventurados os que não viram e creram" [Jo 20.27-29]. Esse relato não está na Bíblia atoa, mas para que creiamos, mesmo sem os sinais, mesmo sem os milagres estrepitosos; por que a nossa própria vida já é um milagre, ainda mais se significar a eternidade ao lado do nosso Senhor. Mas nada disso acontecerá se não formos resgatados das trevas pelo seu poder.

Cristo fez inúmeros milagres, tais como ninguém mais fez e viu, mesmo assim eles foram insuficientes para salvar uma multidão de incrédulos. Mesmo vendo-os, seus corações permaneceram duros, inflexíveis, diante de tão gloriosa salvação. Por que? Primeiro, os milagres não salvam. Segundo, os milagres não nos faz crer em Cristo. Terceiro, os milagres tornam-nos inescusáveis diante de Deus. Quarto, em muitos casos, o homem busca neles a sua glória, não a de Deus. Como Paulo escreveu: "Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos" [1Co 1.22-23].

De nada adiantam os milagres e o conhecimento, sem fé. Da mesma forma, de nada adianta pregar a Cristo crucificado, sem fé. Pois ele continuará indignando os que pedem milagres e os vêem mas não foram regenerados; e continuará insensato e extravagante para os que buscam conhecimento sem serem regenerados. Porém, aos que foram, bastará a pregação do Evangelho para, crendo, mesmo não vendo, amar o Senhor, "alcançando o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas" [1Pe 1.9].

Inclinando-se diante de Espantalhos: Uma análise da Nova Perspectiva em Paulo


Por John Piper

“Não somos justificados pela fé por crermos na justificação pela fé. Somos justificados pela fé por crermos no próprio evangelho – em outras palavras, por crermos que Jesus é Senhor e que Deus o ressuscitou dos mortos”
– N. T. Wright (“New Perspectives on Paul”, em Justification in Perspective).

Nos anos recentes, N. T. Wright, bispo inglês e erudito em Novo Testamento, emergiu como um ícone de teologia bíblica ao redor do mundo. Sua obra excelente sobre a ressurreição de Cristo tem influenciado muitas pessoas, incluindo Antony Flew, o ex-ateísta e famoso filósofo de seu próprio país, que se converteu ao deísmo. Wright é famoso também por ser um dos principais arquitetos da Nova Perspectiva sobre Paulo, na qual ele redefine a doutrina da justificação de um modo que transcende a disputa histórica entre o catolicismo romano e o protestantismo da Reforma. Em um sentido, Wright diz: “Uma praga em ambas as casas”, afirmando que tanto Roma como a Reforma entenderam errado e distorceram o ponto de vista bíblico quanto à justificação. Em sua resposta à crítica de John Piper à sua obra, Wright expressa condescendente menosprezo por Piper e por todos os que adotam o ponto de vista tradicional protestante quanto à justificação. Wright critica as tradições teológicas que ele acha não entendem o ensino bíblico.

No curso do debate, um dos argumentos mais enganadores e eficazes usado freqüentemente chama-se “falácia do espantalho”. O valor de um espantalho está no fato de que ele é uma imitação de um ser humano e idealizado para afastar alguns pássaros. É um recurso eficiente, mas não é tão eficaz como se um lavrador vigiasse seus próprios campos com uma espingarda. O lavrador feito de palha não é tão formidável como o verdadeiro lavrador. Isso é verdade no que diz respeito à diferença entre o autêntico e o falsificado. A falácia do espantalho acontece quando alguém cria um falso conceito da posição de seus oponentes em uma representação distorcida pela qual ele, então, destrói facilmente essa posição, em total refutação.

Uma das afirmações que N. T. Wright emprega, usando esse mesmo estratagema, é a declaração de que “não somos justificados pela fé por crermos na justificação pela fé”. Insinuar que a ortodoxia protestante crê que somos justificados por crermos na doutrina da justificação pela fé é o rei de todo os espantalhos. É o Golias dos espantalhos, o King Kong das falácias do espantalho. Em outras palavras, é uma grande mentira. Não sei de nenhum teólogo na história da tradição reformada que crê ou argumenta que uma pessoa pode ser justificada por crer na doutrina da justificação pela fé. Isso é pura e simples distorção da tradição reformada.

Na afirmação de Wright, vemos um argumento de espantalho que cai por seu próprio peso. Contém mais palha do que a figura de galhos pode suportar. A doutrina da justificação pela fé somente não ensina que a justificação acontece por crermos na doutrina da justificação pela fé somente; mas, de fato, ela ensina aquilo que é exatamente o oposto dessa idéia. A expressão “justificação pela fé somente” é uma abreviação teológica para afirmar que a justificação se dá somente por meio de Cristo. Qualquer um que entende e advoga a doutrina da justificação pela fé somente sabe que o ponto central é aquilo que justifica – confiança em Cristo e não confiança na doutrina.

Um dos termos-chave da expressão “justificação pela fé” é o vocábulo “por”, o qual demonstra que a fé é o meio ou o instrumento que nos une a Cristo e aos seus benefícios. O conceito indica que a fé é a causa “instrumental” de nossa justificação. O que está em vista na formulação protestante é uma distinção do ponto de vista católico romano quanto à causa instrumental. Roma declara que o sacramento do batismo, em primeira instância, e o da penitência, em segunda instância, são as causas instrumentais da justificação. Por isso, a disputa a respeito de que instrumento é a base pela qual somos justificados foi e continua sendo a disputa clássica entre a Igreja de Roma e o protestantismo. O ponto de vista protestante, seguindo o ensino de Paulo no Novo Testamento, é o de que a fé é o único instrumento pelo qual somos unidos a Cristo.

Intimamente relacionada a isso, está a disputadíssima questão dos fundamentos de nossa justificação diante de Deus. Nesse ponto, o conceito bíblico da imputação é sobremodo importante. Aqueles que negam a imputação como fundamento de nossa justificação declaram que isso é uma ficção jurídica, um erro judicial ou mesmo uma manifestação de abuso infantil cósmico. No entanto, ao mesmo tempo, a imputação é a explicação bíblica para o fundamento de nossa redenção. Nenhum texto bíblico ensina isso mais claramente esse conceito de transferência ou imputação do que o texto de Isaías 53, que a igreja do Novo Testamento ressaltou como uma explicação profética crucial do drama da redenção. O Novo Testamento declara que Cristo é a nossa justiça, e é precisamente a nossa confiança na justiça de Cristo como fundamento de nossa justificação que é o foco da doutrina da justificação pela fé. Entendemos que crer na doutrina de Sola Fides não salva ninguém. A fé em uma doutrina não é suficiente para salvar. Contudo, embora não sejamos salvos por crer na doutrina da justificação, a negação dessa mesma doutrina pode ser fatal, porque nega a doutrina da justificação pela fé somente. O apóstolo Paulo mostrou, na Epístola aos Gálatas, que tal negação equivale a rejeitar o evangelho e substituí-lo por alguma outra coisa; e isso resultaria em sua anatematização por parte de Paulo. O evangelho é importante demais para ser rejeitado por inclinar-nos diante de espantalhos.

PADARIA SEM PÃO

 
Por Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho
Um dia desses, saídos da igreja, Meacir e eu paramos numa padaria que fora reformada. Nova frente, vitrinas amplas, ar condicionado, bom espaço, prateleiras circulares ao redor das pilastras e outras horizontais. Muito material: suco, refresco, panetone, lanchonete, congelados. Que legal! Um bom lugar para comprarmos um pãozinho quente na ida para casa. Só que, tendo muita coisa, a padaria não tinha pão. Padaria sem pão.
Um amigo meu, no tempo em que não havia etanol, apenas gasolina e diesel, parou num posto de gasolina, entregou a chave do possante Fusca ao frentista e pediu “Completa!”. O frentista indagou: “O senhor quer gasolina?”. O amigo, que não tinha muito humor, retrucou: “Não, quero banana. Vim comprar banana!”.

Não fui grosseiro assim. Até porque eu não queria gasolina. Mas também não queria energético, revistas de palavras cruzadas, chaveiro de time de futebol ou lâmina de barbear. Queria pão. Como não havia, fui-me embora.

Há igrejas como esta padaria. A pessoa não ouve falar de Jesus, embora a igreja seja dele. Ela louva o louvor, reivindica, declara, aperta o braço do irmão e diz que ele nasceu para ser vencedor (ao comando do dirigente), mas não ouve falar de Jesus, da cruz, da salvação eterna ganha no Calvário. Padaria sem o Pão da Vida.

Padaria sem pão é culto sem Jesus e sem a cruz. É o culto em que a Bíblia não é proclamada em sua inteireza, mas apenas partes isoladas que não mostram seu ensino, e sim o que as pessoas desejam. Padaria sem pão é o culto sem proclamação da soberania de Deus, da sua graça que perdoa nossos pecados quando nos arrependemos, mas apenas apresenta palavras de animação. Padaria sem pão tem o rosto de Lair Ribeiro, não o de Jesus. Os ouvintes não são pecadores que precisam ser confrontados com sua situação real e com a graça de Deus que os aceita, perdoa e restaura. Numa cópia do mundo, eles são vítimas de um mundo mau e de um Maligno que lhes tira as coisas e eles devem vir pedir restituição na igreja. Padaria sem pão é a igreja que vê culpados como coitadinhos. E ao invés de chamá-los ao arrependimento e a depositarem a vida e a fé em Jesus, ministra-lhes terapia de segunda categoria: como se sentir bem em seus pecados, ao invés de deixá-los.

Padaria sem pão tem muita coisa. Mas não tem o essencial. Igreja sem o essencial é assim. Tem o jantarzinho, a pelada sabatina, o joguinho de vôlei, o cineminha evangélico, o carteado entre irmãos, mas não tem a adoração ao Deus Santo, com o temor de Isaías (Is 6.5) e com o sentimento de indignidade de Pedro (“Retira-te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador” – Lc 5.8). Padaria sem pão tem festa, mas não quebrantamento. Tem alarido, mas não convicção de pecado.

Deus amado, não nos deixe ser padaria sem pão! Que queiramos o Pão da Vida, e não os badulaques da padaria.